Cobras, onças, tamanduás… Quem mora no Distrito Federal tem percebido que a presença de animais silvestres no meio urbano cresceu com o passar dos anos. E os números do Batalhão de Polícia Militar Ambiental (BPMA/PMDF) corroboram: de janeiro a maio deste ano, foram 1.334 resgates de fauna silvestre no DF — número que é 73,4% maior do que o registrado no mesmo período de 2025.
Confira os números:
Em todo o ano passado, foram 2.487 resgates feitos pelo BPMA, uma média diária de quase sete atuações do batalhão.
Na aparição mais recente, uma jiboia foi resgatada em uma área verde próxima a uma escola pública, na Candangolândia, na última terça-feira (2/6). O animal não apresentava ferimentos e, após a captura, foi colocado em um recipiente apropriado e, posteriormente, solto em uma área de mata.
No mês passado, um tucano foi resgatado em uma obra na área rural da DF-150, próximo à Sobradinho. A ave estava com uma das asas machucadas e não conseguia voar. Apesar do ferimento, o tucano aparentava estar saudável. A ave foi levada para o Hospital Universitário da Universidade de Brasília (HVet/UnB).
Em abril, um tamanduá-bandeira mobilizou equipes do BPMA, após cair na piscina de uma casa do Jardim Botânico. Após o salvamento, o tamanduá foi devidamente avaliado e devolvido ao seu habitat natural, em área adequada e segura, distante da zona urbana.
No mesmo mês, o caso mais relevante e trágico de 2026, até o momento. Uma onça-parda foi flagrada por um motorista de aplicativo, circulando pelas ruas do Lago Norte. O Batalhão Ambiental foi acionado para tentar resgatar o animal, que era uma jovem fêmea, porém, quando foi encontrado, estava morto, após ser atropelado.
Em março, outro tamanduá foi resgatado no meio urbano. O mamífero foi encontrado dentro de uma casa, em Sobradinho. Ele estava ferido e, após os primeiros socorros, o animal foi levado até o Hospital da Fauna Silvestre (HFAUS) e ficou sob a responsabilidade de veterinários habilitados.
Expansão urbana
Mas o que explica essa crescente? Especialistas ouvidos pelo Metrópoles apontam que a expansão urbana sobre áreas naturais, a arborização elevada do DF (principalmente da área central) e o desmatamento são fatores que contribuem para isso.
Bióloga pela Universidade de Brasília (UnB), Elis Teixeira é uma das que afirma isso. Segundo a especialista, a arborização, que é muito presente na cidade, principalmente no Plano Piloto, acaba atraindo esses bichos.
“De certa forma, fazendo com que alguns deles se adaptem. Além disso, a questão do desmatamento de áreas verdes, ao redor do DF, acaba obrigando os bichos a irem procurar comida e abrigo em lugares próximos à área urbana”, pontua.
A sargento Echamende, do Batalhão de Polícia Militar Ambiental, acrescenta que a expansão urbana sobre áreas naturais, a fragmentação dos habitats e a busca dos animais por alimento, água e abrigo, especialmente em períodos de estiagem, também colaboram para o aumento da presença de animais silvestres na cidade.
“Também é importante destacar que o aumento dos registros não significa necessariamente um aumento da população desses animais. Em muitos casos, o que cresce é a interação entre a fauna silvestre e os ambientes urbanos”, ressalta.
Animais em cativeiro
Além do resgate, outro tipo de ocorrência relacionada aos animais silvestres que chama a atenção quanto aos números é o crime contra a fauna — onde estão incluídos as apreensões de animais mantidos ilegalmente em cativeiro, em situação de maus-tratos, comercialização irregular ou transporte sem autorização dos órgãos competentes.
Os dados do BPMA mostram um salto na quantidade de registros, passando de 38 para 77, na comparação entre os primeiros cinco meses de 2025 e 2026 — um aumento de 102,6%.
“Nesses casos, além das medidas administrativas e criminais cabíveis, os animais são recolhidos e destinados conforme avaliação técnica, podendo ser encaminhados para centros de triagem, reabilitação ou, quando possível, reintegrados ao ambiente natural”, diz a sargento do BPMA.
Convivência tranquila
A bióloga Elis Teixeira comenta que a convivência tranquila entre fauna silvestre e seres humanos é extremamente necessária, em alguns casos. “O saruê, por exemplo, é um dos predadores naturais do escorpião amarelo. Durante o segundo semestre, que é onde aparece mais escorpião no DF, devido às altas temperaturas e aumento da umidade, ele ajuda bastante no controle de escorpiões nesse período”, alerta.
Para que essa convivência seja possível, a especialista afirma que é importante investir em educação ambiental. “Criar cartilhas e informativos sobre vida selvagem nos arredores do DF, para que a população conheça mais sobre a vida no Cerrado”, observa.
“Tudo isso é muito importante para conscientizar e fazer com que a população saiba tomar as medidas necessárias, para não acontecer nenhum acidente ou perda da biodiversidade local”, aponta.





