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Quando o assunto era fabricação de queijos, até bem pouco tempo atrás os estados do Sul se notabilizavam por dar continuidade à tradição dos imigrantes alemães, com uma produção artesanal de curta duração, textura macia e voltada para o consumo diário das famílias. Já os tipos de queijos mais refinados — que exigem maturação longa, clima controlado e tecnologia — eram tradição do Sudeste, especialmente de Minas Gerais e São Paulo. Mas essa divisão territorial está com os dias contados: Santa Catarina e Paraná avançam no protagonismo da fabricação de queijos especiais, acumulando prêmios em concursos nacionais e internacionais.

Por dois anos seguidos, Santa Catarina conquistou o primeiro lugar na quarta edição do Mundial do Queijo do Brasil, principal premiação do país e um dos mais importantes eventos dedicados à produção artesanal nas Américas. Em abril deste ano, o vencedor foi o Reserva do Vale, da Queijos Possamai, empresa familiar localizada em Pouso Redondo, na região do Vale do Itajaí. “Nosso queijo é feito com leite da própria fazenda, ordenhado ao amanhecer e processado imediatamente, preservando suas características originais”, afirma Marlou Possamai, diretora de marketing da empresa. O produto leva fermentos selecionados para favorecer a formação de cristais de tirosina (geralmente confundidos com pedras de sal pelo consumidor) e passa por doze meses de maturação. O resultado é uma massa semicozida, de textura untuosa, com notas de amêndoas e caramelo — que, para os jurados do concurso, resulta em “um perfil sensorial que evidencia complexidade e equilíbrio”.
Na edição anterior da prova, o título já havia ficado com o Morro Azul, da catarinense Vermont Queijos Especiais, de Pomerode, que superou até concorrentes suíços. Tem massa mole, casca mofada e uma cinta de carvalho que lhe confere notas amadeiradas. Lançado há sete anos como o primeiro queijo autoral da empresa, foi rapidamente reconhecido pela qualidade. Tanto que, no ano anterior, venceu como o melhor da América Latina no “Oscar” do setor, o World Cheese Awards, na Noruega. Para a mestre-queijeira da Guilde Internationale des Fromagers, Débora Pereira, o avanço do Sul está diretamente ligado a um terroir único. “O Sul é conhecido pelos campos e pastagens, onde as vacas costumam viver soltas, o que interfere no sabor do leite usado na fabricação do queijo”, explica a expert. No Oeste de Santa Catarina e na Serra, os queijos tendem a desenvolver cascas mais úmidas, aromas mais lácteos e uma evolução mais lenta e delicada.

De tradição secular em queijos refinados, Minas continua a ser a grande referência no setor. Mas, graças à evolução dos produtores e a incentivos governamentais, o Sul já reclama um lugar de honra no mapa nacional da iguaria. No Paraná, destacam-se queijos como o Bacchus, do Ateliê Lötschental, localizado no município de Palmeira. O produto levou o segundo lugar no Mundial do Queijo deste ano, e tem fabricação complexa, com maturação de seis meses e casca tratada com mosto de uva, o que lhe confere sabor adocicado e picante. Mesmo não sendo uma referência como a França, país com mais de 1 000 tipos de queijo, o Brasil é um mercado emergente — com o reforço sulista, pode chegar ainda mais longe.
Publicado em VEJA de 1º de maio de 2026, edição nº 2993