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Com 43 milhões de seguidores nas redes sociais, o deputado federal Nikolas Ferreira já conseguiu com uma única postagem demolir um projeto importante do governo, desgastar a imagem do presidente Lula e inflamar os oposicionistas. O parlamentar, um ás da militância digital, é, por isso, uma peça estratégica na campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República. A previsão de que a eleição de outubro deve ser decidida por uma pequena margem de votos, como aconteceu em 2022, vai acirrar a disputa nesse território em que a tentativa de capturar o eleitor não costuma seguir regras mínimas de civilidade nem ter compromisso com os fatos. Nos últimos dias, por exemplo, as plataformas foram inundadas de comentários, recortes de entrevistas e memes sobre os embates entre o Brasil e os Estados Unidos. Há versões para todos os gostos, mas, de acordo com levantamentos feitos por empresas especializadas, a narrativa difundida pelo governo, de que o Brasil foi mais uma vez prejudicado pelos Estados Unidos por influência da família Bolsonaro, desta vez prevaleceu sobre a da oposição.

OPOSIÇÃO - Nikolas: craque nas narrativas e rival do petista em Minas, o deputado do PL foi escolhido como um dos alvos principais do governo
OPOSIÇÃO - Nikolas: craque nas narrativas e rival do petista em Minas, o deputado do PL foi escolhido como um dos alvos principais do governo (Edilson Rodrigues/Agência Senado; @NIKOLAS_DM/X)

O resultado foi comemorado pelo PT, particularmente pelo vereador de Belo Horizonte Pedro Rousseff, escalado para coordenar a estratégia do partido nas redes sociais durante a campanha eleitoral. “Dentro de uma guerra, cada um tem uma função. E a minha é ser o soldado de frente”, diz o sobrinho-neto da ex-presidente Dilma Rousseff. O sobrenome, em princípio, nada teve a ver com a ascensão na hierarquia da legenda. Desde que foi eleito em 2024, Pedro vinha atuando como consultor do governo sobre intervenções digitais em momentos de crise. No início do ano, ele foi chamado para uma reunião com o presidente Lula no Palácio do Planalto, onde estavam também a primeira-dama Janja da Silva e o ministro Sidônio Palmeira, chefe da Secretaria de Comunicação da Presidência. Elogiado pela “irreverência e combatividade”, o vereador foi convidado para “fazer na internet tudo aquilo que Lula não poderá fazer”, segundo as próprias palavras de Pedro Rousseff.

A missão dele é alinhar suas redes sociais, que têm cerca de 2 milhões de seguidores, com as do PT não só para fazer frente à oposição, mas também para unificar a ação e o discurso da militância na internet. Em 2022, essa tarefa foi confiada ao deputado André Janones (Rede-MG), que acabou se envolvendo em uma série de confusões e perdeu o posto após as notícias de que havia confiscado o salário dos funcionários de seu gabinete, esquema conhecido como rachadinha. Caberá agora ao sobrinho-neto de Dilma, além de responder aos ataques virtuais, proteger e defender Lula. “O presidente, em certos casos, precisará ignorar o adversário e ter pessoas como eu, que atuem para colocar as coisas no lugar em nome dele”, explica o vereador. “A estratégia é deixar Lula focado em fazer entregas, em anunciar investimentos, em dar notícias boas sempre que possível. Quem tem que ir para o combate, para o bate-boca, para o enfrentamento sou eu. É para isso que fui escalado”, acrescenta.

SINAL VERDE - Sidônio e Janja: o ministro e a primeira-dama avalizaram o nome do vereador
SINAL VERDE - Sidônio e Janja: o ministro e a primeira-dama avalizaram o nome do vereador (Marcelo Camargo/Agência Brasil)
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Rousseff criou um grupo de Whats­App com mais de 400 influenciadores alinhados ao governo através dos quais pretende difundir conteúdos e repassar orientações sobre estratégias que a militância deve seguir no embate nas redes sociais. O grupo foi batizado de “guerrilha”. “Apareceram fake news, crítica ou qualquer ataque ao presidente, a gente entra em campo”, ressalta o vereador de 26 anos. O principal alvo, claro, é Flávio Bolsonaro. O caso Master, aliás, foi o primeiro grande teste do vereador. Diante da notícia de que o candidato do PL havia pedido dinheiro ao dono do banco para financiar uma cinebiografia do pai, a “guerrilha” foi acionada. De acordo com a Palver, empresa de tecnologia que analisa em tempo real mais de 100 000 grupos de Whats­App e Telegram, 62% das mensagens que circularam pelas duas plataformas sobre a relação do senador com o Master foram de críticas ao candidato do PL. A ação do grupo, portanto, foi considerada bem-sucedida.

O segundo teste foi feito imediatamente após o anúncio do governo americano de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas — medida amplamente elogiada pela oposição nas redes sociais. A “guerrilha” impulsionou discursos e manifestações de governistas sobre a suposta ameaça à soberania que representava a decisão dos Estados Unidos. Segundo o levantamento da Palver, mais de 59% das mensagens monitoradas pela empresa eram desfavoráveis à decisão. “As pessoas são contra a intervenção americana, a ameaça que é difundida pelos grupos de esquerda”, avalia Luis Fakhouri, um dos responsáveis pela consultoria. Ou seja: a ação da “guerrilha”, de novo, foi bem-sucedida.

CAMPANHA DE 2022 - Janones: confusões, trapalhadas e rachadinha
CAMPANHA DE 2022 - Janones: confusões, trapalhadas e rachadinha (Marlene Bergamo/Folhapress/.)
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Do outro lado do ringue, a pré-campanha de Flávio Bolsonaro está montando um bunker que vai centralizar as ações virtuais do PL. O grupo ficará baseado em São Paulo e contará com a participação de doze pessoas, cuja função, além de promover ataques, será monitorar mensagens publicadas pelos adversários nas redes sociais e, se for o caso, iniciar o contra-ataque. A coordenação de campanha do senador quer Nikolas Ferreira como inspirador desse grupo, o que certamente vai acirrar ainda mais as animosidades entre governo e oposição.

O deputado foi escolhido como o segundo alvo principal do PT. “Nikolas é um político muito perigoso. Ele não tem ética nem moral. Temos que enfrentá-lo”, dispara Pedro Rousseff. Além das posições antagônicas, os dois têm uma rixa pessoal, vivem trocando acusações, se enfrentam em processos judiciais e vão disputar em outubro uma vaga na Câmara dos Deputados. O parlamentar do PL tem vinte vezes mais seguidores do que o rival. Recentemente, ao noticiar que a Justiça havia acatado uma denúncia de difamação contra o vereador, o deputado publicou um post substituindo a foto do petista pela imagem de um asno. E a campanha oficialmente ainda nem começou.

Publicado em VEJA de 5 de junho de 2026, edição nº 2998



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