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Poucos acontecimentos sacodem com tamanha intensidade a vida de uma mulher quanto o exercício da maternidade, uma trilha cheia de curvas e lombadas na qual é preciso aprender a caminhar ao mesmo tempo que desafios de variadas envergaduras se apresentam. Do choro que não para ao bebê que não dorme — esse é só o início de uma jornada que ganha complexidade conforme a criança vai fincando os pés no mundo. E não é só o humor da mãe que muda, não. Também seu cérebro é vastamente transformado de forma duradoura, ajustando-se para executar um rol inédito de tarefas que envolvem, no conjunto, a delicada missão de decifrar as necessidades e os sentimentos daquele miúdo ser muito antes de ele saber expressá-los. Há décadas dedicados a dissecar a mente materna, os neurocientistas já sabem: circuitos neurais situados na região do córtex pré-frontal, relacionados à capacidade de frear impulsos e processar emoções, ficam em atividade plena e, justamente em meio a essa ebulição, brotam altas doses de empatia e afeto.

DO MEDO À CONFIANÇA - Em sua estreia na maternidade, tudo pesava para a advogada Marianna Rebello, de 42 anos, mãe de Julia, de 6, e de Pedro, de 1 ano. No segundo round, morando inclusive longe da família, em Dubai, ela trabalhou até dias antes do parto e tudo fluiu com maior leveza. “Estava mais preparada”, diz.
DO MEDO À CONFIANÇA – Em sua estreia na maternidade, tudo pesava para a advogada Marianna Rebello, de 42 anos, mãe de Julia, de 6, e de Pedro, de 1 ano. No segundo round, morando inclusive longe da família, em Dubai, ela trabalhou até dias antes do parto e tudo fluiu com maior leveza. “Estava mais preparada”, diz. (./Arquivo pessoal)

Pois agora a ciência está dando um novo passo ao analisar os abalos sísmicos provocados pela segunda gravidez. E a conclusão é que, já mais calejadas, as mulheres que decidem encarar outra gestação têm as estruturas modificadas em uma direção bem diferente. A mais recente investigação na área, conduzida pela Universidade de Amsterdã e que acaba de ser publicada na revista Nature, comparou mães de um filho às de dois à base de ressonâncias realizadas durante a gestação e após o parto. Logo ficou claro que engravidar de novo não é simplesmente repetir o primeiro round: o tecido no cérebro se reorganiza de maneira distinta. Enquanto as que estreiam no universo de fraldas, mamadeiras (e muito mais) têm a mente tomada por uma leitura essencialmente emocional do rebento, voltada para a construção do vínculo, as de segunda viagem afiam sobretudo as redes cerebrais ligadas à atenção e à administração simultânea de afazeres, um pacote de viés mais prático. No dia a dia, a mulher passa a responder com maior agilidade e precisão às inúmeras missões de natureza física inerentes à maternidade. “Tudo indica que essas mudanças no cérebro preparam a mulher para cuidar de mais de uma criança, cenário em que há um turbilhão de estímulos externos e crescentes exigências”, disse a VEJA Milou Straathof, uma das autoras do estudo.

Não que as emoções não estejam sempre à flor da pele quando um novo bebê vem ao mundo, mas o segundo filho (ou, para algumas, o terceiro, o quarto) chega a um terreno no qual as inseguranças mais elementares já foram equacionadas e é possível se equilibrar melhor na gangorra entre sentimentos e razão. Como mãe de primeira viagem, a advogada Marianna Rebello Pinto, de 42 anos, reconhece que a toda hora lhe batia algum medo. “Cada decisão pesava”, conta ela, que, na segunda vez, morando em Dubai, longe da família, viu aflorar um pendor para a praticidade que não imaginava existir. “Me senti muito mais confiante e preparada para tocar a rotina”, diz a advogada, ao lado de Julia, de 6 anos, e Pedro, de 1. O que ela e tantas outras relatam foi verificado na mente feminina pelos pesquisadores holandeses, que notaram alterações até no volume cerebral, sutilmente mais denso nas mães de dois filhos. “A primeira gravidez inaugura o modo mãe, enquanto a segunda parece aperfeiçoar todo o sistema para lidar com uma realidade de maior demanda”, afirma a neurologista Geovane Porto Viana.

SEM INTERVALO - A publicitária Maria Clara Velloso, de 24 anos, engatou a gravidez de Isabela, de quase 1 ano e meio, com a de Julia, perto de apagar a primeira velinha. “O que antes era tenso se tornou prazeroso”, diz.
SEM INTERVALO – A publicitária Maria Clara Velloso, de 24 anos, engatou a gravidez de Isabela, de quase 1 ano e meio, com a de Julia, perto de apagar a primeira velinha. “O que antes era tenso se tornou prazeroso”, diz. (./Arquivo pessoal)
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Mesmo com as taxas de natalidade em baixa na banda ocidental do planeta, a aventura de criar dois filhos ainda é o mais comum no Brasil. Segundo o último Censo do IBGE, o país contabiliza 41,5 milhões de mulheres nessa situação, multidão que representa cerca de 70% das mães brasileiras. O batente para elas, que na maioria dos casos se revezam entre maternidade e trabalho, não é nada fácil. Visto de fora, muita gente pode pensar que ser mãe em dose dupla é trabalho redobrado, e de certo modo funciona assim mesmo. Mas o aprendizado adquirido na primeira gestação se faz tão intenso que, na hora da segunda, a vida já flui sem tantos sustos, como ocorreu com Laiana Carolina da Silva, de 32 anos, que trabalha em um salão. “Com o João Pedro, eu ficava ansiosa com tudo. Aí veio a Sophia e entrei no modo automático, multitarefas, e a sensação é de que passou até mais rápido”, diz Laiana, cujo primogênito tem hoje 14 e a caçula, 11.

