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Um dos caciques petistas no Nordeste, o ex-ministro da Educação Camilo Santana tem dois papéis estratégicos na eleição. Um é manter a hegemonia de seu grupo no Ceará, onde o governador Elmano de Freitas enfrenta dificuldades na disputa com o ex-aliado Ciro Gomes (PSDB). Chefe do Executivo estadual por dois mandatos e senador eleito com 70% dos votos em 2022, Camilo critica a aliança de Ciro com o bolsonarismo, diz que a dificuldade nas pesquisas é momentânea e avalia que a campanha vai mostrar as diferenças entre as gestões petistas e as ideias do rival. A outra missão é ajudar a reeleição de Lula. Um dos ministros com passagem bem avaliada pela Esplanada, ele vê com cautela a crise da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) e defende que o governo tenha humildade para entender por que é reprovado por metade do eleitorado. Para ele, a população teve ganhos nos dois primeiros mandatos de Lula, mas agora tem outras demandas. “Hoje o brasileiro quer ter um bom celular, quer ter acesso a uma plataforma de streaming, quer usar o iFood. As necessidades são outras, a gente precisa entender isso”, diz.

As últimas pesquisas mostram que a desaprovação a Lula ainda é maior que a aprovação. Por que isso ocorre? Este mandato gerou uma expectativa muito grande na população por causa dos governos Lula 1 e 2, quando houve um crescimento importante no país, ganho salarial, aumento do poder de compra. Mas isso foi se achatando um pouco nos últimos anos. Talvez esse governo não tenha tido a velocidade e capacidade, diante dos cenários nacional e internacional, de voltar àquelas realidades. Tivemos que focar em tirar novamente o Brasil do Mapa da Fome, trazer de volta o Bolsa Família, o Luz para Todos, o ProUni, para retomar as condições de antes e aí poder avançar.

Alas do governo e do PT dizem que a gestão comete erros de comunicação. A crítica faz sentido? Não sei, é uma coisa para se avaliar. Mas também há um fenômeno que é essa polarização nas redes sociais, as fake news, as mentiras. É preciso conhecer um pouco o passado, saber que num tempo não tão distante só quem tinha direito a ir para universidade era filho de rico, inclusive nas instituições públicas. Temos que corrigir o que precisa ser corrigido, ampliar aquilo que precisa ser ampliado e avançar mais ainda. Precisamos estudar um pouco a dificuldade de fazer com que as informações positivas possam chegar mais claras à população, mas também ter a humildade de avaliar em que estamos errando.

“Os números mostram a quantidade de pessoas endividadas, então talvez estejam sonhando mais, querendo mais. As necessidades são outras, precisamos entender isso”

Que tipo de autocrítica deveria ser feita? É impossível resolver todos os problemas em quatro anos, muito menos quando se recebe um governo com um desmonte muito grande, como foi o de Jair Bolsonaro. Então, é preciso saber quais são as maiores prioridades do povo e estar sintonizado com elas. Hoje, qual é um dos grandes problemas que nós enxergamos? Apesar de a massa salarial ter aumentado, do reajuste real do salário mínimo, da taxa de desemprego tão baixa, as necessidades da população aumentaram. Hoje o brasileiro quer ter um bom celular, quer ter acesso a uma plataforma de streamings, quer usar o iFood. Isso vai começando a encarecer o custo de vida. Os números mostram a quantidade de pessoas endividadas, então talvez estejam sonhando mais, querendo mais. No passado, passavam fome, então se sentiam agraciadas quando o governo dava um auxílio. As necessidades agora são outras, a gente precisa entender isso.

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Lula tem concedido uma série de benefícios que vão impactar o Orçamento. A ex-ministra Simone Tebet disse que a água bateu no nariz, que estamos no limite e que é preciso um ajuste fiscal. Como fechar essa conta? Quando eu fui governador, também fiz ajuste fiscal. Porque, se não consegue fazer, você não consegue dar capacidade de investimento ao governo. Agora, a gente vive em um país muito desigual, um dos três mais desiguais do planeta. Então, o que precisa ser feito é justiça fiscal. Depois de quarenta anos, fizemos a reforma tributária, que vai desburocratizar, tirar as disputas regionais entre os estados. Quando o governo propôs isentar o pagamento de imposto de renda para quem ganha até 5 000 reais, foi para dizer que precisa aliviar a vida do pessoal do andar de baixo. E o andar de cima tem que pagar essa conta. O governo teve a coragem de enfrentar esse assunto, mas acho que precisamos avançar ainda na questão da tributação do patrimônio. Então, quando formos falar de ajuste fiscal, é preciso olhar para tudo isso. Quando lançamos o Pé-de-Meia, muita gente disse que iríamos gastar demais. O custo médio de um aluno é de 8 500 reais por ano. Já o gasto com um preso pode chegar a 10 000 reais só em um mês. Qual é a prioridade deste país?

