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Desde a eclosão do escândalo do Master, sobram indícios de que o dono do banco, Daniel Vorcaro, construiu uma rede de relacionamentos com integrantes dos Três Poderes, por meio da distribuição de favores e da contratação de consultorias milionárias, para viabilizar uma das maiores fraudes bancárias da história do país. A descoberta de um caso de tamanha proporção, que deixou um rombo de pelo menos 50 bilhões de reais, espalhou pânico entre certas autoridades. Em reação, elas passaram a articular uma operação abafa em diversas frentes, da tentativa de atrapalhar o trabalho de investigação da Polícia Federal (PF) ao engavetamento da proposta de criação de uma CPI sobre o tema no Congresso. Em Brasília, um biombo poderoso foi montado a fim de evitar que figurões da República sejam investigados e punidos por participação na falcatrua. Na quinta-feira 7, no entanto, esse dique começou a ruir.

“Daniel é meu amigo, como sou de todos os grandes empresários do Brasil. Vão me encontrar em festas, jantares, solenidade, mas em nenhum tipo de negócio. Renuncio ao mandato se tiver alguma coisa”

Ciro Nogueira em entrevista a VEJA há duas semanas

Em nova fase da chamada Operação Compliance, a PF realizou buscas e apreensões em endereços do senador Ciro Nogueira (PI), presidente do Progressistas. Não se trata de um político qualquer. Ex-aliado de Lula e Dilma Rousseff, Nogueira foi ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro, quando controlava a planilha do chamado orçamento secreto e a relação do governo com os parlamentares. Nos últimos anos, ele negociou a formação de uma federação entre o seu partido e o União Brasil, que resultou na agremiação com mais deputados federais e mais recursos do fundo eleitoral, tornando-se também o dote mais cobiçado pelos candidatos a presidente da República em 2026. Hábil no bastidor e bem relacionado com agentes econômicos, Nogueira é o expoente máximo do Centrão e um dos congressistas mais influentes do país. Se ele entrou na mira da PF, é sinal de que a apuração pode alcançar todo e qualquer figurão.

SEGREDOS - Vorcaro: banqueiro negocia delação que pode comprometer figurões do poder
SEGREDOS - Vorcaro: banqueiro negocia delação que pode comprometer figurões do poder (Claudio Gatti; Rafaela Araújo/Folhapress/.)

A investida sobre o senador foi autorizada pelo relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), ministro André Mendonça. Numa decisão de 36 páginas, ele resume assim o quadro: “Referido investigado é indicado como destinatário central das vantagens indevidas e como agente público que, em tese, instrumentalizou o exercício do mandato parlamentar em favor dos interesses privados de Daniel Vorcaro”. Já se sabia que Ciro Nogueira havia apresentado uma emenda destinada a ampliar de 250 000 reais para 1 milhão de reais a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Se tivesse sido aprovada, essa regra daria fôlego aos negócios do Master. A PF afirma que o texto da emenda foi redigido pela equipe do banco e reproduzido de forma integral pelo parlamentar ao apresentá-lo no Senado. Depois da formalização da proposta, Vorcaro registrou numa troca de mensagens, capturada em um de seus celulares, que a emenda saiu exatamente como ele mandou. Já outros interlocutores do banco, de acordo com a PF, ressaltaram que a medida “sextuplicaria” o negócio do Master e provocaria verdadeira “hecatombe” no mercado. Haveria nesse episódio, portanto, um ato de ofício do senador em benefício de quem lhe pagava vantagens indevidas.

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“O parlamentar detém o controle e figura como principal beneficiário das condutas relacionadas à execução material de atos de lavagem de capitais sob investigação”

Trecho da decisão do ministro André Mendonça (STF)

Habitué da corte de Vorcaro, Ciro Nogueira reconhece ter participado de festas e eventos financiados pelo ex-banqueiro. Tudo, alega ele, dentro da lei. “Daniel é meu amigo, como sou de todos os grandes empresários do Brasil. Vão me encontrar em festas, jantares, solenidade, mas em nenhum tipo de negócio. Renuncio ao mandato se tiver alguma coisa”, disse o senador a VEJA duas semanas atrás. A PF informou ao ministro André Mendonça que havia muito mais do que uma mera relação de amizade. O senador usufruía de um apartamento de luxo de propriedade de Vorcaro, que também lhe pagaria despesas pessoais, como viagens, contas de restaurante e voos em jatinhos. Vorcaro também entregaria ao senador mesadas de 300 000 a 500 000 reais para tê-lo como despachante de seus interesses no Congresso. O dinheiro seria repassado por um primo do ex-banqueiro, Felipe, que teve a prisão decretada por Mendonça. Para reforçar que havia uma parceria entre as partes, a PF relata que Vorcaro ordenou a retirada, da residência do senador, de envelopes que conteriam minutas de projetos de lei de seu interesse, que posteriormente foram revisados por escritórios indicados pelo ex-banqueiro e, finalmente, devolvidos a um servidor vinculado a Ciro Nogueira.

