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Autorizados em 2018 e regulamentados há três anos pela Lei 14.790, os sites de aposta tornaram-se o alvo favorito de quem busca os culpados por alguns dos problemas que afligem o país atualmente. Para os críticos, as bets endividam os brasileiros ao drenar o dinheiro com que deveriam pagar as contas. Outros as acusam de viciar crianças e jovens em apostas on-­line. O Senado analisa um projeto de lei para proibir essas empresas de veicular publicidade ou patrocinar equipes e eventos esportivos. Até o presidente Luiz Inácio Lula da Silva passou a atacá-las em público. Fundada na Grécia em 2012 e presente em vinte países, a Betano seria uma das bets mais prejudicadas se a ideia vingar, uma vez que é a maior companhia do setor no Brasil. Para Guilherme Figueiredo, seu principal executivo no país, banir o negócio apenas beneficiaria os golpistas. “Se isso acontecer, as organizações criminosas farão uma festa”, afirma. “As pessoas continuarão apostando. A questão é se farão em um canal legal ou em um ilegal.”

As apostas on-line endividam os brasileiros? Não. Quem diz isso está errado e ignora como o mercado funciona. Não se pode olhar apenas quanto alguém deposita no site. Deve-se olhar também quanto ele saca. A pessoa deposita o dinheiro pouco antes do início de um jogo. Se ela ganha, saca o prêmio e vai comprar a pizza e a cervejinha para comemorar. Os gastos das famílias com consumo somaram 8,2 trilhões de reais no ano passado. A receita das bets reguladas foi de 37 bilhões, ou 0,46% desse total. É menos que os 69 bilhões de reais que os brasileiros gastaram com serviços de streaming. Você já ouviu alguém reclamar que as famílias estão endividadas porque assinaram a Netflix? Além disso, o gasto médio por apostador é de 122 reais por mês. Você gasta mais do que isso se for ao cinema e comprar pipoca. Ir ao estádio assistir a um jogo de futebol com a família pode também custar mais do que isso.

A Confederação Nacional do Comércio divulgou estudo mostrando que os gastos com bets são grandes. Esses dados estão errados? Sim, e estamos abertos ao diálogo com todo mundo para esclarecer isso. A Confederação diz que as bets retiraram 148 bilhões de reais do consumo. Mas como isso é possível se o próprio governo aponta que faturamos 37 bilhões? O grande culpado pelo endividamento das famílias são os juros altos cobrados pelo crédito rotativo. Os brasileiros pagaram 689 bilhões de reais em juros no ano passado.

O Desenrola 2.0, lançado pelo governo nesta semana, proíbe que beneficiados pelo programa façam apostas on-line por um ano. Isso não é positivo? O correto seria limitar o quanto eles poderiam apostar e adotar medidas educativas de jogo responsável. Não adianta bloquear, porque a pessoa vai apostar em sites ilegais. No mercado regulado, a pessoa seria monitorada e as informações ajudariam o governo a tomar decisões muito mais embasadas. Precisamos de decisões responsáveis, para que ninguém se arrependa em 2027. Não endividamos as famílias. Os números mostram que não somos o problema.

Cerca de 20% dos apostadores têm menos de 24 anos de idade. As bets viciam os jovens? Os jovens dessa idade já nasceram em um mundo digital, em que o celular foi a sua babá. Se, desde cedo, eles aprendem isso com os pais, aos 18 anos acharam natural continuar jogando on-line. Por isso, vejo mais como um vício em estar conectado do que em fazer apostas.

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“O grande culpado pelo endividamento das famílias brasileiras são os juros altos cobrados pelo crédito rotativo. Os brasileiros pagaram 689 bilhões de reais no ano passado”

Mas as empresas de apostas não têm nenhuma responsabilidade nisso? As bets legalizadas possuem meios para identificar jogadores compulsivos. Dependendo da gravidade do caso, a pessoa tem seu acesso limitado ou bloqueado. Além disso, a lei brasileira obriga que, ao criar uma conta no site, o consumidor informe quanto dinheiro e quanto tempo deseja gastar por dia. Quando ele atinge 80% do limite, recebe um alerta. Se chegar a 100%, é bloqueado. As pessoas acham que as bets querem sugar o povo. Não é nada disso. Para mim, é melhor ter 1 milhão de jogadores que apostam 10 reais por dia, do que dez jogadores viciados gastando 1 milhão. Nenhum operador regulado deseja isso.

Parte da população, como os evangélicos, é contra as apostas on-line por questões morais. Jogar é imoral? Essa é uma questão um pouco mais difícil, porque se trata de uma crença pessoal e a respeitamos. Mesmo que você seja contra, e tudo bem ser contra, apoie o mercado regulado. O Brasil não voltará mais a um passado em que ninguém apostava. A questão é se o jogo é feito em uma bet legalizada ou não. Nós não somos os vilões da história. Dizer que destruímos as famílias não é o caminho. É melhor destacar o jogo responsável. Se você tiver dívidas, não jogue. Se tiver problemas de compulsão, não jogue. Se bebeu, não jogue. Se perdeu dinheiro naquele dia, pare e não tente recuperá-lo. Agora, se você está bem e quer brincar, aposte com responsabilidade. É um entretenimento e não precisa ser demonizado.

