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No dia 7 de julho de 1962, o fotógrafo Allan Grant visitou Marilyn Monroe em sua casa recém-comprada, no bairro de Brentwood, em Los Angeles. Ao longo daquela tarde, a atriz abriu a intimidade de seu lar pela primeira vez para o fotojornalista, que tinha como missão registrar a essência de uma das celebridades mais famosas do mundo para uma reportagem da Life. Acompanhado de uma entrevista de fôlego do então editor da revista americana, Richard Meryman, o material foi publicado poucas semanas depois, em 3 de agosto — apenas um dia antes de Marilyn ser encontrada morta na mesma casa, aos 36 anos. Último registro público da atriz, fotos inéditas da sessão e áudios da entrevista podem ser conferidos na mostra que acaba de abrir as portas no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo, como parte das celebrações do centenário de nascimento da estrela, no dia 1º de junho. “Ela estava em um momento de transição da imagem de loira burra que os estúdios lhe impuseram para se tornar uma atriz mais séria. Dá para ver e ouvir seu intelecto, sua ponderação e gentileza”, analisa Chris Flannery, responsável pelo acervo a ser exposto. “Nossa responsabilidade é deixar que Marilyn tenha suas últimas palavras.”

Reunidos no livro Marilyn: The Lost Photos and the Last Interview, sem tradução para o português, o material recuperado mostra uma Marilyn caseira e autoconsciente. Esse acervo ficou inacessível por seis décadas. Com mais de 400 fotos, 45 delas expostas no Brasil, o ensaio de Grant chegou nas mãos de Flannery através da viúva do fotógrafo, no ano passado, abrindo caminho para que ele conseguisse também as quatro horas de áudio bruto da entrevista. “A fama e a felicidade, ao que me parece, são certamente temporárias”, atesta a atriz em um trecho da transcrição, mostrando que nunca deixou para trás os receios de uma vida de dificuldades.

POR TRÁS DA CÂMERA - Allan Grant: cliques sensíveis captaram a alegria esquecida nos últimos dias
POR TRÁS DA CÂMERA - Allan Grant: cliques sensíveis captaram a alegria esquecida nos últimos dias (Allan Grant/Coleção revista LIFE 1962/Mis/.)

Filha de uma mãe diagnosticada com esquizofrenia e de um pai que não a assumiu, Norma Jeane, nome de batismo da atriz, passou a infância entre lares adotivos e orfanatos, sofrendo todo tipo de abuso. Sua vida pública começou aos 18, como modelo pin-up, quando foi descoberta trabalhando em uma fábrica de munições. Com o sucesso, estreou nos cinemas e não deixou a oportunidade escapar: empenhou-se em aulas de atuação, canto e dança e logo virou uma das maiores estrelas de Hollywood. “Quero ser boa não porque preciso, mas porque quero. Se não fosse, não faria sentido respirar”, atestou ela sobre a carreira, que a transformou em um eterno sex ­symbol. “Todos nascemos como seres sexuais”, disse, comentando o rótulo.

Em seus últimos meses, Marilyn fez de tudo um pouco: recuperando-se de um divórcio conturbado, comprou uma casa e a decorou com itens mexicanos, inspirada na residência de seu psiquiatra. Em alta na carreira, foi coroada atriz preferida do cinema pelo Globo de Ouro e realizou a inesquecível apresentação na qual cantou Parabéns para Você ao então presidente John F. Kennedy — boatos diziam que os dois tinham um caso, mas a biografia da atriz aponta que a relação se resumiu a uma noite de amor naquele ano. O golpe duro veio em seguida: em junho, foi demitida pela Fox e, furiosa com a situação, iniciou uma campanha para reintegrar a equipe com quem trabalhava em um novo filme.

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Infelizmente, não teve tempo: na noite de 4 de agosto, ingeriu diversos medicamentos e foi encontrada sem vida pela governanta. A morte precoce levantou uma série de especulações, inclusive a de que ela teria sido assassinada — hipótese rejeitada pela investigação policial. O final trágico, no entanto, não apagou a magia de Marilyn. Nos registros recuperados por Flannery, ela deixa escapar um vislumbre da mulher que poderia ter brilhado muito mais. “Havia uma felicidade nela que não foi refletida nas histórias de seu último mês”, atesta Flannery. É um retrato comovente dos últimos momentos de um ícone.

Publicado em VEJA de 8 de maio de 2026, edição nº 2994



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