A inteligência artificial começa a ganhar espaço na gestão climática das cidades brasileiras em um momento em que prefeitos e governadores enfrentam uma pressão crescente para responder a enchentes, ondas de calor, secas e colapsos urbanos cada vez mais frequentes.
Se até recentemente o debate climático ficava restrito a metas internacionais e planos de longo prazo, a proposta da chamada “Bússola Climática”, desenvolvida pela e pelo , tenta levar a discussão para um terreno mais pragmático: o da tomada de decisão baseada em dados.
Apresentada durante o Encontro do Programa Cidades Verdes Resilientes (PCVR), em Brasília, a ferramenta utiliza dados sobre emissões de gases de efeito estufa, riscos climáticos, vulnerabilidades urbanas e contexto territorial para ajudar municípios a identificar prioridades e acelerar projetos de adaptação e mitigação climática.
“O Brasil viveu um momento muito importante ao receber a COP30, por tudo o que representa globalmente. Mas o mais importante agora é o legado concreto que conseguimos construir”, afirma Sandino Lamarca Souza, gerente sênior de Dados e Ferramentas da C40 e um dos responsáveis pelo desenvolvimento da plataforma.
“O que mostramos agora é resultado de um trabalho direto com 50 cidades brasileiras para acelerar diagnósticos climáticos e apoiar decisões.”

Como funciona a Bússola Climática
Segundo Sandino, a iniciativa resulta da percepção de que muitos municípios não possuem estrutura técnica ou capacidade financeira para elaborar planos climáticos complexos.
“Um diagnóstico municipal pode levar até dois anos e custar cerca de 800 mil reais”, disse. “A gente propôs uma metodologia para acelerar esse processo e foi daí que surgiu a Bússola Climática.”
A primeira fase do projeto começou com cinco cidades-piloto. Depois, a metodologia foi ampliada para 50 municípios de diferentes portes e regiões do país, incluindo cidades amazônicas, capitais e municípios médios.
“O componente mais inovador é justamente a capacidade de sugerir ações climáticas com base no perfil da cidade”, afirmou Sandino. “Normalmente isso exige um longo processo de planejamento. A ferramenta consegue otimizar muito essa etapa.”
Segundo ele, a inteligência artificial funciona como uma espécie de sistema de recomendação para políticas públicas.
“A IA funciona como um Tinder”, disse. “Ela cruza o perfil de emissões, riscos e contexto urbano da cidade com ações que fizeram sentido em experiências semelhantes.”
A plataforma utiliza bases públicas nacionais e modelos de validação técnica para calibrar recomendações de acordo com diferentes realidades.
“Uma cidade pequena da Amazônia tem desafios completamente diferentes dos de uma cidade do Sul do país”, comparou Sandino. “A IA ajuda a criar conexões e identificar padrões que façam sentido em cada contexto.”
Das enchentes do Sul aos desafios da Amazônia
A ferramenta já vem sendo aplicada em cidades tão distintas como Rio Branco, no Acre, e Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul.
Em Caxias, uma das pioneiras, os dados passaram a orientar discussões entre diferentes secretarias municipais após os eventos extremos que atingiram o estado, em 2024.
“Caxias reúne diferentes áreas da prefeitura para entender quais riscos são mais altos e quais ações podem ser implementadas”, explicou Sandino. “A ferramenta ajuda a organizar prioridades.”
A aposta na inteligência artificial ocorre em um momento em que cidades brasileiras enfrentam crescente vulnerabilidade climática.
Estudos recentes mostram que grande parte dos municípios possui baixa capacidade adaptativa diante de extremos, especialmente devido à desigualdade urbana, ocupações em áreas de risco e falta de planejamento.
Hoje, mais de 85% da população brasileira vive em áreas urbanas. É também nas cidades que se concentram problemas como ilhas de calor, enchentes, impermeabilização do solo, pressão sobre infraestrutura e exclusão socioambiental.
“A adaptação deixou de ser apenas uma pauta ambiental. Ela virou uma política básica de gestão urbana”, afirmou Sandino.
“Quando falamos de enchente, onda de calor ou deslizamento, estamos falando de mobilidade, habitação, saúde pública.”
O papel do Mutirão Brasil
A Bússola Climática integra o programa Mutirão Brasil, iniciativa criada pela e pelo para acelerar a implementação de projetos climáticos em municípios brasileiros.
Lançado no contexto da , o programa atua em áreas como mobilidade urbana sustentável, gestão de resíduos, planejamento climático e financiamento climático, conectando municípios, governo federal e parceiros técnicos nacionais e internacionais.
A iniciativa apoia mais de 50 municípios e estados brasileiros e busca reduzir gargalos históricos da agenda climática local, especialmente a falta de capacidade técnica para estruturar projetos e acessar financiamento.
Para Sandino, porém, o principal desafio continua sendo político e institucional.
“Muitos prefeitos ainda não sabem que direção tomar em meio a tanta informação”, afirmou. “Às vezes nunca participaram de uma COP ou de um fórum climático internacional. Então o que fazemos também é mostrar exemplos concretos de outras cidades.”
Segundo ele, convencer gestores locais de que adaptação climática pode melhorar a qualidade de vida da população é parte central do trabalho.
“A implementação climática melhora a vida das pessoas. Quando o gestor entende isso na prática, o processo ganha força”, disse.
A corrida contra o tempo
No Rio de Janeiro, pesquisas recentes sobre calor extremo em favelas vêm demonstrando como a crise climática aprofunda desigualdades urbanas já existentes.
O desafio agora é acelerar respostas antes que os impactos se tornem ainda mais severos.
“Se quisermos reduzir o tempo de resposta aos desastres climáticos, precisamos fortalecer os municípios”, afirmou Sandino.
“A implementação acontece nas cidades. É ali que a população sente primeiro os impactos da crise climática.”
O que é a C40 e o Pacto Global de Prefeitos
Criada em 2005, a C40 atua em temas como mobilidade sustentável, adaptação urbana, qualidade do ar, infraestrutura verde e transição energética. Atualmente, a rede representa mais de 900 milhões de pessoas e aproximadamente um quarto da economia global.
Já o Pacto Global é a maior coalizão global de cidades voltada à ação climática. A iniciativa reúne mais de 13.800 cidades em 147 países e busca apoiar políticas climáticas mensuráveis e coordenadas entre municípios, governos nacionais e organismos internacionais.