INVESTIGAÇÃO - Mendonça: avanço sobre o braço político do esquema
INVESTIGAÇÃO - Mendonça: avanço sobre o braço político do esquema (Gustavo Moreno/STF)
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Ao invés de amizade, os investigadores falam em crimes como corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa. “O parlamentar detém o controle e figura como principal beneficiário das condutas relacionadas à execução material de atos de lavagem de capitais sob investigação”, registrou Mendonça. Por meio de nota de seus advogados, o senador Ciro Nogueira repudiou “qualquer ilação de ilicitude sobre suas condutas, especialmente em sua atuação parlamentar”. Ele também manifestou sua intenção de contribuir com a Justiça a fim de deixar clara a sua inocência. “As medidas investigativas graves e invasivas tomadas com base em mera troca de mensagens, sobretudo por terceiros, podem se mostrar precipitadas e merecem a devida reflexão e controle severo de legalidade”, dizem os defensores do parlamentar na mesma nota.

“Trata-se de elementos que indicam, em status de asserção, a possível prática de atos de corrupção, operações de lavagem de dinheiro, ocultação patrimonial e continuidade delitiva”

Trecho da decisão do ministro

Ciro Nogueira é apenas um dos importantes integrantes da extensa rede de contatos de Vorcaro, que reúne parlamentares, ex-ministros, dirigentes partidários e magistrados. O desafio da PF é, nesse emaranhado de poderosos, descobrir quem manteve relações legais, mesmo que controversas do ponto de vista moral, e quem cometeu crimes. O caso Master contribuiu para que o Supremo, por exemplo, afundasse em uma grave crise de credibilidade, devido a transações mal explicadas entre ministros e o ex-banqueiro. Um negócio da família de Dias Toffoli foi comprado por um fundo ligado ao Master. O escritório da mulher do ministro Alexandre de Moraes, Viviane Barci de Moraes, fechou um contrato de 129 milhões de reais com o banco. O caixa de Vorcaro também repassou recursos a políticos influentes da esquerda à direita, por supostos serviços de consultoria. Na relação, estão nomes como o presidente do União Brasil, Antonio de Rueda, parceiro de federação de Ciro Nogueira, e o ex-prefeito de Salvador Antônio Carlos Magalhães Neto, também do União Brasil, que é candidato ao governo estadual da Bahia.

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CORRUPÇÃO - Paulo Henrique: o ex-presidente do BRB, pivô de uma das negociatas do banco, também quer contar o que sabe
CORRUPÇÃO - Paulo Henrique: o ex-presidente do BRB, pivô de uma das negociatas do banco, também quer contar o que sabe (Renato Alves/Agência Brasília; Gabriela Biló/Folhapress/.)

Aparecem ainda na folha de pagamentos os ex-ministros de governos do PT Ricardo Lewandowski e Guido Mantega, além de uma parente do líder do governo no Senado, Jaques Wagner. Há situações bem mais complexas. Fundos de previdência estaduais torraram dinheiro de seus servidores em papéis do Master. O do estado do Rio de Janeiro, governado à época por Cláudio Castro (PL), investiu cerca de 1 bilhão de reais na instituição de Vorcaro. O do Amapá, comandado por um afilhado político do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil), torrou 400 milhões. Cabe a Alcolumbre autorizar uma CPI sobre o tema, mas ele até aqui barrou tal iniciativa. Registre-se, mais uma vez, que a apuração realizada pela PF mostrará quem cometeu crime. A existência de um vínculo contratual não significa que houve corrupção ou lavagem de dinheiro, por exemplo.

“As medidas investigativas graves e invasivas tomadas com base em mera troca de mensagens, sobretudo por terceiros, podem se mostrar precipitadas e merecem a devida reflexão e controle severo de legalidade”

Antônio Carlos de Almeida Castro, advogado do senador Ciro Nogueira

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Com uma ascensão meteórica no sistema financeiro, Vorcaro foi preso pela primeira vez em novembro do ano passado, quando seu esquema fraudulento foi desbaratado, mas conseguiu a liberdade em seguida. Em março, voltou a ser preso depois de a PF alertar o ministro André Mendonça de que o ex-banqueiro tinha uma milícia particular que ameaçava e coagia adversários e desafetos do chefe. O capitão da gangue, conhecido como Sicário, morreu nas dependências da polícia, que apontou para suicídio. O episódio ainda está envolto em dúvidas. Encarcerado no presídio da Papuda, o ex-banqueiro, por medo de uma longa condenação à cadeia, resolveu negociar um acordo de delação premiada. O início das tratativas fez com que trocasse o presídio por uma cela na Superintendência da Polícia Federal. Os anexos da colaboração foram concluídos, mas considerados insuficientes pelas autoridades. Na prática, Vorcaro estaria prometendo contar bem menos do que sabe e, assim, protegendo seus parceiros de crime.

Diante disso, a PF pediu seu retorno para a Papuda (até o final da tarde de quinta, 7, o ministro Mendonça ainda não havia dado aval a essa transferência). Quando ainda desfilava seu poder em Brasília, o ex-banqueiro negociou a compra do Master pelo BRB, uma operação pensada para salvar-lhe a vida financeira e o pescoço. O Banco Central, no entanto, vetou o negócio. Além disso, a PF descobriu indícios de pagamento de propina para o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, que, depois de ser preso, também negocia uma delação premiada. A depender dos segredos revelados pelos dois, ou das descobertas dos policiais, o escândalo Master poderá abalar estruturas importantes de Legislativo, Executivo e Judiciário. A ofensiva sobre o influente Ciro Nogueira é só o prenúncio do que vem pela frente.

Publicado em VEJA de 8 de maio de 2026, edição nº 2994



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