A química entre Jennifer Lopez e Brett Goldstein no filme Paixão de Escritório é inegável. Ajuda um bocado o fato de o ator e roteirista inglês, conhecido pelo papel de Roy Kent na série Ted Lasso, ser um fã devoto da atriz – tanto que ele escreveu para ela a trama da comédia romântica da Netflix, sobre o relacionamento proibido de uma CEO com o advogado da empresa. “Você está no topo da lista – e é uma lista de uma pessoa”, disse ele ao apresentar o roteiro à colega. Durante a divulgação do longa nas últimas semanas, Goldstein foi só elogios para Jennifer, que ria ruborizada, mas feliz, pela admiração de seu par romântico na ficção. Logo, não demoraram a surgir rumores de que a relação tinha chegado à vida real. Questionada sobre isso algumas vezes, J.Lo desconversou até negar de vez, dizendo que ela está solteira e não tem saído com ninguém no momento. A reação constrangida de ambos e o climão que tomou a entrevista, porém, não conferiram muita credibilidade à afirmação. 

A veracidade sobre o suposto romance se tornou irrelevante: afinal, acreditar que o amor extrapolou a ficção deixa o filme muito mais saboroso – e um bom time de marketing sabe tirar proveito de tal suposição. Nos últimos anos, proliferou-se de forma exagerada uma antiga técnica publicitária, hoje batizada de PR relationship – relacionamento de relações públicas, em português –, ou fake dating, namoro falso, para ser mais coloquial. Assim, astros de séries e do cinema exageram na química em aparições públicas para criar rumores sobre um possível romance secreto. Os olhares são mais profundos e longos diante das câmeras dos fotógrafos. As mãos se tocam com mais frequência. O casal cochicha um com o outro, dando risinhos de cumplicidade em seguida. 

Foi assim com Lady Gaga e Bradley Cooper na divulgação de Nasce uma Estrela, em 2018 – que culminou na apresentação carinhosa dos dois no palco do Oscar, entoando a música Shallow. O mesmo ocorreu com Sydney Sweeney e Glen Powell, que em 2023 lançaram a comédia romântica bobinha Todos Menos Você. Ambos os “casais” afirmaram, mais tarde, que o flerte público era uma jogada de marketing. E deu certo. O musical de Gaga e Cooper fez 440 milhões de dólares em bilheteria, enquanto o filme modesto de Sydney e Powell chegou a estonteantes 220 milhões. 

Glen Powell e Sydney Sweeney na estreia de 'Todos Menos Você' em Nova York
Glen Powell e Sydney Sweeney na estreia de ‘Todos Menos Você’ em Nova York (John Lamparski/WireImage/Getty Images)
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A percepção de que um casal apaixonado pode se transformar em uma poderosa ferramenta publicitária não é nova. Seu exemplo mais emblemático surgiu em 1961, quando Elizabeth Taylor e Richard Burton se apaixonaram durante as filmagens de Cleópatra. Ambos eram casados com outras pessoas, e o relacionamento extraconjugal tornou-se um prato cheio para a imprensa mundial. Apelidados de Liz e Dick, os dois acabaram se transformando em uma espécie de instituição de Hollywood: fizeram onze filmes juntos, viveram uma relação marcada por idas e vindas e chegaram a se casar oficialmente duas vezes — divorciando-se em ambas.

Para além das questões éticas que cercam os limites da participação pública na vida amorosa alheia, o episódio ajuda a compreender o cenário atual de Hollywood. Se antes o romance real entre celebridades era explorado comercialmente, hoje a própria possibilidade de um relacionamento pode ser convertida em estratégia de marketing. Fingir uma relação em busca de lucro deveria soar vergonhoso. Mas, na era das aparências e da exposição permanente nas redes sociais, a verdade parece ter perdido parte de seu brilho.



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