A economia dos Estados Unidos continuou crescendo nas últimas semanas, mas a inflação segue pressionando famílias e empresas, especialmente após a disparada dos preços da energia causada pelo conflito no Oriente Médio. O diagnóstico consta na nova edição do Livro Bege (Beige Book), divulgada nesta quarta-feira, 3, pelo Federal Reserve (Fed), o banco central americano.

O relatório, elaborado a partir de entrevistas com empresários, economistas, entidades e representantes do mercado em diferentes regiões do país, será uma das referências para a próxima reunião de política monetária do Fed, marcada para os dias 16 e 17 de junho.

Segundo o documento, a atividade econômica avançou em ritmo leve a moderado em dez dos doze distritos do banco central. Apenas um registrou leve retração e outro permaneceu estável. Apesar do crescimento, o relatório mostra que a inflação continua sendo um dos principais desafios da economia americana.

O Fed destacou que o aumento dos preços da energia está elevando custos em diversos setores. Empresas relataram alta nos gastos com combustíveis, transporte, passagens aéreas, fretes e produtos petroquímicos. Em algumas regiões, os contatos ouvidos pelo banco central também esperam novos reajustes nos próximos meses.

“O mercado de trabalho segue resiliente, mostrando criação de vagas, mas em um ambiente de baixas contratações e baixas demissões. Há muito mais reposição de postos do que uma expansão forte do emprego”, afirma Bruno Yamashita, coordenador de alocação e inteligência da Avenue.

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Segundo ele, embora o emprego continue relativamente forte, os salários já não acompanham o custo de vida da mesma forma que em anos anteriores.

Classe média sente mais os efeitos

Enquanto consumidores mais ricos continuam sustentando a demanda por produtos e serviços premium, famílias de renda média e baixa demonstram crescente sensibilidade aos preços. O Fed registrou relatos de menor movimento em restaurantes, aumento das promoções no varejo e redução da procura por serviços considerados não essenciais.

“A taxa de poupança das famílias vem caindo. Isso sugere que muitas pessoas estão consumindo mais das suas reservas para manter o mesmo nível de gastos”, afirma Yamashita.

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Na avaliação do especialista, o cenário revela uma economia cada vez mais dividida. O próprio relatório cita que consumidores de renda média estão “extraindo mais valor de cada dólar” antes de decidir gastar, enquanto entidades de assistência social relataram aumento da procura por ajuda financeira.

Energia preocupa Fed

Segundo o Livro Bege, o encarecimento do petróleo provocado pelas tensões geopolíticas no Oriente Médio já está afetando não apenas combustíveis, mas também setores ligados à produção de alimentos, fertilizantes, logística e transporte. “Isso acaba gerando uma pressão inflacionária maior sobre a economia”, afirma Yamashita.

O relatório também mostra que a atividade turística perdeu força em algumas regiões devido ao aumento dos custos de viagem, enquanto o mercado imobiliário residencial segue pressionado pelos juros elevados e pela incerteza econômica.

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Por que isso importa para o Brasil?

O diagnóstico do Fed é acompanhado de perto por governos, bancos centrais e investidores ao redor do mundo porque influencia diretamente as decisões sobre juros nos Estados Unidos.

Caso a inflação permaneça pressionada pelos preços da energia, o banco central americano pode encontrar menos espaço para reduzir os juros nos próximos meses. Juros elevados por mais tempo tendem a fortalecer o dólar e diminuir a atratividade de mercados emergentes, como o Brasil.

Além disso, a própria origem da pressão inflacionária identificada pelo Fed, a alta do petróleo e dos custos de energia, tem alcance global e afeta cadeias produtivas em diversos países.

“O Fed estará muito atento para entender até que ponto a alta recente dos preços da energia continuará pressionando a inflação. Esse será um dos fatores centrais para as próximas decisões de política monetária”, diz Yamashita.



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