Ler Resumo

Há um certo fascínio perverso em ler distopias climáticas enquanto o noticiário na vida real anuncia enchentes históricas, recordes de temperatura e espécies extintas. É quase como folhear um manual de instruções que chegou tarde demais. Tal sensação é patente no novo livro do excepcional autor inglês Ian McEwan, O que Podemos Saber, que chega às livrarias a partir de terça-feira 12. O romance se passa no ano de 2119, num mundo que sobreviveu — por pouco — a uma hecatombe climática agravada por guerras nucleares e tsunâmis. O planeta que restou é um arquipélago de picos montanhosos onde costumavam existir países. Londres, Paris, Amsterdã, Lisboa e outras cidades da Europa foram submersas. Os Estados Unidos viraram um território tomado por guerras civis. A Nigéria é a potência hegemônica, dona de tecnologias de ponta.

O QUE PODEMOS SABER de Ian McEwan (tradução de Jorio Dauster, Companhia das Letras, 384 págs., R$ 89,90 e R$ 39,90 o e-book)
O QUE PODEMOS SABER de Ian McEwan (tradução de Jorio Dauster, Companhia das Letras, 384 págs., R$ 89,90 e R$ 39,90 o e-book) (./.)

É nesse mundo que o protagonista, professor Thomas Metcalfe, especialista no período literário de 1990 a 2030 — a última era antes da chamada “grande inundação” —, parte em busca de um poema perdido escrito em 2014 por um poeta brilhante e detestável (e negacionista) chamado Francis Blundy. O poema foi lido uma única vez num jantar em homenagem à esposa do autor e nunca mais foi encontrado. Sua reputação cresceu na exata medida de sua ausência, lacuna que move o romance. Assim, McEwan foge da armadilha de fabricar uma distopia banal de cenários apocalípticos e heróis resistentes. O que ele faz é mais perturbador: usa fatos do presente — aquecimento global, guerras, pandemias etc. — e os deixa seguir em frente até seu desfecho lógico.

IRÔNICO - McEwan: autor questiona a serventia da literatura feita por quem ignorou o próprio planeta
IRÔNICO - McEwan: autor questiona a serventia da literatura feita por quem ignorou o próprio planeta (Joanna Chan/AP/Imageplus)

O que Podemos Saber pertence a um gênero que ganhou nome próprio nas últimas duas décadas, a ficção climática, ou cli-fi (de climate fiction), expressão cunhada por volta de 2007 e atribuída ao jornalista americano Daniel Bloom. Não se trata exatamente de uma novidade — Octavia Butler já escrevia sobre colapso ambiental nos anos 1990, Ursula K. Le Guin o fazia nos anos 1970, e no Brasil o visionário Não Verás País Nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão, imaginava uma Amazônia extinta já em 1981. Mas a ficção climática literária contemporânea ganhou musculatura e urgência próprias — com um bem-vindo reforço de McEwan, este membro da chamada “alta literatura”.

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Antes relegada ao subgênero da ficção especulativa — reduzida a imagens exageradas de catástrofes, como as do filme O Dia Depois de Amanhã (2004), baseado no livro de não ficção de Art Bell e Whitley Strieber, a cli-fi vem derrubando preconceitos ao perder a pecha de premonitória para se revelar cotidiana. “O que aconteceu no Rio Grande do Sul, por exemplo, é coisa de livro, de filme”, afirma o pesquisador da USP George Amaral, referindo-se às enchentes que assolaram o estado em 2024. Amaral é autor da tese A Forma do Romance no Antropoceno — termo que remete à época geológica atual, marcada pelo impacto humano sobre a Terra. “Essa tendência literária demonstra que existe uma mudança na nossa estrutura de pensamento sobre o tema.”

SOBREVIVÊNCIA - O Fim de Onde Começamos: a Inglaterra se torna um lugar inabitável no livro que virou filme em 2023
SOBREVIVÊNCIA - O Fim de Onde Começamos: a Inglaterra se torna um lugar inabitável no livro que virou filme em 2023 (Anika Molnar/Republic Pictures/.)

No Brasil, proliferam títulos do filão, como Água Turva, da autora gaúcha Morgana Kretzmann; Contra Fogo, do paulista Pablo Casella; e O Deus das Avencas, do paulistano Daniel Galera — todos em clima de thriller e com a natureza daqui como ambientação. No exterior, o americano Richard Powers foi laureado com o Pulitzer pelo ótimo A Trama das Árvores — previsto para se tornar uma série na Netflix. A inglesa Megan Hunter viu sua distopia O Fim de Onde Começamos, sobre uma inundação que toma a Inglaterra, virar filme com estrelas de Hollywood em 2023.

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REALIDADE - Inundação em Porto Alegre em 2024: cena digna de uma distopia
REALIDADE - Inundação em Porto Alegre em 2024: cena digna de uma distopia (SEDAC/AFP)

Mais novo integrante desse filão, McEwan, autor erudito e deliberadamente sofisticado, usa a catástrofe climática não apenas como cenário, mas como pergunta filosófica central: para que serve a literatura quando o mundo desmorona? Seu protagonista é um professor obcecado por um poema — não por vacinas, energia limpa ou engenharia climática. Um poema. Seus alunos de 2119, crescidos entre as ruínas do Antropoceno, não têm paciência para entender o que perderam. “O passado era povoado por idiotas”, pensam sobre nossa época. McEwan até lhes dá razão, mas reserva à literatura o papel incômodo de testemunha dos tempos em que os idiotas ainda tinham escolha e, aparentemente, preferiram não usá-la. “Em meio aos desastres”, escreve o narrador, “a literatura mundial produziu seus mais belos lamentos, uma nostalgia maravilhosa, uma fúria eloquente”. A frase, linda e melancólica, serve de consolo aos que restaram — e de escada para a ironia do autor atingir seu ponto mais agudo. O planeta pede socorro e o alerta vem agora na forma de literatura de primeira qualidade.

Publicado em VEJA de 8 de maio de 2026, edição nº 2994



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