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Criado com o salutar propósito de diluir o poder absoluto dos reis na Inglaterra, quando por lá sopravam os ventos da Revolução Gloriosa, em 1688, o parlamentarismo surgiu fincado em dois partidos fortes e bem-vindas engrenagens capazes de zelar pela boa democracia. Mas o mundo deu tão profundas voltas desde então que, hoje, o sistema made in Britain começa a emitir sinais de que precisa ser repensado para lidar com a alta complexidade moderna, inclusive no próprio país em que emergiu. Nos últimos seis anos, cinco primeiros-ministros se alojaram na londrina Downing Street e, sem sustentação, logo se inviabilizaram na cadeira, situação que parece bater à porta agora do trabalhista Keir Starmer. Não passa dia em que não se fale da cada vez mais provável saída de cena do ex-advogado de direitos humanos que atropelou o Partido Conservador em 2024, encerrando então um reinado de catorze anos da sigla, mas que se revelou inábil para encarar as asperezas do cargo.
O último lance de um enredo repleto de dissabores para Starmer, cujo posto é ambicionado por pelo menos três nomes em alta entre os trabalhistas, foi o retumbante fracasso nas recentes eleições municipais e regionais, que trouxe à baila o grau de fervura na frigideira do premiê — o Partido Trabalhista perdeu nada menos que 1 500 assentos para duas agremiações que ganham estofo em um cenário já distante do bipartidarismo de outrora. Enquanto parte do eleitorado progressista de Londres migrou para o Partido Verde, à esquerda, uma fatia da classe trabalhadora, sentindo-se posta de lado, tomou o rumo da ascendente direita radical de Nigel Farage, o arquiteto do Brexit que vem angariando apoio a seu Reform UK com um raivoso discurso anti-imigração. “O modelo bipartidário britânico, na prática, se desmantelou devido ao avanço de populistas de diferentes matizes que os políticos do establishment não aprenderam a enfrentar, algo que se vê também em outros países”, avalia o cientista político Peter Rutland, da Universidade Wesleyan.
Com o recuo trabalhista, não deu outra: mais de noventa deputados da legenda passaram a agitar bandeira em prol da renúncia de Starmer e quatro ministros debandaram do governo. “Onde precisamos de visão, temos um vácuo. Onde precisamos de direção, temos deriva”, criticou o antigo titular da Saúde, Wes Streeting, um dos aspirantes a premiê. O desgaste do ainda primeiro-ministro põe em um mesmo caldeirão uma notável inépcia para tecer costuras e o pouco traquejo para encarar um problemão que atormenta outros colegas de continente europeu, como França e Alemanha, onde Emmanuel Macron e Friedrich Merz, respectivamente, também não têm tido vida fácil. Todas essas nações, com seus generosos Estados de bem-estar social, se veem diante da árdua (e para lá de impopular) missão de rever um leque de benefícios projetado para uma era de crescimento farto, bem longe do cenário atual.

O Reino Unido prevê um minguado avanço de 1% do PIB em 2026 e ainda pena com os impactos na economia do divórcio da União Europeia (UE), no já longínquo 2020. Dar a virada necessária para tempos de cifras mais modestas, cutucando o vespeiro dos direitos adquiridos, exige força política, o que definitivamente Starmer não tem. No ano passado, ele enfrentou uma rebelião dentro do próprio partido devido às tentativas de reformas feitas para aliviar as contas públicas, proposta que acabou sendo aprovada em versão desidratada. Como se não bastasse, também ele foi sugado para o lamaçal do financista americano Jeffrey Epstein, que manteve por anos a fio uma rede de exploração sexual de meninas as quais oferecia ao famoso círculo de amigos. Pois o premiê colocou em Washington um diplomata que, conforme veio a público, era bem próximo de Epstein. Não adiantou Starmer dizer que desconhecia a extensão do elo com o tóxico financista — sua imagem já estava manchada.
Desde que assumiu o leme em Downing Street, o primeiro-ministro viu sua popularidade encolher de 61% para vexaminosos 23%. Fossem hoje as eleições gerais marcadas para 2029, o Reform UK venceria qualquer partido com folgada margem de ao menos 10 pontos. O cacife da extrema direita ficou claro no sábado 16, quando 60 000 pessoas embarcaram em uma marcha nas ruas de Londres convocada pelo ativista Tommy Robinson, figura que costuma alardear conspirações xenófobas segundo as quais a Inglaterra viveria uma “invasão islâmica”. “Estão prontos para a batalha do Reino Unido? Se não forem às urnas, vamos perder nosso país para sempre”, bradava à multidão, a qual instava a eleger Farage ou até mesmo o recém-criado Advance UK, agremiação de colorido ideológico semelhante, só que com contornos religiosos cristãos. “Os partidos ao centro precisam de políticas mais claras. Do contrário, o governo britânico e de outras nações europeias cairá nas mãos de uma perigosa turma radical”, afirma Jonathan Murphy, chefe do Inter Pares, projeto da UE para fortalecer Parlamentos.
Em meio às crescentes especulações sobre sua derrocada definitiva, agora ou nos próximos meses, Starmer tem seguido o script clássico dos lame ducks, os patos mancos da política: diz que vai lutar. “Tenho meus críticos e sei que preciso provar que estão errados. E vou”, prometeu. Mas o que a esta altura mobiliza mesmo os britânicos é se debruçar sobre a lista dos mais cotados para o cargo, entre eles Streeting, o ex-titular da pasta da Saúde, que agrada a ala à direita, e Angela Rayner, ex-vice-primeira-ministra que ressurgiu das cinzas após uma exoneração sob a acusação de sonegação fiscal. O favorito na bolsa de apostas, porém, é Andy Burnham, prefeito da Grande Manchester, que vem a ser o político de maior popularidade no Reino Unido. Um obstáculo no meio do caminho do “Rei do Norte” parecia freá-lo: para virar prefeito, ele precisou renunciar ao assento de deputado e, sem ele, não daria para pleitear nada. Pois a barreira acaba de ser removida, e um pleito suplementar foi arranjado às pressas, previsto para 18 de junho. A disputa pela vaga será contra um quadro do Reform UK, em uma espécie de antecipação das eleições gerais. Como se vê, os ingleses já olham para o futuro.
Publicado em VEJA de 22 de maio de 2026, edição nº 2996