Cada filho, evidentemente, é de um jeito e impõe desafios únicos. E, de um bebê a outro, também a mulher passa por experiências nos vários escaninhos da existência que a transformam. “Nenhuma gestação se repete, porque a mulher já não é a mesma. Ela acumulou experiências, atravessou fases e sabe o que é se tornar mãe”, enfatiza a psicóloga perinatal Jessica Neves. A tendência que une as que expandem a prole é ganhar objetividade e clareza ao encarar os espinhos cotidianos. A publicitária Maria Clara Velloso, de 24 anos, é da turma que engatou uma gravidez na outra, com uma diferença de meses entre a mais velha, Isabela, de quase 1 ano e meio, e Julia, perto de apagar a primeira velinha. A mais velha custou a embalar uma noite inteira de sono, fonte de estresse que, com a caçula, virou uma rotina envolta em leveza. “Troquei a tensão de antes por um momento meu e dela, algo bom”, avalia. A relativização das asperezas da maternidade é um traço entre as que já acumularam bagagem. “Na segunda vez, elas sabem discernir melhor o que é relevante do que pode ser deixado de lado, sem prejuízo à criança”, avalia a obstetra Priscila Gapski Pereira.

UM MUDA O OUTRO - Elo de irmãos: a caçula observa de perto o mais velho, que aprende a dividir as atenções
UM MUDA O OUTRO - Elo de irmãos: a caçula observa de perto o mais velho, que aprende a dividir as atenções (SolStock/Getty Images)
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Ao mesmo tempo que a mãe vai ganhando estofo, o segundo filho cresce sob uma moldura diversa. O primeiro, com atenção exclusiva e pais mais ansiosos, se desenvolve em um ambiente que enseja a linguagem e a permanente interação com os adultos. Já o que vem depois, em uma casa cheia, com um irmão como referência e pais mais confiantes e atarefados, divide já na largada as atenções, o que favorece a autonomia e a habilidade de se adaptar. O convívio entre irmãos é para lá de benéfico a ambos, como mostra um estudo da Universidade Murdoch, na Austrália. O mais novo acaba por aprender cedo na vida a olhar para o que o outro pensa e como ele pode encarar uma mesma situação sob um ângulo diferente, um estímulo e tanto à empatia e à arte da negociação. Do ponto de vista do primogênito, a chegada de alguém com quem repartir os paparicos é o primeiro grande exercício de entender fundamentos básicos da vida em sociedade: saber compartilhar, esperar sua vez e levar em consideração a presença permanente de um semelhante repleto de necessidades.

Os especialistas alertam, porém, que nem tudo são flores nesse território tão permeado de sutilezas. Ao se habituar a uma rotina puxada, cumprida não raro no piloto automático, mães de segunda, terceira viagem, embora exauridas, não desaceleram o ritmo. Frequentemente nem se dão conta de quão cansadas estão. Outras, mesmo cientes da batalha diária demasiado pesada, preferem seguir em frente, sem pedir ajuda nem parar para ajustar as engrenagens. “Vejo em muitos casos no consultório o que chamo de silenciamento emocional, o que é bastante prejudicial à mulher”, diz a psicóloga perinatal Jessica Neves.

MODO MULTITAREFAS - Aos 32 anos, Laiana Carolina da Silva, que foi mãe aos 18 de João Pedro, hoje com 14, e logo de Sophia, de 11, diz que a rotina ficou puxada e que sobra menos tempo para refletir sobre cada atitude. “Às vezes, me sinto no piloto automático”, afirma.
MODO MULTITAREFAS – Aos 32 anos, Laiana Carolina da Silva, que foi mãe aos 18 de João Pedro, hoje com 14, e logo de Sophia, de 11, diz que a rotina ficou puxada e que sobra menos tempo para refletir sobre cada atitude. “Às vezes, me sinto no piloto automático”, afirma. (./Arquivo pessoal)
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Ao saber da vinda de um novo bebê, uma fatia das mulheres antecipa a carga por vir e custa a estabelecer um elo com a segunda gravidez. Com um filho já fazendo suas peripécias pelo mundo, é comum não encontrarem tempo para a barriga que desponta e tudo o que vem embutido aí. O estudo da Universidade de Amsterdã chega a lançar um alerta: se na primeira vez eventuais sintomas de depressão se apresentam após o parto, na segunda não é incomum percebê-los ainda durante a gestação. Fácil nunca é, mas a recorrente opção por mais um filho reforça o quão rica e prazerosa é a maratona. “A maternidade me transformou por inteira”, reconhece a publicitária Maria Clara. E agora é a ciência que diz: ela e tantas outras que aprenderam na marra, ora errando, ora acertando, a se pôr no papel de mãe jamais serão as mesmas.

Publicado em VEJA de 8 de maio de 2026, edição nº 2994



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