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A maioria das grandes mudanças na história com H maiúsculo caminha a passos lentos, mas há certas datas que marcam um “antes” e um “depois”. A queda da Bastilha, em 14 de julho de 1789, acionou as engrenagens da Revolução Francesa e fez soprar pelo globo ventos de liberdade. Em 9 de novembro de 1989, o Muro de Berlim veio abaixo para marcar o fim da Guerra Fria, que havia deixado o planeta à beira do precipício. Os ataques de 11 setembro de 2001 foram um abalo sísmico imediato e permanente na agenda de segurança internacional. O tempo dirá, mas 3 de janeiro de 2026 pode entrar para o mesmo rol.

Naquela madrugada, em meio a bombas que caíam em Caracas, Nicolás Maduro foi deposto pelas Forças Armadas americanas e logo levado para Nova York junto à esposa, Cilia Flores, para ser julgado por tráfico de drogas. A queda do ditador que por doze anos estrangulou com punho de ferro a população venezuelana produziu alívio imediato entre aqueles que sentiam estar em um beco sem saída, encurralados pelo líder chavista. Mas também teve efeitos incertos.

Passado um mês, o país opera agora nas mãos de Delcy Rodríguez, a ex-vice-presidente que, sob pressão, lidera as mudanças exigidas pelo presidente americano, Donald Trump, ao mesmo tempo em que mantém viva a retórica chavista. O panorama certamente mudou na Venezuela sem Maduro, com aproximação de Washington, abertura do setor petroleiro e a promessa de uma anistia geral que beneficia presos políticos. Mas o que mudou efetivamente?

Estabilidade tutelada

Trump ordenou o bombardeio que resultou na captura de Maduro e na morte de quase 100 pessoas, entre civis e militares. No entanto, evitou uma ruptura completa, ao contrário de intervenções anteriores dos Estados Unidos em países como o Iraque.

Rodríguez mantém o chavismo no poder, embora sob a influência de Washington. É uma “estabilidade tutelada”, avaliou Guillermo Tell Aveledo, professor de Estudos Políticos da Universidade Metropolitana, em entrevista à agência de notícias AFP.

Trump chamou Rodríguez de “formidável” e a convidou para uma visita à Casa Branca, em data ainda indefinida. “Tudo está indo muito bem com a Venezuela”, afirmou ele em 14 de janeiro, após o primeiro telefonema entre os dois.

Os dois países também avançam na retomada das relações, rompidas por Maduro em 2019, embora o secretário de Estado americano, Marco Rubio, tenha alertado Rodríguez que ela poderia sofrer o mesmo destino de seu ex-chefe caso não se alinhe aos objetivos de Washington.

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Na segunda-feira, Rodríguez recebeu a nova chefe da missão diplomática dos Estados Unidos, Laura Dogu, que enfatizou que a “transição” faz parte da agenda.

“Queremos uma Venezuela amigável, estável, próspera e democrática”, afirmou a americana em vídeo publicado no domingo, além de ter reiterado as “fases” apresentadas por Rubio sobre a Venezuela, que culminam em uma transição. A oposição tem insistido na exigência de uma mudança de governo por meio de eleições.

Abertura petroleira

A Venezuela aprovou nesta semana uma reforma em sua lei do petróleo, que, segundo analistas, teria sido determinada pelos Estados Unidos.

A legislação revoga efetivamente a nacionalização de 1976 e, principalmente, o modelo estatista imposto por Hugo Chávez 30 anos depois. Empresas privadas poderão operar de forma independente, em vez de como acionistas minoritários em parcerias com a estatal PDVSA. O plano de Trump é atrair empresas petroleiras americanas, como a Chevron, para investir na Venezuela.

A nova lei também flexibiliza as taxas de royalties e simplifica o pagamento de impostos. Além disso, elimina a exclusividade da exploração e da exploração primária.

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“É a única maneira de obter investimentos significativos”, explicou o analista de petróleo Francisco Monaldi, professor nos Estados Unidos, à AFP.

