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O mercado financeiro ganhou nos últimos meses uma nova expressão para resumir dias de forte turbulência: “Flávio Day”. O termo passou a ser usado entre agentes econômicos para descrever momentos de nervosismo provocados por notícias envolvendo o senador Flávio Bolsonaro, hoje apontado como principal nome da direita na disputa presidencial. A reação dos investidores reflete um misto de expectativa política e preocupação com os riscos que cercam a candidatura.
Flávio Day
O primeiro episódio aconteceu em dezembro do ano passado, quando o ex-presidente Jair Bolsonaro anunciou apoio à candidatura do filho, deixando de lado o governador Tarcísio de Freitas, que era visto com mais simpatia por parte do mercado. Naquele momento, operadores relataram forte instabilidade, já que Flávio não aparecia como a opção preferida dos investidores para enfrentar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Foi uma pancada
O chamado “Flávio Day 2.0” ocorreu nesta semana, após a divulgação de uma mensagem atribuída ao senador enviada ao banqueiro Daniel Vorcaro. O episódio elevou rapidamente o nervosismo no mercado e fez o dólar comercial voltar a fechar acima de R$ 5 pela primeira vez desde abril. Para o professor de economia e estrategista Rodrigo Dumas, o impacto foi significativo. “O câmbio… não teve força pra ir pra 5,10 ou 5,20. Ele acabou beliscando de volta aos 5 reais por dólar, apesar do Flávio Day. Mas o Flávio Day foi uma pancada, foi uma pancada”, afirmou.
Teremos um Flávio day 3.0?
Já nesta sexta-feira, o mercado passou a falar em “Flávio Day 3.0”, depois de novos desdobramentos envolvendo investigações da Polícia Federal. A apuração busca saber se recursos liberados por Daniel teriam sido usados para despesas do ex-deputado Eduardo Bolsonaro.
Mau humor externo
O ambiente de cautela juntou ao cenário internacional. O fim da reunião entre os presidentes Donald Trump e Xi Jinping terminou sem uma medida efetiva sobre o bloqueio no estreito de Orumuz, foram apenas promessas de uma colaboração chinesa, e o medo de continuidade da inflação pesando sobre os governos mundiais. Com isso, o Ibovespa abriu o dia em queda próxima de 1,5%. Segundo Dumas, o mercado ficou especialmente sensível porque pesquisas indicavam Flávio próximo de ultrapassar Lula nas intenções de voto, e isso pode não acontecer mais.
Tacada no caixão
Apesar de parte do mercado desejar uma mudança de governo por discordar da política fiscal atual, as crises envolvendo o senador aumentam a percepção de risco. Rodrigo Dumas avalia que, caso as denúncias avancem, isso representaria uma “tacada no caixão” da candidatura. Ele afirma que investidores enxergavam Flávio como um nome capaz de enfrentar o que chama de “expansionismo fiscal irresponsável”. Diante da instabilidade, o mercado já começa a observar alternativas dentro da direita, como Romeu Zema e Ronaldo Caiado.
Mais uma vez as contas públicas
Na visão do economista, a preocupação vai além da política eleitoral e atinge a sustentabilidade das contas públicas. “Você pode aumentar o consumo para fazer a roda girar, desde que você tenha a capacidade produtiva. Nós não temos mais PIB potencial”, afirmou. Para ele, o crescimento atual ocorre “via anabolizante”, sem bases sólidas, o que ajuda a explicar os juros elevados e o receio dos investidores com a dívida pública. Dumas resume que o Brasil segue atraente no cenário geopolítico internacional, mas continua travado pelas próprias crises domésticas — e o “Flávio Day” acabou virando símbolo dessa instabilidade permanente.