
Talento ímpar revelado na novela da Globo A Força do Querer, de 2017, a paulista Carol Duarte vive hoje uma fase frutífera em sua carreira de atriz. Sua sensibilidade ao interpretar Ivan — um personagem transgênero que viveu nas telas todo o seu processo de transição — lhe projetou nacionalmente, e, em menos de dez anos, a atriz acumulou projetos grandes dentro e fora do Brasil. Exemplo disso se deu em 2023, quando Carol foi parte do elenco de La Chimera — filme italiano que ganhou Melhor Longa-Metragem Estrangeiro de Ficção no Festival de Cannes daquele ano. Em 2026, pôde protagonizar seu primeiro filme, Eva, também na Itália, em que interpreta uma mulher enigmática que busca pais desaparecidos de crianças pequenas.
A carreira no país europeu, porém, não se tornou a prioridade da atriz, conforme contou a VEJA. Em meio a uma agenda de compromissos internacionais, Carol retornou ao audiovisual brasileiro para a terceira temporada da série Os Outros, que foi finalizada recentemente no Globoplay, dando vida à Patrícia, uma caseira e cuidadora de um pai acamado que sonha em mudar de vida — mas se vê enredada nos conflitos intermináveis dos demais personagens da série. Na entrevista a seguir, Carol comenta sobre a versatilidade de trabalhar com TV e cinema dentro e fora do Brasil, desejos para seus próximos projetos, além de relembrar as conquistas que o papel de Ivan em A Força do Querer lhe proporcionaram a longo prazo.
Em Os Outros, você interpreta Patrícia, essa personagem nova que circunda os conflitos intermináveis da Cibele (Adriana Esteves) e do Marcinho (Antonio Haddad). O que a atraiu ao papel? Para mim, quando eu li o roteiro, tinha uma coisa que me comovia muito na Patrícia. Ela é uma mulher que vive num contexto de cuidar do pai acamado e é caseira em uma casa de pessoas com mais dinheiro. Ela tem toda essa realidade ali imposta, mas ao mesmo tempo é uma personagem que sonha muito, que quer muito sair dali, que tem um desejo muito grande por viver outras coisas. Eu achei isso fascinante. Me comove muito personagens que não sucumbem e que, mesmo com as condições que têm, estão tentando sair de um lugar onde não querem estar.
Os Outros é uma das séries nacionais de maior sucesso nessa década, mas é também uma obra bastante espinhosa e nada relaxante. Por que o público se sente atraído a esse desconforto? A gente busca assistir coisas não só para se divertir, mas também por outros vieses. Às vezes por curiosidade, por se identificar. Eu vi filmes recentemente que são assumidamente de gênero e que estão tentando dar conta de uma realidade que é assustadora. E o terror ou o suspense dão conta de narrar uma história que traz reflexão e nos faz sentir coisas coletivamente. Eu acho que isso é parte saudável de uma sociedade tentando se olhar. É uma função nossa, um desejo nosso, uma necessidade humana.
Tendo passado pela televisão e pelo cinema, tanto nacional quanto estrangeiro, o quão natural é esse movimento de transitar entre diferentes estilos de atuação? Eu gosto, tenho muito prazer. O teatro é um lugar que eu sempre estou quando posso, porque tem possibilidades diferentes do audiovisual. No audiovisual a gente grava, corta e grava tudo fora de ordem e aí depois tem a montagem. É uma feitura de muitas mãos, é uma coisa mais industrial que eu descobri um prazer gigante em fazer. O teatro tem uma outra lógica, é mais artesanal e instantâneo. Você vai, senta, assiste, acabou. Amanhã vai ser outro espetáculo. Mas o cinema nos últimos anos eu fui fazendo e também é algo que me dá muito prazer, que me convoca também como atriz a outras coisas. Em duas horas e sei lá quantas páginas, você tem uma história de começo, meio e fim e um tempo de feitura diferente da novela. A novela é praticamente um filme no ar de segunda a sábado. É muito trabalhoso, é uma maratona, então, o tempo de fazer cinema e fazer televisão é diferente.
Depois de ter participado de La Chimera, você agora protagoniza um filme italiano pela primeira vez, o Eva. Como se deu esse projeto? Eva é um filme produzido totalmente na Itália. Eu acho que ele surge por conta do La Chimera [2023, dirigido por Alice Rohrwacher]. E é engraçado, porque o La Chimera surge também por conta do Vida Invisível [2019, dirigido por Karim Aïnouz]. Essa história de eu ter ido para Itália, falado italiano, uma atriz brasileira, abre um campo grande profissional por lá. La Chimera é um filme que foi muito assistido, ele esteve no Festival de Cannes, na Mostra Competitiva, então foi um filme bastante distribuído, e aí surgiu o convite para fazer Eva, que é um pouco mais de gênero, diferente de outros que já fiz. Eu vivo uma protagonista mais controversa, flerta um pouco com suspense e um pouco de terror. Nesse sentido, foi uma nova experiência.
