Os EUA esperaram 10 dias pela resposta do Irã à sua proposta para o fim da guerra. Quando as exigências de Teerã chegaram no domingo (10), sinalizaram que a República Islâmica permanece determinada a obter a vitória, apesar da pressão do presidente americano Donald Trump pela rendição do regime.

Nenhum dos lados divulgou publicamente os termos exatos da negociação, mas a mídia estatal iraniana informou que Teerã buscava, em sua resposta, o fim completo da guerra, o reconhecimento formal de sua soberania sobre o Estreito de Ormuz e o alívio total das sanções.

As exigências mais ousadas formaram uma contraproposta que Trump rejeitou prontamente. Ele a considerou “totalmente inaceitável” antes de chamá-la de “um lixo”.

Permanece incerto a quais elementos específicos Trump se opôs, em meio à obscuridade que envolve a proposta. A mídia estatal iraniana tem consistentemente apresentado a posição de Teerã ao longo da guerra como uma de força, em consonância com o aparente esforço do governo para projetar uma vitória iraniana para seu público interno.

Desde que os EUA e Israel lançaram ataques contra o Irã há mais de 10 semanas, a República Islâmica tem seguido uma estratégia que rejeita firmemente qualquer sinal de capitulação. Em vez disso, Teerã demonstra estar disposta a prolongar o conflito, se necessário, para aumentar a pressão sobre Washington e obter compromissos importantes que fortaleceriam o regime financeiramente e garantiriam sua sobrevivência a longo prazo.

“Eles acham que eu vou me cansar, ou ficar entediado, ou que vou ceder à pressão”, disse Trump a repórteres na Casa Branca nesta segunda-feira (11).

“Não há pressão nenhuma. Vamos ter uma vitória completa”, afirmou o presidente americano.

Trump também reclamou que os líderes iranianos “mudam de ideia” quando os dois lados parecem chegar a pontos de acordo, uma queixa que pode refletir a aparente recusa dos militares iranianos em aprovar medidas que satisfaçam suas exigências.

O impasse decorre de prioridades divergentes. Trump busca o que um analista descreveu como um triunfo “rápido e fácil”, que inclui concessões imediatas sobre o programa nuclear iraniano, enquanto Teerã está determinada a adiar essas exigências e obter suas próprias concessões primeiro.

Em uma de suas propostas, o Irã apresentou uma abordagem gradual e faseada para as negociações. Os estágios iniciais se concentram em declarar o fim da guerra em todas as frentes, suspender as sanções e encerrar qualquer bloqueio naval dos EUA, adiando as negociações sobre seu programa nuclear para estágios posteriores.

Trump, no entanto, exigiu que o Irã interrompa formalmente seu programa nuclear por um período definido — autoridades americanas parecem querer pelo menos 10 anos — e entregue seu estoque atual de aproximadamente 440 quilos de urânio altamente enriquecido.

“Há um choque de percepções”, disse Sanam Vakil, diretora do Programa para o Oriente Médio e Norte da África do think tank Chatham House, com sede em Londres.

“Estamos num impasse porque o presidente Trump não entende por que esses caras não estão fazendo um acordo para se salvarem”, afirmou.

“Eles não lhe farão concessões no início do acordo porque não confiam nele”, disse Vakil, acrescentando que os iranianos foram “pessoalmente prejudicados por ele”.

Em sua coletiva de imprensa semanal, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baghaei, disse que o “desacordo” com Washington é “entre uma parte que busca unicamente seus direitos fundamentais e uma parte que insiste em violar os direitos da outra”.

Ele acrescentou que as exigências do Irã são “razoáveis” e “responsáveis”.

“A resposta do regime iraniano reflete a mentalidade de uma liderança que acredita ter sobrevivido à guerra e vencido, não que a tenha perdido”, disse Danny Citrinowicz, pesquisador sênior do Instituto de Estudos de Segurança Nacional, em publicação na rede social X.

“Como resultado, suas exigências permanecem altas e sua disposição para negociar é extremamente limitada”, afirmou Citrinowicz.

Enquanto Trump busca pressionar o Irã, Teerã sinaliza que deseja um acordo mais abrangente e duradouro, exigindo garantias firmes de que os EUA não reiniciarão a guerra.

Antes da visita de Trump à China esta semana, autoridades iranianas propuseram que Pequim atue como garantidora de qualquer acordo futuro. Na semana passada, Teerã enviou o ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, a Pequim para conversas com seu homólogo chinês.

“Dada a posição que a China ocupa em relação ao Irã e a outros países da região do Golfo Pérsico, Pequim pode servir como garantidora de qualquer acordo”, disse o embaixador iraniano em Pequim, Abdolreza Rahman Fazli, em uma publicação no X no domingo.

“Qualquer acordo em potencial deve ser acompanhado por garantias das grandes potências e também ser levado ao Conselho de Segurança das Nações Unidas”, afirmou Fazli.

Cessar-fogo em estado crítico

Trump sempre fez campanha contra arrastar os EUA para “guerras intermináveis”, mas o Irã tem tentado levá-lo a um atoleiro custoso.

Em vez da vitória decisiva que ele buscava após a morte do líder supremo da República Islâmica e seus principais comandantes, a guerra se transformou cada vez mais em um impasse.

Apesar do cessar-fogo alcançado entre o Irã e os EUA há mais de um mês, vários confrontos navais eclodiram no Estreito de Ormuz, enquanto ambos os lados continuam a disputar o domínio sobre a importante via navegável.

Aliados de Washington na região também afirmaram que o Irã lançou mísseis balísticos e drones contra suas cidades em novos ataques após semanas de calmaria.

E com as negociações entre as capitais em crise, Trump disse na segunda-feira que o cessar-fogo corre o risco de ruir.

“Eu diria que o cessar-fogo está em estado crítico”, disse ele a repórteres na Casa Branca.

Por sua vez, as Forças Armadas da República Islâmica sinalizaram estar satisfeitas com a contínua insatisfação de Trump com as propostas.

“Ninguém no Irã está fazendo planos para agradar Trump”, disse no domingo o porta-voz militar iraniano, Ebrahim Zolfaghari.

“A equipe de negociação deve desenvolver planos que respeitem apenas os direitos do Irã e, naturalmente, seria melhor se Trump não ficasse satisfeito com eles”, concluiu.



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