Segundo especialistas, a Venezuela precisa de aproximadamente US$ 150 bilhões (cerca de R$ 788 bilhões) para revitalizar sua indústria, que foi duramente atingida por anos de corrupção e má gestão. Trump assumiu o controle de algumas das vendas de petróleo da Venezuela no mercado, sem os descontos obrigatórios pelo embargo que ele impôs em 2019. Ele realizou uma venda inicial que gerou US$ 500 milhões (R$ 2,62 bilhões) para o país.

Embora Rodríguez mantenha o discurso chavista para o público interno, ela é vista em Washington como mais pragmática. Além de vice-presidente, ela chefiava o Ministério dos Hidrocarbonetos, que sob sua liderança implementou reformas ortodoxas no setor e mecanismos de livre mercado para revitalizar a economia venezuelana — que, em frangalhos, é altamente dependente do petróleo.

Governo e propaganda

Rodríguez lidera o governo de Maduro de forma interina. No entanto, ela não convocou eleições após 30 dias de vacância do líder “eleito” (entre aspas, aqui, dadas as contundentes evidências de que a eleição de 2024 que teria dado a Maduro um novo mandato), como previsto pela Constituição do país.

Ao longo do último mês, Rodríguez substituiu ministros e oficiais de alta patente das Forças Armadas, embora Diosdado Cabello e Vladimir Padrino, os influentes ministros do Interior e da Defesa, respectivamente, permaneçam em seus cargos por enquanto.

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“É uma fase de reajuste para um sistema que preferia não alterar sua hegemonia”, declarou Aveledo, da Universidade Metropolitana.

A reaproximação com os Estados Unidos contrasta com a retórica historicamente “anti-imperialista” do chavismo, que permeia as Forças Armadas. O partido governista organiza marchas quase diariamente para condenar o “sequestro” de Maduro e a televisão estatal transmite uma música cativante que exige sua libertação. Seu rosto e o de sua esposa foram exibidos em um show de luzes com drones no Forte Tiuna, o principal complexo militar do país, onde estavam hospedados na madrugada de 3 de janeiro, local que foi bombardeado durante a incursão americana.

Uma formação perfeita de drones também exibiu a transcrição de sua queixa no tribunal de Nova York, onde ele se declarou um “prisioneiro de guerra”.

Anistia e medo

Rodríguez declarou anistia geral, que o Parlamento precisa aprovar esta semana. Seu alcance, porém, ainda não está claro.

“Liberdade, liberdade!”, gritavam familiares de presos políticos do lado de fora das prisões quando receberam a notícia. De acordo com o partido Vente Venezuela, da líder oposicionista María Corina Machado, a população foi às ruas em 130 municípios no último final de semana para pedir pela soltura de seus parentes.

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A líder interina também anunciou o fechamento do Helicoide, prisão denunciada há anos como um centro de torturas.

Presume-se que a anistia conceda liberdade aos presos políticos. Rodríguez já havia anunciado um processo de solturas, que, no entanto, avançava muito lentamente. Até segunda-feira, 687 pessoas permaneciam detidas por razões políticas, segundo a ONG Foro Penal.

“A anistia, em princípio, implica esquecimento, não perdão”, explicou Alfredo Romero, diretor do Foro Penal, que rejeitará qualquer proposta que sirva como “manto de impunidade”.

O medo imposto por Maduro diminuiu, mas não desapareceu. As pessoas ainda criticam o governo em sussurros. “Vivemos uma normalidade tensa. Em janeiro, cada dia parecia um domingo sem fim”, afirmou uma jornalista venezuelana a VEJA, que pediu para manter anonimato por segurança.

“Caracas voltou ao seu ritmo ‘usual’, mas estamos aguardando para ver se realmente haverá uma melhora econômica, com o dinheiro vindo das vendas de petróleo. As pessoas estão atentas, inseguras, mas seguindo com suas vidas. Observam o novo governo com desconfiança, porque são as mesmas pessoas de antes, mas com os Estados Unidos as observando de perto”, disse outro profissional da imprensa.

Há uma “liberalização tática”, observou Aveledo. “O sistema está recalibrando os custos da repressão”.



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