Ler Resumo

Em 17 de novembro de 1993, um golpe militar anulou os resultados da primeira eleição presidencial da Nigéria em uma década — e atrasou em seis anos a redemocratização do país africano. Para Akinola (Godwin Chiemerie Egbo) e Olaremi (Chibuike Marvellous Egbo), de 8 e 11 anos, respectivamente, outro cataclismo foi muito maior naquela data: o pai ausente (Sope Dirisu) surge após uma temporada de trabalho longe de casa. Diante de protestos dos filhos pela rapidez da visita, ele os leva consigo para a agitada capital, Lagos. O trajeto, afetado pela instabilidade política refletida na cidade, serve de fio condutor para A Sombra do Meu Pai (My Father’s Shadow, Nigéria/Reino Unido/Irlanda, 2025), já em cartaz nos cinemas, filme premiado no Festival de Cannes e no Bafta, o Oscar inglês, e que vem encantando plateias pelo mundo.

Em passagem recente pelo Brasil, onde participou de sessões especiais, o diretor britânico-nigeriano Akinola Davies Jr. apontou similaridades entre seu filme de estreia e os sucessos nacionais Ainda Estou Aqui (2024) e O Agente Secreto (2025). “Contamos a história da geração dos nossos pais e como ela afetou a relação deles com a masculinidade”, disse em entrevista a VEJA. “O cinema gera empatia, para que enxerguemos os sacrifícios feitos sob circunstâncias extremas.” Como nos títulos brasileiros citados, A Sombra do Meu Pai vê na intersecção entre drama familiar e crise política um acelerador para a perda da inocência dos garotos, obrigados a se tornarem conscientes da nação onde vivem.

Apesar de toques autobiográficos, o filme é uma forma que o diretor encontrou de viver a experiência paterna que não lhe foi permitida: Davies tinha apenas 1 ano e 8 meses quando perdeu o pai para uma crise epiléptica. Cresceu ouvindo relatos sobre ele e encontrou na ficção um meio de reconstruí-lo, observá-lo e imaginar as conversas que teriam. Por isso, o personagem e a Nigéria parecem um só, qualidade que o diretor bem resume: “O maior recurso de qualquer país é o recurso humano”.

Lar de mais de 500 povos e dialetos, a Nigéria vem expondo essa pluralidade em sua modesta, mas vibrante, produção cinematográfica, mercado apelidado de “Nollywood”. Com o reforço do olhar de profissionais locais, os estereótipos são dissipados e o drama ganha beleza: a fotografia hipnotizante do filme de Davies Jr. realça os encantos do país — que ora é extraída de elementos contraditórios, como um dos milhares de navios encalhados em seu litoral. Entre familiares ou com a própria nação, não há escapatória dos laços invisíveis que nos cercam.

Publicado em VEJA de 1º de maio de 2026, edição nº 2993



Source link

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *