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Entre os muitos crimes que usam inteligência artificial, este é especialmente cruel. Usa tecnologia para explorar um dos traços humanos mais bonitos: a capacidade de criar laços afetivos com os bichos. É o Golpe da Recompensa.
Funciona assim: os bandidos vasculham a internet atrás de anúncios de animais desaparecidos. Sabe quando alguém tem o infortúnio de perder um bichinho e pensa que talvez a solidariedade on-line ajude? Então.
Os golpistas pegam exatamente as fotos desses anúncios, além do contato dos tutores desesperados – quem quer encontrar um bicho perdido divulga o próprio telefone, endereço de casa, tudo que achar que pode ajudar, sem pensar duas vezes.
Aí os desgraçados (desculpa, minha revolta com esse tipo de golpe escreve a cada linha que escrevo desse texto) criam imagens falsas do animal com modelos de inteligência artificial como o ChatGPT ou o Gemini.
A imagem não é genérica. É daquele animal específico, com as marcas descritas na publicação, com detalhes que qualquer dono reconheceria como reais. Ficam extremamente parecidos.
E mesmo quando não ficam 100% perfeitas, as imagens apelas para o emocional de pessoas fragilizadas, que nem cogitam que aquele não seja seu bicho perdido. E aí entra a parte de arrancar dinheiro das vítimas.
O bandido normalmente mostra o animal dentro de um carro e dizem que podem leva-lo de volta, mas estão sem gasolina. Ou então simplesmente pedem um valor como recompensa. Também pode acontecer de o golpista falar que comprou o bicho de um terceiro e que não quer ficar no prejuízo. Que precisa de dinheiro para devolver.
Pedem pix e, ao receber, desaparecem.
Mas já houve caso mais maldito ainda, em que o bandido continuou pedindo mais transferências e chegou a enviar imagens de armas, sugerindo que machucaria o bicho. Que, lembremos, jamais esteve perto dele. É tudo ficção criada com IA. Em nenhum desses casos o criminoso chegou a sequer ver o animal.
“Tenho recebido muitos relatos de golpes do tipo”, afirma a jornalista e protetora de animais Andrea Giusti, que mantém no Instagram um perfil dedicado a encontrar bichos de estimação perdidos, o Procura-se Cachorro. “Não recomendo a pessoa desistir de oferecer recompensa, pois realmente incentiva a devolução.”
Como tentar se proteger desse golpe?
Andrea Giusti lista uma série de medidas que podem ajudar tutores desesperados a não ser vítima dos golpistas.
- Não envie dinheiro antes de ver o animal
- Peça vídeo em tempo real (preferencialmente chamada de vídeo)
- Solicite detalhes que só você sabe (manchas, coleira, nome respondendo)
- Peça localização ou ponto de encontro público
- Desconfie de pressa + pedido de Pix
- Compare a foto: olhos/orelhas/pelos (IA erra detalhes)
- Evite negociar só por texto
- Registre prints e denuncie o perfil
Eu acrescento outra dica: salve a imagem que a pessoa enviar, jogue no ChatGPT (ou Gemini, Claude e afins) e peça para analisar se foi feita com inteligência artificial. Elas normalmente enxergam defeitos do tipo com muito mais precisão que humanos. Pelo menos é uma maneira de tentar equilibrar o estrago que a tecnologia tem feito quando usada por gente sem luz.
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Alvaro Leme é doutorando e mestre em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, jornalista e criador do podcast educativo Aprenda em 5 Minutos