O aumento da abstenção eleitoral e a dificuldade de renovação política no Brasil são sintomas de um sistema que, segundo o cientista político Cristiano Noronha, vice-presidente da Arko Advice, favorece a manutenção dos grupos já estabelecidos no poder.

Em participação no programa WW Especial, da CNN Brasil, Noronha afirmou que o eleitorado brasileiro tem demonstrado crescente desencanto com a política diante da percepção de que seus problemas não são efetivamente enfrentados.

“Quando a gente olha, ao longo do tempo, o nível de abstenção e de não comparecimento às urnas no Brasil, isso tem aumentado. Fica muito claro que as pessoas estão se desencantando”, afirmou.

Para ele, embora exista desejo por renovação, prevalece uma sensação de frustração entre os eleitores. “As pessoas querem renovação, mas se sentem frustradas. Sentem que o problema delas não é endereçado.”

Noronha também argumentou que as regras eleitorais brasileiras acabam favorecendo fortemente a reeleição, sobretudo no Executivo. Segundo ele, historicamente presidentes da República conseguem melhorar seus índices de popularidade em anos eleitorais por meio do aumento de gastos públicos e de medidas com impacto eleitoral.

“Se você olhar historicamente, o presidente da República melhorou consideravelmente seus índices de popularidade. Por quê? Porque gastou muito dinheiro”, disse.

Na avaliação de Cristiano Noronha, a lógica da reeleição elevada se repete em outros cargos. “No Brasil, você tem um índice de reeleição nos poderes Executivos estaduais e municipais elevadíssimo. Para deputado e senador, a mesma coisa”, destacou.

O cientista político também criticou o modelo de financiamento público de campanhas, adotado após as restrições ao financiamento empresarial. Para ele, a mudança ampliou as barreiras para o surgimento de novos partidos e candidaturas competitivas.

“Quando o financiamento privado de campanha foi proibido, disseram: ‘a solução é financiamento público’. Isso criou ainda mais dificuldade”, avaliou. Segundo Noronha, partidos recém-criados ficam sem acesso imediato aos recursos do fundo eleitoral, hoje no valor de R$ 4,9 bilhões.

“Você cria um partido e ele inicialmente não tem acesso a essa montanha de recursos para dividir entre os partidos e fazer campanha”, criticou.

De acordo com ele, a distribuição desses recursos também reforça o poder das cúpulas partidárias. “Esse dinheiro é compartilhado entre as candidaturas conforme decidem as lideranças partidárias”, explicou.

Para Noronha, o resultado é um sistema político que cria mecanismos de autopreservação e dificulta mudanças estruturais. “Não é um sistema que permite renovação, que abre possibilidade de oxigenar. É um sistema que vai criando mecanismos de defesa”, acrescentou.

“Quando se ataca de um lado, vem uma solução do outro para esse sistema ir se perpetuando. Então, é de fato uma armadilha em que a gente se encontra hoje”, concluiu. 

WW Especial

Apresentado por William Waack, o programa é exibido aos domingos, às 22h, em todas as plataformas da CNN Brasil.

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*Publicado por Jorge Fernando Rodrigues

 

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