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O presidente Lula afirmou há poucas semanas que a “jogatina desenfreada” não pode continuar e disse que, se depender dele, todas as bets serão fechadas. Como o senhor avalia essa declaração? Se o presidente dissesse tudo isso, mas acrescentasse que o problema são os sites ilegais, eu assinaria embaixo. São eles que incentivam a jogatina desenfreada, que exageram na publicidade e que permitem que menores de idade apostem. O Brasil tem hoje uma das melhores regulamentações do mundo para apostas e isso é uma conquista do governo Lula. É uma pena que ele tenha vergonha de falar disso agora por questões eleitoreiras. É impossível parar com as apostas on-line. Se proibirmos tudo, o crime organizado fará uma festa no dia seguinte, porque o mercado todo migrará para os sites ilegais.

Como é possível combater as apostas ilegais? O mercado legalizado faturou 37 bilhões de reais no ano passado. Estimamos que os ilegais movimentaram outros 40 bilhões. Metade dos ilegais atua como bancos do crime organizado. É pura lavagem de dinheiro. Nesses casos, a única solução é a repressão policial e do Ministério Público, e nós queremos ajudar. Os sites regulamentados podem contribuir com informações estratégicas.

Por que é tão difícil coibir o mercado ilegal? São sites criados apenas para aplicar golpes na população. Um influenciador digital o divulga nas redes sociais. O apostador deposita o dinheiro e nunca mais consegue resgatá-lo. É perverso porque os golpistas já contam que as autoridades vão tirar a bet do ar. De repente, o site some e os incautos perdem tudo. Então, os golpistas criam outro site e isso vira um círculo vicioso. Educar as pessoas para que apostem apenas em quem é legalizado é fundamental. Um avanço foi a sanção do Projeto de Lei Antifacção, que esclarece o papel do Banco Central nesses casos. O BC tem os meios para identificar para quem foi o dinheiro de sites de apostas ilegais.

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Se os influenciadores digitais são um problema, por que as bets legais seguem usando esse canal de propaganda? Não vamos demonizá-los. A grande maioria age dentro da lei. É preciso punir quem não segue as regras. A Lei Antifacção determina que as redes sociais podem ser corresponsáveis em casos de fraudes digitais. O que precisamos agora é que as redes sejam mais rápidas nas ações. Recentemente, um influencer com 3,9 milhões de seguidores promoveu uma suposta bet oficial do Flamengo por meio de um story, um tipo de post que dura apenas 24 horas. Até o post ser removido, o estrago já estava feito.

“O Brasil tem uma das melhores regulações de bets do mundo e isso é um mérito do governo Lula. É uma pena o presidente não falar disso. Até parece que tem vergonha”

Não é melhor proibir a publicidade, como defende a senadora Damares Alves (Republicanos-DF), relatora do PL 3.563, que trata desse tema? Entendemos a intenção dela de proteger as crianças e a população vulnerável, mas proibir vai piorar a situação. Soluções simplistas não resolvem problemas complexos. Só criam outros piores. Seria devastador para o Brasil neste momento, já que oito em cada dez pessoas não sabem diferenciar os sites legais dos ilegais. Se você estrangular o mercado regulado, os criminosos vencerão. O influenciador digital mal-intencionado continuará promovendo as apostas ilegais e atraindo menores de idade. Incentivar as bets reguladas protege o consumidor. Na Holanda, onde se restringiu muito a propaganda, a arrecadação de impostos caiu e as apostas ilegais cresceram. Agora, os holandeses cogitam liberar a propaganda novamente.

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Que impacto a proibição teria nos times de futebol, já que as bets dominaram o patrocínio ao esporte? Muitos setores chegaram e saíram do futebol, como as marcas de eletroeletrônicos, as montadoras e as financeiras. A vantagem dos sites de aposta é que não vão abandonar o futebol, porque o nosso negócio depende de haver clubes fortes que façam as pessoas gostarem de assistir aos jogos. Para as bets, o patrocínio é um investimento perene. No Reino Unido, onde se discute a proibição de exibir sites de aposta nas camisas dos clubes a partir de 2027, há dúvidas sobre se isso será viável, porque se percebeu que outros setores não desejam investir tanto assim no futebol. São marcas que podem captar clientes por outros meios, como o patrocínio a shows musicais.

Qual é a responsabilidade das bets nos escândalos de manipulação de resultados no futebol? Os maiores prejudicados por essas fraudes são os sites. Por falta de informação, as pessoas acreditam que somos os responsáveis, mas na verdade atuamos como os sensores do sistema legal, reportando possíveis casos de manipulação para que os responsáveis sejam investigados. Somos os maiores interessados em ter partidas limpas. Na China, onde é proibido apostar, as máfias dominaram totalmente o futebol e a manipulação de resultados explodiu ao lado das apostas ilegais.

O interesse pela seleção brasileira atingiu o menor patamar histórico. Como isso pesa nos planos do setor para a Copa do Mundo deste ano? É importante que as pessoas acreditem na equipe e nas chances de conquistarmos o hexacampeonato. Durante uma Copa, muita gente tem contato pela primeira vez com as apostas on-­line e passa a entender como funcionam. Os brasileiros estão acostumados a apostar. Basta ver os bolões. O vínculo da camisa da seleção à política, que vimos nos últimos anos, parece estar diminuindo. Tenho certeza de que esta Copa será forte o bastante para que nossa base de clientes continue crescendo. Espero que o Carlo Ancelotti nos traga o hexa.

Publicado em VEJA de 8 de maio de 2026, edição nº 2994



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