Um estudo divulgado pelo Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo & Mercado de Consumo (IBEVAR), em parceria com a FIA Business School, estima que os efeitos do tarifaço proposto pelo governo de Donald Trump contra produtos brasileiros podem ir muito além das empresas exportadoras.

Segundo o relatório, elaborado para medir os possíveis impactos das tarifas anunciadas pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), as medidas têm potencial para retirar entre R$ 15 bilhões e R$ 38 bilhões do consumo das famílias brasileiras em 2026, colocar US$ 9,5 bilhões em exportações industriais sob risco e reduzir o crescimento econômico do país.

Nas últimas semanas, o governo americano abriu investigações envolvendo práticas comerciais brasileiras e anunciou a intenção de impor novas tarifas sobre produtos exportados pelo país. Entre as medidas discutidas estão uma sobretaxa de 25% relacionada a disputas bilaterais e uma tarifa adicional de 12,5% ligada a questionamentos sobre o combate ao trabalho forçado. Caso ambas sejam implementadas, a carga adicional chegaria a 37,5% sobre parte das exportações brasileiras, segundo o estudo.

Os pesquisadores apontam que os setores mais expostos seriam máquinas pesadas, transformadores elétricos, madeira, granito trabalhado e etanol.

Como o impacto chegaria ao consumidor?

 De acordo com os autores, o choque se espalharia pela economia por diferentes canais. O primeiro deles seria a redução da atividade em cadeias produtivas ligadas às exportações. Empresas fornecedoras, transportadoras, seguradoras e prestadores de serviços também poderiam sentir os efeitos de uma eventual queda na demanda externa. Em seguida, o relatório projeta pressão sobre o câmbio, com possível valorização do dólar, encarecendo máquinas, equipamentos e insumos importados utilizados pela indústria nacional.

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Na etapa seguinte, parte desses custos seria repassada aos preços finais. O estudo cita especialmente alimentos industrializados, bebidas, transporte e materiais de construção como segmentos suscetíveis a aumentos de preços.

Segundo os cálculos do IBEVAR e da FIA, o consumo das famílias absorveria entre 40% e 50% do impacto econômico total provocado pelas tarifas. Em um cenário considerado central pelos autores, a perda alcançaria cerca de R$ 22,5 bilhões.

Desse montante, aproximadamente R$ 7 bilhões atingiriam o chamado varejo restrito, categoria que engloba atividades como supermercados, farmácias e lojas de bens de consumo, enquanto outros R$ 10,5 bilhões afetariam o varejo ampliado, que inclui segmentos dependentes de crédito, como veículos e materiais de construção.

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PIB pode perder até 0,6 ponto percentual

O estudo também apresenta projeções para o crescimento econômico do país. Segundo o relatório, o impacto sobre o Produto Interno Bruto (PIB) poderia variar entre 0,3 e 0,6 ponto percentual em 2026.

No cenário mais adverso considerado pelos pesquisadores, a desaceleração corresponderia a aproximadamente R$ 76 bilhões em atividade econômica ao longo do ano. As estimativas partem da premissa de que a combinação de menor exportação, redução de investimentos e enfraquecimento do consumo doméstico produziria um efeito em cascata sobre a economia brasileira.

Os autores observam, porém, que o Brasil é uma economia relativamente fechada em comparação com outros países. Exportações e importações representam cerca de 18% do PIB nacional, o que tende a limitar os efeitos diretos de medidas comerciais adotadas no exterior. Ainda assim, o relatório argumenta que impactos indiretos sobre câmbio, crédito e confiança empresarial podem se mostrar mais amplos.

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No agronegócio, o estudo menciona a carne bovina entre os segmentos mais vulneráveis, projetando uma possível retração de até 20% das exportações para os Estados Unidos. Já na indústria, os autores destacam a aeronáutica e a siderurgia entre os setores mais expostos às mudanças nas condições de acesso ao mercado americano.

Por enquanto, as tarifas permanecem em fase de discussão. O processo conduzido pelo USTR prevê consulta pública até 6 de julho e audiências em 7 de julho. A decisão final caberá ao presidente Donald Trump, que tem até 15 de julho para definir se as medidas serão efetivamente implementadas. Segundo o estudo, a própria incerteza em torno do tema já pode produzir efeitos econômicos ao adiar investimentos e aumentar a cautela de empresas e investidores.



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