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É sempre bom saber o que há por trás de um nome que parece nos acompanhar desde sempre. O estilo art déco, um dos mais populares e influentes do século XX, deriva do acrônimo da Exposição Internacional de Artes Decorativas e Industriais Modernas que ocorreu em Paris, há exatos 100 anos. Não se usava a expressão, a rigor, até meados dos anos 1960, quando um crítico de arte tratou de tirar da cartola a alcunha, batizando o movimento que nascera nos chamados Anos Loucos, a Era do Jazz — um tempo em que a Europa, especialmente, renascia das cinzas da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), no interregno de otimismo que antecipou a crise da Bolsa de Nova York, em 1929, e em seguida a Segunda Guerra Mundial.

O art déco pode ser difícil de definir, mas fácil de reconhecer. Envolve arquitetura de ângulos geométricos, com predileção pelas formas triangulares, com edifícios de silhuetas escalonadas — que se afinam em direção ao topo —, como se vê em marcos de Manhattan, a exemplo do arranha-céu Chrysler, inaugurado em 1930, e o Empire State Building, de 1931. É desenho que despontou em móveis de linhas simples (cujo grande designer era Clément Rousseau), inspirados em linhas de montagens industriais e nos tempos modernos, chamemos assim. Brotou também, como não poderia deixar de ser, em forma de manifesto, na moda, em vestidos e joias, especialmente da Cartier, que soube pegar o trem da história como nenhuma outra grife. Os materiais mais adorados: o metal e a laca. Punha-se no liquidificador tudo o que soava inovador, ancorado no passado: o cubismo, o futurismo, a arte egípcia e bizantina.
Uma magnífica exposição em Paris — 1925-2025. One Hundred Years of Art Déco, em cartaz até abril no Musée des Arts Décoratifs — mergulha naquele tempo, que é também o nosso tempo, dada a permanência da revolução de todos os sentidos, de todas as artes. A mostra reúne mais de 1 000 obras, apresentadas sob um olhar renovado que trata o design como um fenômeno cultural. O déco, como também é chamado, em sua forma mais simpática e carinhosa, era uma resposta aos problemas do cotidiano, um espelho do que a civilização sonhava ser, entre dores e amores. “Durante a guerra, as mulheres foram trabalhar fora e, com o fim do conflito, geraram aumento da renda familiar e a necessidade de maior demanda por bens de consumo”, diz João Braga, professor de história da moda da Faap, de São Paulo. Dito de outro modo: naquele momento, as artes e o cotidiano deram as mãos para nunca mais se separarem. Nas palavras de Stephen Bayley, estudioso daquele período, buscava-se o “romantismo das viagens, o glamour, a cor, o luxo e a sem sensualidade”.

Não por acaso, como símbolo de todos esses quesitos, um vagão do Orient Express — totalmente art déco, é claro — foi recriado na exibição parisiense de agora, com um vagão para visitação e espanto. O ambiente, originalmente elaborado pelo mítico arquiteto Maxime d’Angeac, tem caráter cinematográfico, com paredes revestidas por painéis de vidro Lalique e marchetaria refinada. O uso de madeiras escuras, veludos, laca, marfim e detalhes dourados reforça a elegância da decoração. Os corredores estreitos conectam o restaurante às cabines-leito, que reproduzem o clima de um dos romances policiais mais famosos de Agatha Christie, Assassinato no Expresso do Oriente. É charme que, nos vestidos, remete aos modelos de Marguerite Pangon, banhados de cores, de veludo pintado em batik, técnica javanesa então inédita para os franceses.

Mas, afinal de contas, por que o art déco permanece vivo, ainda hoje, em tempo da efemeridade das redes sociais, em que tudo parece nascer velho? A geometria rigorosa, a valorização da funcionalidade e o uso inteligente de materiais parecem responder aos humores de agora, de zelo pela sustentabilidade, de cuidado com o ambiente e de busca de espaço em tanta densidade urbana. Vale lembrar, portanto, na elegância sem fim, de um verso de Carlos Drummond de Andrade: “E como ficou chato ser moderno. Agora serei eterno”.
Publicado em VEJA de 19 de dezembro de 2025, edição nº 2975