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A Bolívia vem sendo palco de um roteiro de potencial explosivo que se desenrola em vários cantos do globo. Sem enxergar horizonte com o mandatário da vez, a população vota no opositor mesmo que o nome não lhe diga grandes coisas — só por ser o avesso do que está aí. O movimento pendular, ora rumo a um espectro ideológico, ora ao outro, embute altas esperanças de que a renovada de ares traga efeitos imediatos, expectativa difícil de atender. Quando é preciso passar a tesoura nos gastos públicos, então, o caldeirão fervilha e, não raro, entorna. Tem sido assim a trajetória no poder de Rodrigo Paz, 58 anos, o político de centro-direita que assumiu o leme na Casa Grande del Pueblo, o palácio presidencial em La Paz, há apenas sete meses.

A conquista da cadeira teve muito mais a ver com as duas décadas de equivocadas decisões do Movimento ao Socialismo, o MAS, que surgiu sob a liderança de Evo Morales, ocupante do cargo maior do Executivo três vezes consecutivas, do que com o encantamento que Paz despertou no eleitorado, cujo bolso anda castigado pela pior crise econômica já enfrentada ali em quarenta anos. O presidente então começou a mexer as peças à base de um pacote de medidas para lá de impopulares, na tentativa de equilibrar o caixa. E não deu outra: uma multidão que abarca diferentes estratos, parte dela apoiadores de Morales, tomou ruas e bloqueou estradas em uma escalada de tensões com direito a violentos confrontos com a polícia e cada vez mais gente pedindo a cabeça do presidente, ex-senador e filho de Jaime Paz Zamora, que governou a Bolívia nos anos de 1990.

Com inflação galopante, falta de dólares e escassez de combustível, Paz já chegou declarando estado de emergência econômica e eliminando os generosos subsídios aos combustíveis. Em vigor há mais de vinte anos, a política se baseava em uma conta que não fecha: gasolina e diesel eram importados a preços internacionais e revendidos segundo uma tabela fixa, gerando prejuízo anual de mais de 2 bilhões de dólares. “A Bolívia não pode continuar funcionando assim”, falou Paz, com raivoso discurso antiesquerda, à qual acusa de ter mergulhado a Bolívia em um “esgoto de dimensões extraordinárias”.

NA MIRA - Rodrigo Paz: enfraquecido pelo conjunto de medidas impopulares que tomou
NA MIRA - Rodrigo Paz: enfraquecido pelo conjunto de medidas impopulares que tomou (Manuel Seoane/Bloomberg/Getty Images)

Sem os subsídios, a conta nos postos de gasolina disparou, desencadeando uma onda de insatisfação que ficou mais superlativa depois que o presidente anunciou uma controversa reforma agrária entendida como manobra para beneficiar os latifundiários e o agronegócio. Paz bem que tentou amortecer o impacto — concedeu aumento salarial de 20% ao funcionalismo e reajustou as pensões dos idosos. Não foi o suficiente. A temperatura começou a subir em 1° de maio, o Dia do Trabalho, com uma greve decretada pelo Centro Operário Boliviano, a poderosa central sindical. As manifestações logo ganharam a presença de professores, queixosos da baixa remuneração, e de agricultores e grupos indígenas. Não demorou, e a Federação Camponesa Túpac Katari, vinculada a Morales, iniciou um bloqueio rodoviário em La Paz, impedindo o fluxo de comida e remédios. O desabastecimento levou o governo Lula a doar 16 toneladas de arroz e 5 de leite em pó para o vizinho, ação acompanhada pela gestão Donald Trump, por quem o par boliviano, aliás, nutre explícita admiração. “O que está acontecendo na Bolívia é tentativa de golpe de Estado”, classificou Chris­topher Landau, o vice-secretário de Estado americano.

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O saldo até então não é nada animador. Ao menos vinte estradas seguem fechadas, quatro pessoas morreram em confrontos e mais de 100 foram detidas em um mês de atos antigoverno insuflados por Morales. Emparedado, Paz revogou a tal reforma agrária, cortou pela metade seu próprio salário e o de ministros (três deles, aliás, já renunciaram) e chamou os sindicatos à mesa de negociação — convite prontamente declinado, em um sinal de quão difícil anda baixar a poeira. “Paz foi eleito pelo discurso moderado em meio à decepção e à fragmentação da esquerda, mas não tem se mostrado à altura dos gigantescos desafios na Bolívia”, afirma a cientista política Maria Clara Dutra, do Observatório Político Sul-Americano. Sem previsão de arrefecimento à vista, o Congresso abriu uma fresta para que o mandatário declare estado de emergência e empregue as Forças Armadas, abolindo uma norma anterior, de 2020, que limitava os poderes presidenciais. Por ora, Paz segue defendendo “a metodologia do diálogo”. Resta saber por quanto tempo.

Publicado em VEJA de 5 de junho de 2026, edição nº 2998



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