
Acompanho o futebol italiano há tanto tempo que já perdi a conta de quantas vezes ouvi a mesma máxima ser repetida: la difesa vince i campionati – a defesa vence campeonatos. Como admirador do futebol produzido entre os Alpes e a Sicília, cresci fascinado por uma característica que os italianos transformaram em patrimônio nacional: a capacidade de não tomar gol.
A devoção italiana à arte de defender encontrou sua expressão máxima no catenaccio, palavra que remete à ideia de ferrolho, de porta trancada. Segundo essa premissa, antes de marcar gols é preciso impedir que o adversário faça o seu.
Se você enfrentava uma defesa italiana nos anos de ouro, tinha a impressão de que sempre havia um marcador extra em campo. Quando um zagueiro era vencido, surgia outro. Quando a jogada envolvia riscos, aparecia um líbero para fechar a porta aos adversários. Talvez não seja coincidência que, à medida que a Itália foi abandonando essa identidade, tenha perdido parte de sua força. A tetracampeã do mundo não conseguiu sequer se classificar para as últimas três Copas.
Aqui vale um registro histórico: a seleção italiana campeã do mundo em 2006 teve como símbolo máximo Fabio Cannavaro, um zagueiro baixinho e carrancudo que não deixava passar nada. Naquele ano, ressalve-se, o melhor jogador do planeta foi um sujeito cuja principal habilidade consistia em impedir que os outros brilhassem.
Pois bem: o país que elevou um defensor ao posto de maior jogador do mundo enviou ao Brasil um técnico que, em doze jogos no comando da seleção, já sofreu onze gols. Há algo de perturbador – e ligeiramente constrangedor – nisso. A seleção de Carlo Ancelloti tomou gol de nulidades como Bolívia, Tunísia, Panamá e Egito. E com um italiano no comando.
Ancelotti construiu uma carreira extraordinária dirigindo times repletos de talentos ofensivos. Foi assim no Milan e no Real Madrid. Seus elencos reuniam gênios como Kaká, Ronaldinho e Cristiano Ronaldo. Mas existe uma diferença entre o estrelado Real e a seleção brasileira de agora: não temos mais aquele craque fulgurante, e essa deficiência pode cobrar um preço alto em seleções com defesas expostas demais.
Como se não bastasse, a Copa do Mundo é um torneio de tiro curto, em que o campeão terá disputado apenas oito jogos. Nesse caso, qualquer descuido se transforma em tragédia, e não há tempo para recuperação. Um erro de posicionamento, uma bola parada mal defendida, um contra-ataque concedido podem fazer meses de preparação evaporar em poucos segundos (lembremos das eliminações para a Croácia em 2022 e para a Bélgica em 2018).
O Brasil de Ancelotti, por enquanto, parece confiar mais na abundância do ataque do que na segurança da defesa. O país nunca deixará de produzir atacantes talentosos. Mas, se quiser voltar a conquistar Copas, precisa aprender uma velha lição italiana: antes de encantar o mundo, é preciso trancar a porta de casa.