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Os carros voadores, que há décadas fascinam os fãs de ficção científica, começam a deixar as telas de cinema para despontar no horizonte. Até dezembro, devem ser inauguradas as duas primeiras rotas comerciais do mundo operadas por veículos elétricos de decolagem e de pouso vertical (eVTOLs, na sigla em inglês). Uma delas, a cargo da empresa chinesa EHang, ligará as cidades de Shenzhen e Hong Kong, cuja distância de 30 quilômetros será percorrida em vinte minutos. A outra, planejada pela americana Joby, operará em Dubai. Se hoje voar de helicóptero é um luxo reservado aos mais endinheirados, os carros voadores prometem baratear as viagens e, com isso, torná-las acessíveis a uma maior parcela da população. No Brasil, a iniciativa privada e o poder público se articulam para que os primeiros passageiros possam embarcar em 2027.
A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) criou dois grupos de trabalho compostos por empresas, militares, universidades e outros órgãos públicos para acelerar a regulamentação do setor. Embora os eVTOLs representem uma nova indústria, a experiência acumulada em outras áreas ajuda. Na cidade de São Paulo, por exemplo, mais de 2 200 pousos e decolagens diários são realizados por 420 helicópteros — a maior frota do mundo, à frente dos 350 em operação em Nova York. Por isso, a capital paulista é a única metrópole com um controle exclusivo de tráfego aéreo de helicópteros. Tal experiência inspira agora as regras que os carros voadores deverão obedecer. “Adotamos uma visão de startup para desbravar esse novo campo”, afirma Roberto Honorato, diretor da Anac.
O sucesso depende também do modelo de negócio que sustentará essa indústria. Ao contrário do que o termo sugere, os carros voadores não serão veículos de passeio que as famílias comprarão para utilizar no dia a dia. “Não viveremos como os Jetsons”, diz Rogério Prado, presidente da Pax, concessionária que opera os aeroportos de Campo de Marte, em São Paulo, e Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. Por muitos anos, os serviços de táxi aéreo deverão ser a espinha dorsal do setor. Pensando nisso, em janeiro a Pax firmou parceria com a UrbanV, empresa italiana especializada em vertiportos, como são conhecidos os locais para pouso, decolagem e recarga de eVTOLs, a fim de preparar seus aeroportos para a novidade.
Embora São Paulo conte com cerca de 200 helipontos instalados no topo de edifícios, menos da metade pode ser adaptada para os carros voadores. Mesmo os prédios aptos a recebê-los precisarão de ajustes adicionais, que vão do treinamento de brigadas de incêndio específicas até novos protocolos de recepção e encaminhamento de passageiros aos locais de embarque. Por isso, há quem aposte que a criação de redes de vertiportos será um negócio à parte. “Não se trata apenas de um problema de infraestrutura”, diz Bruno Limoeiro, presidente da VertiMob. “Os vertiportos são um negócio imobiliário em que a localização importa.” O plano é instalá-los em áreas de fácil acesso e de grande circulação de pessoas, como as coberturas de shopping centers.
Pontos bem localizados e práticos de embarque e desembarque serão cruciais para atender à demanda atraída pelas tarifas menores. Atualmente, voar de helicóptero em São Paulo custa de 1 200 a 2 700 reais por pessoa, dependendo do destino. Já no primeiro ano de operação, os eVTOLs devem reduzir o valor em 30%, mas há quem preveja que o preço possa baixar para cerca de 800 reais, quando o mercado amadurecer. “Isso tornará os voos acessíveis a quem viaja a trabalho”, afirma João Welsh, presidente da Revo, uma empresa de serviço de táxi aéreo. Em janeiro ela se tornou a primeira cliente da Eve, a subsidiária da Embraer focada em carros voadores. O acordo prevê a compra de até cinquenta aparelhos por 250 milhões de dólares. A Revo também lançou um plano de assinatura anual que oferece trinta viagens por 13 650 dólares — o equivalente a 455 dólares por voo. Até que os eVTOLs comecem a ser entregues no fim de 2027, o serviço será feito por helicópteros, mas a adesão dos clientes é encorajadora. “As pessoas querem de fato voar”, diz Welsh. O embarque para o futuro começou — e o Brasil já garantiu seu lugar na fila.
Publicado em VEJA de 5 de junho de 2026, edição nº 2998
