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Depois do chefe da diplomacia dos Estados Unidos, Marco Rubio, dar um pulinho no Vaticano para pôr panos quentes à contenda que seu chefe, Donald Trump, abriu com o papa Leão XIV, o governo americano bem que tentou pintar um quadro feliz (as conversas foram “amistosas” e evidenciaram “relações sólidas” com a Santa Sé), mas o pontífice deu sinais de que não se surpreenderia com um segundo round (disse que pediu a Deus para que líderes “acalmem o rancor”).
Pois quem também pode estar rezando para que Trump deixe a rixa para lá são seus correligionários. Se, no campo diplomático, a escalada verbal contra Leão XIV já cobra seu preço em desgaste internacional, no tabuleiro doméstico o risco é ainda mais tangível — e potencialmente decisivo. A poucos meses das eleições de meio de mandato, em novembro, o presidente americano flerta com um erro estratégico: alienar justamente o núcleo duro de sua base eleitoral.

“A maioria dos católicos americanos votou em Trump, mas parece que, como muitos ex-apoiadores, seu entusiasmo pelo presidente está diminuindo”, afirmou o historiador Robert Orsi, da Universidade Northwestern, em Illinois.
Aliança pragmática
Desde sua ascensão política, Trump construiu uma coalizão robusta entre cristãos conservadores, especialmente evangélicos brancos e católicos tradicionalistas. Esse grupo foi crucial não apenas para sua vitória em 2016, mas também para seu retorno à Casa Branca em 2024. Em troca, o republicano entregou políticas alinhadas a pautas caras a esse eleitorado, como restrições ao aborto, defesa da liberdade religiosa e nomeações judiciais conservadoras. Trata-se de uma relação pragmática, sustentada menos por afinidade espiritual genuína e mais por convergência ideológica.

O embate com Leão XIV, porém, tensiona esse equilíbrio. Diferentemente de seu antecessor, o novo pontífice conseguiu rapidamente angariar simpatia entre alas conservadoras da Igreja ao recuperar símbolos tradicionais e adotar uma postura doutrinária mais ortodoxa. Ao mesmo tempo, mantém um discurso moral incisivo em temas como guerra e imigração — exatamente os pontos em que Trump tem sido mais vocal. O resultado é um choque direto não apenas entre duas lideranças, mas entre referências de autoridade para milhões de eleitores.
“A diferença é que Leão não tem mandato fixo, é imune às preferências eleitorais. Mesmo que sua imagem seja afetada, o que não foi, ele não vai a lugar nenhum. Portanto, em todos os sentidos, o conflito público é mais custoso para Donald Trump”, disse a VEJA o teólogo Steven Millies, da União Teológica Católica de Chicago, onde o papa se formou.
Desgaste
Outro elemento que ampliou o mal-estar foi a circulação, nas redes sociais do próprio Trump, de imagens geradas por inteligência artificial em que ele aparece caracterizado como Jesus Cristo e até como o próprio papa. A iniciativa, tratada por aliados como provocação ou humor, foi recebida com forte rejeição por lideranças religiosas e fiéis, que enxergaram nas montagens um gesto de desrespeito e até blasfêmia.

Pesquisas recentes já indicam sinais de erosão. Embora Trump ainda mantenha maioria entre católicos brancos, a margem encolheu, e a desaprovação cresce sobretudo entre eleitores que valorizam a autoridade papal como guia moral. Entre católicos latinos, historicamente mais voláteis e cada vez mais relevantes em estados-chave, o cenário é ainda mais desfavorável. A crítica aberta ao papa — figura central para esses grupos — é vista como um excesso difícil de justificar, mesmo dentro de um eleitorado acostumado ao estilo combativo do presidente.
“Como o primeiro papa nascido nos Estados Unidos, Leão XIV é extremamente popular no país. Os ataques contra ele despertaram lembranças ruins do sentimento anticatólico que dominou a política na era John F. Kennedy, primeiro presidente da denominação. Para muitos, Trump ultrapassou os limites, diferente de suas críticas ao papa Francisco — com o argentino, religiosos de direita sempre puderam alegar que o pontífice não “entendia” a política americana. Não se pode dizer o mesmo sobre Leão”, afirma Natalia Imperatori-Lee, professora de eclesiologia na Universidade Fordham, em Nova York.
Eleições na esquina
O timing agrava o problema. As midterms definirão o controle do Congresso, hoje nas mãos dos republicanos, e tradicionalmente funcionam como um referendo sobre o governo em exercício. Pequenas mudanças de humor em segmentos específicos podem ter impacto desproporcional, especialmente em estados-pêndulo como Pensilvânia, Wisconsin e Arizona, onde margens apertadas decidem cadeiras estratégicas. Uma perda de apoio entre cristãos conservadores, ainda que limitada, pode ser suficiente para inclinar disputas decisivas a favor dos democratas.

“Claro, eleitores americanos têm outras coisas em mente – principalmente a economia – e costumam se comover menos com política externa e política religiosa. De qualquer forma, os índices de aprovação do presidente caíram por muitos outros motivos, como a guerra no Irã”, ressaltou William Barbieri, da Universidade Católica da América, em Washington, D.C, em conversa com VEJA.
Estratégia da oposição
Além disso, o episódio reforça uma narrativa explorada pela oposição: a de um presidente impulsivo, incapaz de construir pontes mesmo com aliados naturais. Ao comprar uma briga com o líder máximo da Igreja Católica — e insistir nela — Trump oferece aos adversários um símbolo poderoso de isolamento político e desgaste moral. Democratas já ensaiam capitalizar o desconforto religioso, buscando atrair eleitores moderados que, embora conservadores em costumes, rejeitam confrontos considerados desnecessários ou desrespeitosos.

“Para quem compartilha a visão da Igreja de uma ordem global fundamentada na paz e nos direitos humanos, católicos e não católicos, a liderança de Leão XIV é um lembrete extremamente necessário de que tal mundo é moralmente necessário e possível na prática”, diz Nicholas Hayes-Mota, professor de ética na Santa Clara University, na Califórnia.
No xadrez eleitoral americano, onde percepção e identidade pesam tanto quanto políticas públicas, a disputa com Leão XIV pode se revelar um tiro no pé. Ao transformar um aliado potencial em antagonista, Trump arrisca não apenas perder apoio, mas redefinir os termos da própria coalizão que o sustenta. E, em um cenário de polarização extrema, às vezes basta uma fissura — ainda que pequena — para fazer ruir uma maioria.