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Talvez a pergunta correta seja: o que as canetas para o tratamento da obesidade podem fazer pelo seu fígado? Nos últimos anos, estudos revelaram o potencial protetor da semaglutida, princípio ativo do Wegovy, diante da gordura no fígado acompanhada de inflamação, culminando com a aprovação pela Anvisa dessa nova indicação em bula. Agora, é a tirzepatida do Mounjaro que mostra seu papel de guarda-costas hepático.

O remédio de aplicação semanal, que imita dois hormônios que participam do controle do apetite, do peso e da glicemia, protagonizou um estudo internacional recém-publicado no periódico The New England Journal of Medicine. 

“O medicamento demonstrou resultados impressionantes em pacientes com a chamada MASH, a esteato-hepatite associada à disfunção metabólica (MASH), condição que pode evoluir para cirrose e câncer de fígado”, comenta o endocrinologista Carlos Eduardo Barra Couri, pesquisador da USP de Ribeirão Preto.

A tal da MASH é uma sigla em inglês para uma doença marcada pelo depósito de gordura no órgão ligado a um processo inflamatório que gradualmente vai lesando suas células e prejudicando suas funções. Estima-se que 30% dos brasileiros podem conviver com o problema.

O novo estudo foi conduzido por um time da Universidade da Califórnia em San Diego, nos Estados Unidos, e incluiu 190 pacientes com a condição confirmada por exames em estágio de moderado a avançado. Eles receberam doses de tirzepatida de 5 a 15 mg, ou placebo (canetas sem princípio ativo) para fins de controle, durante 52 semanas.

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O objetivo da pesquisa foi avaliar se a medicação poderia barrar a inflamação do fígado e evitar a piora da fibrose, nome dado às lesões cicatrizantes no órgão. Os resultados foram consistentes:

  • 62% tratados com a dose de tirzepatida de 15 mg semanais atingiram essa meta;
  • 56% dos que utilizaram 10 mg chegaram lá;
  • 44% daqueles que tomaram 5 mg alcançaram o objetivo;
  • E apenas 10% do grupo do placebo conseguiu, lembrando que todo mundo recebia orientações de dieta e mudanças no estilo de vida durante o acompanhamento médico.

“Cerca de 30% dos pacientes do grupo placebo apresentaram regressão de pelo menos um estágio de fibrose, enquanto isso ocorreu em 55% dos pacientes tratados com 5 mg e em 51% daqueles que utilizaram 10 mg ou 15 mg”, destrincha os dados Couri. “Quanto mais avançado o grau de fibrose, maior o risco de cirrose, câncer de fígado e necessidade de transplante.”

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Na pesquisa, os participantes que tomaram Mounjaro perderam, em média, 10,7%, 13,3% e 15,6% do peso corporal nas doses de 5 mg, 10 mg e 15 mg, respectivamente. Quem ficou com o placebo praticamente não emagreceu.

Os autores notaram que a maior perda de peso esteve associada a maiores taxas de melhora e resolução do problema hepático. Mais uma evidência do elo entre a saúde do fígado e a obesidade. 

“Apesar do entusiasmo, é importante destacar que este foi um estudo de fase 2, com duração de apenas um ano. Ainda não sabemos se essas melhoras irão se traduzir em menos casos de cirrose, menos transplantes ou menor mortalidade ao longo dos anos”, pondera Couri. “Ainda assim, os achados representam um dos avanços mais importantes já observados no tratamento medicamentoso da MASH.”



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