Entre mamadeiras, noites mal dormidas e o som familiar do ginásio, a volta de Jade Barbosa, 34 anos, à ginástica tem sido tudo menos trivial. E exatamente por isso, tão simbólica. A maternidade não apenas redefiniu sua rotina, mas também ressignificou sua relação com o próprio corpo, com o tempo e com a ideia de performance. O retorno aos treinos acontece em ritmo gradual, com a ajuda do marido, o empresário Leandro Fontanesi, e a companhia da primeira filha Eva, de 5 meses. Sem pressa para planos grandiosos, a atleta conversa com a coluna GENTE sobre a “nova Jade”.

Como a maternidade mudou sua visão sobre ginástica e carreira? As pessoas têm me perguntando muito sobre isso, mas confesso que ainda estou processando. Não tenho resposta concreta. São muitas mudanças, hormônios, prioridades, lições, adaptações, é nova vida, uma nova Jade, nova família, nova forma de trabalhar, de me dedicar. Sinto que ainda será um processo longo e que vou entender tudo ao longo do caminho.

Quais serão os maiores desafios de conciliar treinos de alto rendimento com a rotina de mãe? Voltei a treinar há pouco tempo, ainda com muito cuidado, progredindo aos poucos e observando o meu corpo. Ao mesmo tempo que ter a Eva ali do pertinho no ginásio é a realização do meu maior sonho. Estou vivendo um dia de cada vez e pensando em dar conta de cada momento. Ainda não é hora de planos de longo prazo. Estou entendendo esse novo corpo, vivendo essa nova rotina e descobrindo os meus novos limites. A maternidade te trouxe novas perspectivas dentro do esporte? Uma nova força, com certeza. Mas não sinto maior ou menor, porque tudo é diferente. Sei que a ginástica segue aqui mexendo com o meu coração, fazendo a minha vida girar e estarei ligada a ela 100%. Hoje, agora, quero seguir treinando, retomando a forma física, ganhando de novo todos os movimentos e sentindo meu corpo. Ao mesmo tempo, amo acompanhar os processos da minha modalidade, cuidar da parte criativa, dos collants, coreografias, estar com as outras atletas, com as crianças…

Como é sua rede de apoio no dia a dia? Leandro, meu marido, está comigo 100% do tempo. Meu pai é muito presente, tenho ajuda com a casa também e como falei estou descobrindo a melhor forma de executar tudo. Mas já sinto que é um processo vivo, que todo dia não vai ser igual, por mais a gente tente estabelecer uma rotina, e que está tudo bem se tido não der certo o tempo todo.

Existe alguma pressão maior após se tornar mãe atleta? Existe pressão o tempo todo. Não existe ser atleta e não lidar com pressão. Mas a maior armadilha que podemos cair é o pensamento de que algum dia tudo vai ser como antes. Seja o nosso corpo, a nossa performance, a nossa rotina. Isso é ilusão. Nunca mais serei como antes. E isso não significa ser melhor ou pior, só significa que tudo é diferente.

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Houve adaptações específicas no seu planejamento físico e mental? Totalmente. Ainda estou longe de onde quero chegar, mas ainda não sei como vai ser até lá. E agora não é hora de pensar nisso. Estou sendo acompanhada, monitorada, e evoluindo aos poucos. Sou a primeira ginasta mãe da ginástica artística no Brasil. O planejamento é ir devagar, entendendo o dia a dia e traçando pequenas metas.

Que conselhos daria para atletas que desejam ser mães e continuar competindo? O mundo mudou muito e a gente cada vez mais está tendo acesso a leis e projetos que nos protegem. Também temos que pensar nos nossos sonhos pessoais. Se esse é um desejo, vá atrás, se cuide, planeje, faça e retorno quando for o seu tempo. É preciso respeitar o tempo de cada mulher.

Como enxerga a evolução da ginástica brasileira hoje? A ginástica passou por processos muito duros, mas me sinto feliz por ter feito parte disso e de ter conquistado tanta coisa. Muita gente lutou antes de mim, pude lutar, e sinto que as futuras gerações terão acesso a ambientes mais acolhedores e que possibilitem que as ginastas sejam mais respeitadas. Tenho orgulho de tudo que a Daiane (dos Santos) e a geração dela fez, a nossa medalha em conjunto foi histórica, extremamente importante para nossa modalidade, e desejo que siga rendendo frutos.

Existe algum sonho ainda não realizado dentro da ginástica? Eu ia amar muito ver a Eva me assistindo competir. Minha mãe foi uma pessoa presente nos ginásios, meu pai se manteve ali depois da partida dela, valorizo muito a minha família e desejo ainda viver isso em um futuro.



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