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Numa famosa (e lúcida) frase que causava choque entre seus pares, a estilista francesa Coco Chanel (1883-1971) proclamou: “A moda não é uma arte, é um negócio”. Pois bem: um fenômeno irônico dos dias atuais comprova que a moda continua sendo, óbvio, um grande negócio — mas, ao menos sob um aspecto, agora também se iguala à arte, sim. Não nas paredes dos museus, mas sob o som do martelo nos leilões: num mercado de luxo saturado por excesso de oferta e pelo scroll infinito nas redes sociais, as vendas de roupas e acessórios em casas tradicionais como a Sotheby’s e a Christie’s estão forjando um novo palco e, sobretudo, um novo público para as criações de grifes e estilistas.

ACESSO - Vestido e calça da série And Just Like That...: a preços democráticos para a geração Z
ACESSO - Vestido e calça da série And Just Like That…: a preços democráticos para a geração Z (Fotos Julien’s Auctions/.)

As explicações para isso têm a ver com eloquentes mudanças de comportamento. Hoje, vestidos, jaquetas e afins não são apenas objetos de consumo, são cápsulas de memória. E é exatamente o que seduz os millenials e a geração Z, que cresceram desconfiados da ideia de novidade, mas fascinados por um conceito caro à moda: a procedência. Essas gerações já não compram só o “o quê”, mas o “de quem” e o “de onde”. Querem narrativa, lastro, contexto — algo que já exigem nas compras cotidianas e que, nos leilões, atinge o auge.

Nos últimos tempos, eventos concorridos ilustraram a força desse mercado. Os lances envolveram acervos de celebridades, estrelas da música e até personagens de séries de TV. Na mais recente e bombástica dessas vendas, realizada na semana passada, foram ao martelo peças usadas por Carrie Bradshaw, personagem da atriz Sarah Jessica Parker na série Sex and the City — no caso, não se tratava de itens da trama original, mas da nova encarnação de Carrie em And Just Like That…, exibida recentemente pela HBO Max. A série em si é fraquinha, mas seu alcance como indutora de estilo não é nada desprezível, mostrou o leilão em Los Angeles. Com mais de 500 lotes, a venda incluiu desde figurinos até móveis e objetos de cena — e por preços democráticos para os jovens compradores. O relógio com o qual Carrie presenteou Mr. Big dobrou sua estimativa inicial, passando dos 2 500 dólares. Um conjunto de malas superou expectativas, atingindo cerca de 2 880 dólares — e um mero livro que a personagem exibia em cena alcançou a cifra de 2 240 dólares.

MITO ACESSÍVEL - Elton John em meio a suas peças: a biografia virou ativo
MITO ACESSÍVEL - Elton John em meio a suas peças: a biografia virou ativo (./Divulgação)
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Esse “quem dá mais?” pelo guarda-roupa de Carrie Bradshaw engrossou uma tendência que já exibia sua força nos leilões de memorabilia de estrelas musicais como Elton John. Em 2024, óculos, figurinos e objetos pessoais do artista se transformaram em relíquias disputadas globalmente. O conjunto ultrapassou os 100 milhões de reais, com renda destinada à filantropia. Mais que cifras, o que se comprava ali era proximidade simbólica com uma trajetória que moldou a cultura pop. Outro case de sucesso são os diversos leilões recentes de criações do estilista Bob Mackie, que ajudaram a definir o imaginário das celebridades — como o naked dress usado por Cher em 1978, arrematado por 45 000 dólares.

NARRATIVA - Os looks de Gwyneth Paltrow: até o longo do Oscar foi arrematado
NARRATIVA - Os looks de Gwyneth Paltrow: até o longo do Oscar foi arrematado (Julien’s Auctions/.)

Há um fascínio silencioso, quase devocional, por essas peças. O leilão do acervo de Carolyn Bessette-Kennedy, em março, mostrou que o minimalismo dos anos 1990 segue reverberando. Casacos da Prada e criações de Yohji Yamamoto que pertenceram à ex-socialite do clã Kennedy, morta num acidente aéreo em 1999, carregam uma aura de magnetismo e mistério. Já o leilão de roupas da atriz Gwyneth Paltrow, feito pela Julien’s Auctions, revelou outra faceta: a moda como autobiografia editada. Entre os destaques, peças como o vestido que ela usou na noite do Oscar de 1999, quando tirou a estatueta de atriz das mãos de Fernanda Montenegro com o filme Shakespeare Apaixonado, além de criações de John Galliano para a Dior. A projeção das vendas foi estimada em até 500 000 dólares, com parte revertida a causas sociais. Leiloar modelitos assim é “muito íntimo”, refletiu a leiloeira Camille de Foresta, da Christie’s. Numa era em que o martelo virou fashion, isso também pode ser muito lucrativo.

Publicado em VEJA de 8 de maio de 2026, edição nº 2994



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