O mercado financeiro voltou a revisar para cima as projeções de inflação e juros no Brasil, segundo o Boletim Focus divulgado nesta segunda-feira, 08, reforçando a percepção de que o processo de convergência da inflação para a meta continua mais desafiador do que o esperado.

Para 2026, a estimativa para o IPCA subiu de 5,09% para 5,11%, enquanto para 2027 avançou de 4,02% para 4,03%. O movimento também foi acompanhado por uma revisão na expectativa para a taxa Selic, que passou de 13,25% para 13,50% em 2026 e de 11,25% para 11,50% em 2027.

Na avaliação de Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos, as mudanças reforçam uma tendência observada pelo mercado há meses. Segundo ela, a combinação entre inflação resistente e juros mais elevados indica que o Banco Central pode precisar manter uma postura mais restritiva por um período prolongado. “O relatório desta semana não trouxe uma crise nem uma surpresa dramática. Trouxe algo talvez mais relevante: a confirmação de uma tendência. Há sete dias, o mercado acreditava em menos inflação e menos juros. Hoje acredita em mais inflação e mais juros”, afirma.

Apesar da deterioração das expectativas para preços e política monetária, o crescimento econômico permaneceu praticamente inalterado. A projeção para o PIB de 2026 passou de 1,90% para 1,91%, enquanto as estimativas para 2027 e 2028 foram mantidas em 1,70% e 2%, respectivamente.

Para Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos, o dado reforça uma leitura desconfortável para os agentes financeiros. Segundo ele, uma atividade econômica resiliente não necessariamente representa um cenário mais saudável quando acompanhada por inflação persistente. “O PIB pode até mostrar melhora, mas isso não significa necessariamente uma economia mais saudável se a inflação continuar resistente e as expectativas seguirem distantes da meta. O crescimento, nesse caso, pode mascarar uma pressão inflacionária que obriga o Banco Central a manter uma postura conservadora por mais tempo”, avalia.

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Além do cenário doméstico, investidores também acompanham o aumento das tensões comerciais entre Brasil e Estados Unidos. A proposta de novas tarifas sobre produtos brasileiros adiciona um componente extra de incerteza ao ambiente econômico, com potencial impacto sobre câmbio, fluxo de capitais e custo de financiamento. Segundo Araújo, mesmo que os efeitos diretos dependam do alcance das medidas e das negociações entre os países, o mercado costuma antecipar riscos. A percepção é compartilhada por Valdir Piran Jr., CEO da Intra. Para ele, o cenário exige cautela por parte dos investidores e reforça a importância de ativos com maior previsibilidade. “A melhora das projeções de PIB mostra que a atividade continua resiliente, mas isso não elimina os desafios relacionados à inflação e às expectativas ainda acima da meta”, destaca.

No câmbio, as revisões foram mais positivas. A projeção para o dólar caiu de 5,16 reais para 5,15 reais em 2026 e de 5,25 reais para 5,20 reais em 2027. Ainda assim, a melhora foi insuficiente para compensar a piora das expectativas para inflação e juros.



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