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Antes muito difícil de encontrar e restrita a círculos abastados de usuários, nos últimos três anos a metanfetamina começou a ser produzida no Brasil em laboratórios clandestinos e tornar-se mais acessível. Como na série americana de TV Breaking Bad, em que um professor de química decide abandonar seu emprego convencional para fabricar a droga sintética com alto poder viciante, os traficantes com atuação no Brasil precisaram contar com mão de obra qualificada na busca da fórmula para “nacionalizar” a metanfetamina. Bem-sucedidos na empreitada, obtiveram como resultado a redução do preço do entorpecente: de 500 reais, na versão importada, para 30 reais o grama. A Polícia Civil de São Paulo, onde a produção e o consumo se concentram, conseguiu prender diversos criminosos nos últimos meses, mas a quadrilha de perfil internacional, formada por mexicanos, chineses, nigerianos, dominicanos e portugueses, continua em atividade, criando um sério problema para a saúde pública e as autoridades.

Desde 2022, o volume de metanfetamina apreendido em São Paulo aumentou 38 vezes. Em 2025, foram quase 4 quilos (veja o gráfico). Embora o número pareça pequeno em comparação com as apreensões de outras drogas, como maconha e cocaína, a metanfetamina tem outro perfil de consumo. Um grama permanece no corpo humano de dez a treze horas, produzindo um efeito bem mais prolongado. Essa é justamente a quantidade básica de venda, o suficiente para uma noite de uso. A metanfetamina — pertencente à família das anfetaminas, usadas como base para várias medicações — tem a aparência de vidro, razão pela qual é apelidada de “cristal”. Essas características dificultam o trabalho dos policiais. “Uma coisa é pegar alguém com um ‘baseado’. Agora, uma pedrinha que parece vidro no bolso, como dar flagrante? E se não for nada?”, disse um policial civil a VEJA, sob condição de anonimato.

“COZINHEIRO” - Ortiz: ele obteve a fórmula para produzir a substância
“COZINHEIRO” - Ortiz: ele obteve a fórmula para produzir a substância (//Reprodução)

Dado seu efeito poderosíssimo, a droga pode ser fatal para os usuários, podendo causar lesões cerebrais irreversíveis, hipertensão, arritmia, colapso cardiovascular e morte súbita. “Nas apreensões, tem-se observado a mistura de substâncias diferentes na droga. Como a produção é toda clandestina, não dá para saber exatamente o que a pessoa está consumindo e nem como o corpo vai reagir”, explica Gabriela de Paula Meirelles, pesquisadora em ciências farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP). Além disso, a mistura da metanfetamina com drogas anestésicas, como a ketamina e o GHB (substância sintética depressora do sistema nervoso central), é usada para facilitar outros crimes, como estupros, por deixar as vítimas vulneráveis.

A produção nacional de metanfetamina foi descoberta quase por acaso. No final de 2024, a Polícia Civil começou a investigar um grupo de chineses, alvos de uma denúncia de tráfico humano no bairro da Aclimação, em São Paulo. Desconfiada do alto fluxo de pessoas que entrava e saía do apartamento dos investigados, a polícia descobriu que a residência era a matriz de um complexo esquema de tráfico de metanfetamina. A operação foi batizada de “Heisenberg”, referência ao codinome utilizado pelo personagem principal de Breaking Bad.

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CLANDESTINO - Apreensão feita em laboratório em 2025: a produção continua
CLANDESTINO - Apreensão feita em laboratório em 2025: a produção continua (DENARC/SSP-SP//)

Cerca de cinquenta pessoas foram presas. Apontado como líder de um dos núcleos da quadrilha, o grupo dos chineses, Zheng Xiao Yun, que usa o nome de Marcos Zheng, dava ordens a Pikang Dong, codinome “Rodízio”, que, por sua vez, mantinha contato com cerca de quarenta traficantes que se espalhavam pelas ruas, por casas noturnas e motéis (alguns de alto padrão) vendendo a droga, frequentemente associada a outras para a prática de “chemsex” (relações sexuais sob o efeito de entorpecentes). Apesar de possuírem uma rede bem estruturada, os chineses não fabricavam a metanfetamina: o dono da fórmula, segundo a polícia, era o mexicano Guillermo Fabian Martinez Ortiz, o “Cozinheiro”.

Assim como Walter White, o Heisenberg da ficção, Ortiz largou um emprego qualificado (no caso dele, como engenheiro naval de uma empresa de petróleo do México) para fazer dinheiro “cozinhando” metanfetamina. Não demorou, no entanto, para que um grupo de nigerianos conseguisse replicar uma versão ainda mais barata da droga. Embora os traficantes agissem separados, em núcleos divididos por nacionalidade, a polícia encontrou vários registros de conversas entre eles, negociando não apenas droga, mas também armamentos e munições. No fundo, compunham todos um mesmo conglomerado do crime.

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arte metanfetamina

Além do apartamento na Aclimação, outros núcleos de produção e armazenamento da droga foram encontrados no centro da capital paulista, na Avenida do Estado e na famosa Avenida São João — na qual, em um bar, três dominicanos foram presos em agosto passado com quase 3 quilos da droga. Atrás das grades, eles aguardam o veredicto da ação penal por tráfico. Zheng já foi condenado a quatro anos e quatro meses de detenção por esse crime; Dong, a 9 anos; e Ortiz, capturado em janeiro, recebeu pena de dez anos e dez meses por tráfico e estelionato. A polícia segue com as investigações. A fabricação da metanfetamina em solo nacional tem o potencial de fazer proliferar o consumo, um verdadeiro pesadelo. É preciso tirar de cena o Breaking Bad brasileiro.

Publicado em VEJA de 27 de março de 2026, edição nº 2988



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