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No século XVII, o holandês Aris Kindt foi preso por cometer um roubo nas ruas de Amsterdã. Condenado à morte por enforcamento, o ladrão teve um fim diferente do rito funerário comum: seu corpo tornou-se um “modelo” da arte e da anatomia. Aris foi escolhido para a dissecação anual da Guilda dos Cirurgiões e, em meio a alunos interessados em seu organismo, o pintor Rembrandt captou a cena que daria origem à famosa pintura A Lição de Anatomia do Dr. Tulp (1632). Uma das obras-primas do mestre holandês, o quadro sintetiza o misto de assombro, fascínio e utilidade ímpar que os cadáveres humanos representaram para a cultura ocidental. Graças a eles, a pintura atingiu o auge da representação do físico a partir do Renascimento e a medicina alcançou progressos inestimáveis. Nos últimos tempos, porém, uma nova visão ética sobre o uso dos corpos com esses fins ganhou força, provocando mal-estar em museus que abrigam restos humanos em seus acervos.

TEORIAS - Crânios da coleção holandesa: velhos estudos de teor racial assombram instituições
TEORIAS - Crânios da coleção holandesa: velhos estudos de teor racial assombram instituições (@museumvrolik/Instagram)

O peso na consciência em relação ao tema acomete especialmente os museus da Europa, e as razões para isso são ilustradas por duas exposições no continente. No Museu Thack­ray de Medicina, na cidade inglesa de Leeds, uma mostra investiga os corpos usados na pintura e em registros de anatomia. Na Holanda, outra exposição em cartaz no Museu Vrolik, em Amsterdã, ilumina um aspecto não menos relevante da questão: o uso de corpos para pesquisas de anatomistas no passado, com fins diversos.

A mostra na Holanda exemplifica como a exploração de restos humanos em outras épocas se tornou uma lembrança indigesta. Com acervo composto de ossadas, fetos e afins, o Museu Vrolik recentemente repatriou um lote de crânios de cidadãos locais levados para o Velho Continente para embasar pesquisas de teor racista no período colonial. Eles foram devolvidos às Ilhas Molucas, na Oceania, e o lugar em que podiam ser vistos no Vrolik hoje é ocupado pela exposição, que consiste em um memorial singelo e perturbador: as mesmas vitrines onde esses despojos eram exibidos agora estão vazias.

ESTUDO - O clássico de 1632: A Lição de Anatomia do Dr. Tulp, de Rembrandt
ESTUDO - O clássico de 1632: A Lição de Anatomia do Dr. Tulp, de Rembrandt (Margareta Svensson/The Hague/.)
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Já a mostra na Inglaterra busca fazer outro tipo de reparação: iluminar a identidade das pessoas que tiveram seus corpos utilizados como modelo por artistas e ilustradores anatômicos à sua revelia. De acordo com Isabela Ferreira, historiadora da arte e assistente curatorial do Masp, não havia uma preocupação com a identificação desses corpos, exibidos em coleções anatômicas e museus. No período renascentista, Leonardo da Vinci e Michelangelo os dissecavam para compreender as minúcias de músculos, ossos e tendões — e, assim, retratar os traços e movimentos humanos com rigor perfeccionista. Da mesma forma, a ilustração anatômica dependeu do uso deles para produzir seu legado. Mas agora já não é possível ignorar o outro lado dessa prática que trouxe conhecimento e beleza: por trás dos corpos havia seres humanos reais cuja dignidade precisa ser respeitada.

O ladrão que está no centro da aula de anatomia de Rembrandt é um caso emblemático resgatado na mostra inglesa: o homem que tem seu corpo exposto na pintura fora condenado à morte por um crime leve. O incômodo moral não impedia, contudo, a exploração pública e até sensacionalista desses cadáveres. “A mania da dissecação já causava alguma polêmica na Holanda da época, mas não o suficiente para impedir seu uso”, diz Tiago dos Santos Mesquita, docente de história da arte na USP.

GÊNIO - Estudo de Da Vinci: dissecação de cadáveres produziu avanços notáveis para a humanidade
GÊNIO - Estudo de Da Vinci: dissecação de cadáveres produziu avanços notáveis para a humanidade (Luc Viatour/.)
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O problema dos corpos angustia os museus europeus por uma questão existencial: mais que meros itens de seus acervos, eles são elementos fundadores de coleções nascidas no auge do orgulho colonialista. Na Inglaterra, incluem-se aí o honorável Museu Britânico e outros. Em 2003, um relatório oficial analisou a coleta desses itens no passado e seu impacto sobre populações indígenas. O documento — publicado um ano antes do Human Tissue Act, lei que rege a repatriação de corpos no Reino Unido — reconhece que sua coleta e estudo ajudou a justificar teorias que tratavam não europeus como menos evoluídos. Segundo investigação do jornal inglês The Guardian, há 260 000 fragmentos de corpos humanos nos museus do país. Nos dias de hoje, está difícil esconder tantos esqueletos no armário.

Publicado em VEJA de 15 de maio de 2026, edição nº 2995



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