O cinema nacional passa por um bom momento e muito se diz sobre o fascínio estrangeiro por nossa nação. Sente que isso é parte do que atraiu as diretoras Alice Rohrwacher [de La Chimera] e Emanuela Rossi [de Eva] ao seu trabalho? Em certa medida, sim. Em 2018, Vida Invisível estreia em Cannes e ganha a Mostra. Não tinha essa repercussão que tem hoje, hoje em dia as pessoas acompanham mais. Esse ano e o ano passado todo mundo acompanhou o Oscar, assistiu os filmes, eu achei tão legal isso. Mas na época do Vida Invisível isso não era tão comum. Quando você ganha essas premiações, o filme é muito distribuído e se tem um interesse grande no diretor. Não que o Brasil não estivesse em grandes festivais antes disso, mas com o Ainda Estou Aqui [2024, dirigido por Walter Salles] ganhando um Oscar, trouxe uma visibilidade grande. Acho que os prêmios que eu ganhei fora levaram a isso também, como o Platino de melhor atriz dos Prêmios Platino de Cinema Ibero-Americano, que é muito importante. E eu fico muito feliz. Talvez, por sorte, eu esteja num bom momento do nosso cinema. Eu espero que a gente continue com esse bom momento, que depende bastante das políticas públicas.
Depois delas, tem outros cineastas com quem quer trabalhar? Tem uma cineasta francesa, a Céline Sciamma. Ela fez Retrato de uma Jovem em Chamas (2019) e Tomboy (2011). Eu acho que ela filma de uma maneira muito linda e delicada. É uma diretora que eu admiro bastante. Tem ainda o Pedro Freire, diretor de um filme que eu fiz chamado Malu (2024). Aquele foi o primeiro longa dele e eu fiquei muito encantada com o roteiro que ele me apresentou e com a conversa que a gente teve. Então eu tenho interesse também nesses artistas que eu me dou bem, que vem com um personagem legal e que me inspiram.
De agora em diante, o plano é se dividir entre Brasil e Itália ou tem outros destinos em mente? Não tenho planos de ficar entre Brasil e Itália, mas isso de as coisas estarem mais misturadas permite que a gente faça testes para fora, por Estados Unidos, por Itália, para onde for. Mas eu estou aqui trabalhando no Brasil e querendo projetos que me interessem, não sei de onde eles vão vir ou onde eu vou buscá-los no mundo, mas quero me sentir inspirada.
Ano que vem, A Força do Querer, novela da Globo que você fez, chega ao seu décimo aniversário. Como tem sido acompanhar as repercussões sobre seu personagem Ivan ao longo da década? Foi o meu primeiro trabalho no audiovisual, desde lá muita coisa aconteceu, tanto na minha carreira quanto no Brasil. Uma pandemia, um presidente péssimo. As pessoas ainda me param bastante na rua para falar desse personagem. Foi uma novela que deu muita audiência, muita gente assistiu e que eu tenho um carinho muito grande. É meu primeiro trabalho, eu nunca tinha feito audiovisual, aprendi demais fazendo essa novela. Eu nunca tinha entrado no set de filmagem, então eu tive que aprender um monte de coisa, tive parceiros que foram super pacientes comigo e me ensinaram muita coisa. Depois de A Força do Querer veio tantas outras outras coisas do audiovisual, o cinema me puxou para fazer tantos filmes, então eu tenho um orgulho grande desses últimos anos, de 10 anos para cá, de tudo que aconteceu.
Atualmente, vemos outro tipo de representatividade trans na novela das nove, com a Viviane, de Três Graças. Enxerga um avanço na representação desse público nas novelas? Eu acho que sim, o Brasil mudou muito, tivemos muitos avanços, inclusive representatividade no parlamento. Em contrapartida também houve muito retrocesso. Mas espero que esses avanços sejam irrevogáveis, espero que sejam daqui para mais. Uma sociedade mais plural é uma sociedade muito mais saudável. É uma sociedade muito melhor, não só para as pessoas trans, mas para todos nós. A gente está num ano difícil, ano de eleição, em que vamos ver muitas mentiras, muitas coisas inventadas, mas eu tenho esperança de que um núcleo de avanços que a gente conquistou na nossa sociedade não se dobre nos próximos anos. É uma alegria perceber que as coisas avançaram. Mas é também uma angústia para saber que a gente ainda precisa avançar mais e mais e que a garantia não está ganha. Mas fico feliz de ver que as coisas estão mudando para melhor e ao mesmo tempo, estou tentando entender os próximos movimentos.
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