
Ler Resumo
O sucesso das teorias conspiratórias tem um motivo evidente: elas atendem a necessidades arraigadas do ser humano. Seja ter explicações simples para assuntos complicados, seja fomentar um senso de superioridade em relação aos “outros”, os ingênuos que não compartilham do conhecimento sobre a causa final de todas as coisas. Em vários sentidos, elas reforçam egos fracos, aqueles que, real ou metaforicamente, balançam a cabeça com incredulidade e dão um sorriso superior diante de tudo o que “eles” falam. Um desequilibrado correu em direção ao salão onde estavam Donald Trump e a elite da república com duas armas de fogo e três facas? É claro que foi uma manobra maligna do presidente para melhorar seus fracos índices de aprovação. Fazer um truque desses diante dos principais jornalistas dos Estados Unidos, profissionais gabaritadíssimos da apuração dos fatos, não seria burrice? Não, não, é justamente uma prova de que foi tudo armação: os jornalistas estavam lá para chancelar a manipulação.
“Desconfiar da versão oficial dos fatos é, originalmente, uma atitude saudável”
Desconfiar da versão oficial dos fatos é, originalmente, uma atitude saudável, em especial em sistemas políticos onde não existe a liberdade de imprensa. Uma das mais conhecidas piadas da época da União Soviética jogava com o título dos dois principais jornais oficiais, o Pravda (“Verdade”), e o Izvestia (“Notícias”). Dizia ela: “Não há notícias na Verdade e não há verdade nas Notícias”. Em russo, é muito mais cortante. Quando a saudável desconfiança vira uma credulidade com sinal invertido, instaura-se a disposição para acreditar em qualquer “explicação” distorcida, por mais absurda que seja. Atualmente, por exemplo, existe um considerável contingente de americanos convencidos de que a viúva de Charlie Kirk, Erika, mandou matar o marido. O assassino, Tyler Robinson, foi preso, escreveu inúmeras mensagens anunciando suas intenções e sua motivação — vingar a namorada transexual —, mas é muito mais “sofisticado” atribuir tudo a uma conspiração maligna, com direito a Israel no coração da trama.
A vida é complicada e nem sempre fatos de grande impacto têm explicações categóricas? Sem dúvida nenhuma. A rejeição à indicação de Jorge Messias ao STF foi tão estarrecedora que provocou uma caça aos traidores. As explicações tornaram-se tão convolutas que, a certa altura, produziram o que o senador Renan Calheiros ironizou como “efeitos lisérgicos”. Fora do mundo das drogas recreativas (e das tramoias do Congresso brasileiro), efeitos lisérgicos fazem mal à mente e ao espírito. Em lugar da busca, nem sempre bem-sucedida, de explicações, fatos e provas, instalam-se certezas sem fundamentos. É mais fácil acreditar que Trump manipulou toda a imprensa dos EUA do que admitir que o maior esquema de segurança do mundo pode ser furado por um maluco. Detalhe: conspiracionistas de oposição acreditam que o atentado foi armação, enquanto os simpáticos a Trump estão convencidos de uma grave infiltração no Serviço Secreto. Não caia na armadilha descrita por Bertrand Russell: “O homem é um animal crédulo e precisa acreditar em alguma coisa; na ausência de bons motivos para acreditar, contentar-se-á com os maus”.
Publicado em VEJA de 8 de maio de 2026, edição nº 2994