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John Lennon e Yoko Ono assistiam à televisão quando descobriram que, em Nova York, onde moravam, existia a Escola Estadual de Willowbrook: a instituição abrigava mais de 5 300 crianças neurodivergentes, em péssimas condições. Dentro das paredes, os menores de idade eram amplamente afligidos por hepatite e pneumonia e tinham apenas três minutos reservados para suas refeições. Lennon viu aquilo como “o símbolo de toda a dor do mundo” — e tomou uma atitude. Ele e a esposa arrecadaram 1,5 milhão de dólares para os jovens com o show beneficente One to One. Restaurada e remixada, a gravação do concerto foi vertida no filme Power to the People: John & Yoko Live in NYC (Estados Unidos/Reino Unido, 2026), em cartaz nos cinemas.

POLÍTICA - Em 1969: campanha contra a Guerra do Vietnã
POLÍTICA - Em 1969: campanha contra a Guerra do Vietnã (Keystone-France/Gamma/Getty Images)

A apresentação, que ocorreu no Madison Square Garden em 30 de agosto de 1972, possui enorme valor histórico: aquele foi o único show de Lennon entre sua saída dos Beatles, dois anos antes, e sua morte, em 1980. Imersiva, a produção é prova não só do talento do músico nos palcos como da influência ímpar que o casal, formado pelos hip­pies mais famosos da história, exerceu na contracultura daquela década. Esse curto período de vida de John Lennon em carreira solo, ou melhor, em vida dupla com Yoko, é agora a nova trincheira de investigação da inesgotável fonte que são os Beatles.

Além de Power to the People, o documentário One to One: John & Yoko (2024), disponível na HBO Max, se debruça sobre o mesmo período e contextualiza os bastidores do show histórico, registrando a vida entre amigos cabeludos, as reivindicações e a paranoia do par em meio ao governo de Richard Nixon. Em breve, no Festival de Cannes, o renomado cineasta Steven Soderbergh vai exibir o documentário John Lennon: The Last Interview, que reúne três horas de conversa entre o músico, sua esposa e entrevistadores momentos antes do assassinato. Para completar lacunas, 10% do tempo de tela será composto por imagens geradas por inteligência artificial.

CASO DE FAMÍLIA - Com Kyoko: a filha perdida de Yoko
CASO DE FAMÍLIA - Com Kyoko: a filha perdida de Yoko (//Divulgação)
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O panorama ilustrado de forma tão diversa por esses três projetos começa em 1970, com a separação do quarteto de Liverpool. Tida como suposto pivô, Yoko achou melhor se mudar com o marido para a efervescente Nova York, onde encontraram figuras como o poeta beatnik Allen Ginsberg e o ativista Jerry Rubin. Com eles, debateriam a legalização da maconha, o pacifismo, o feminismo, os direitos dos homossexuais e o antirracismo. Ao longo de 1972, planejavam encabeçar a turnê Free the People, ao lado de Bob Dylan, cuja receita pagaria a fiança de presos por pequenos delitos. John e Yoko cancelaram os planos quando descobriram que seus colegas planejavam instigar a violência contra uma convenção de republicanos. Era questão de princípio, mas também de segurança: em meio a ameaças de deportação, Lennon temia ser vítima de um assassinato político.

PASSADO - McCartney e Lennon: amizade interrompida
PASSADO - McCartney e Lennon: amizade interrompida (//Divulgação)

Tudo mudou em 1975, com a chegada do único filho do casal, Sean. O músico então se ausentou da mídia e encarou aquilo como um experimento: “Pode a família inspirar a arte, em vez das drogas?”. A resposta foi o derradeiro disco, Double Fantasy (1980). Antes de Yoko e Sean, Lennon foi casado com Cynthia, união conturbada e abusiva (por parte dele), com quem teve um filho, Julian — a clássica canção Hey Jude foi escrita por Paul McCartney para o garoto, como alento pela ausência paterna. Yoko, por sua vez, sofria com a distância da filha Kyoko, cuja guarda ficou com o ex-­marido. Ambos encaravam a nova família como uma oportunidade de corrigir erros de outrora. Quando Lennon morreu, a herança ficou só com a viúva. Julian processou a madrasta, mas só chegou a um acordo em 1996: o valor em sigilo é estimado em 20 milhões de libras. Hoje, Yoko está aposentada e o espólio de Lennon é chefiado por Sean, que integra a direção de oito empresas ligadas aos Beatles, além de produzir dois dos filmes citados. Apesar das desavenças, os meios-irmãos são amigos. Afinal, eles têm uma causa em comum: o legado indelével do pai.

Publicado em VEJA de 1º de maio de 2026, edição nº 2993



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