O senhor é sempre cotado para substituir Lula caso ele desista de disputar a eleição. Isso já foi tratado nos bastidores? Nosso candidato chama-se Luiz Inácio Lula da Silva. Temos o melhor presidenciável, o mais experiente, o que tem mais energia. Meu objetivo é me dedicar à reeleição dele e do governador do meu estado, Elmano de Freitas (PT). A afinidade dos dois projetos tem tudo para seguir dando grandes resultados.

Nas pesquisas, o senhor está mais bem posicionado que Elmano na disputa contra Ciro Gomes. Pode substitui-lo? Não. Pesquisa é retrato do momento. Quando se olha a sondagem espontânea, apenas 10% da população diz em quem vai votar. Quando são apresentados os nomes, o adversário nosso tem um recall muito grande, é ex-governador, ex-ministro, ex-deputado, um nome conhecido. Nós enfrentamos muitas eleições assim, começando lá por baixo. Temos a única capital do Brasil em que o PT venceu. A campanha é um processo no qual você vai dialogar com a população, mostrar o que fez, e aí ela vai avaliar.

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O que acha de Ciro, que já foi um aliado, ter se juntado ao bolsonarismo? Para mim foi uma decepção. Ele dizia que eu era o melhor governador da história do Ceará. Aí, de uma hora para outra, são só ataques, baixarias, uma política rasteira de agredir as pessoas com ódio. Ele se juntou a tudo que era do bolsonarismo, a turma que negou a vacina, que era negacionista em relação à ciência. Vamos trabalhar para fazer um bom debate, respeitando as pessoas, sem baixar o nível, sem agredir ninguém, porque a política é feita de propostas. Temos o apoio de partidos importantes, como o PSB, do irmão dele, Cid Gomes, e de siglas de centro, como Republicanos e MDB.

As revelações sobre o envolvimento de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro jogaram o escândalo do Master para a direita? Vai ficando cada vez mais clara a diferença. A autorização para a criação do banco foi dada no governo Jair Bolsonaro. Antes de Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central naquela gestão, o pedido foi negado duas vezes. Mas o que choca mais a gente é que Flávio negava qualquer relação, qualquer contato, e os áudios mostram que existia uma relação muito íntima entre eles. A sociedade acompanha, a pesquisa mostra um pouco o efeito disso para a credibilidade da candidatura. Mas há um tempo ainda para a eleição, não sabemos qual vai ser o desdobramento, se vão ter novos fatos. Até lá, o eleitor pode perder um pouco dessa crítica que está tão latente agora. Mas, claro, nós vamos exigir esclarecimentos. Esse foi um dos grandes crimes financeiros da história, precisa ser apurado e aqueles que tiveram envolvimento, punidos.

Há também uma lista de políticos do PT com relações com o Banco Master sendo investigadas. A esquerda também não errou nesse episódio? O Brasil merece respostas. Eu confio na seriedade do trabalho da Polícia Federal, e espero que todos os desdobramentos da Operação Compliance Zero tragam à luz a verdade dos fatos. Apenas a verdade, para que todos os envolvidos sofram as sanções da lei.

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“Os áudios com Vorcaro chocam a campanha de Flávio. A sociedade acompanha, as pesquisas mostram o efeito disso para a credibilidade da candidatura. Mas há um tempo ainda até a eleição”

A PF trocou recentemente quem investigava as fraudes no INSS, nas quais há suspeita de participação do filho de Lula. Esse tipo de movimento não abala a credibilidade dos trabalhos? A PF é respeitada pelo trabalho que apresentou ao longo da história no enfrentamento ao crime. O presidente tem dito que qualquer desvio de conduta, qualquer indício de irregularidade precisa ser investigado e os responsáveis, punidos, doa a quem doer.

A violência é um problema que atinge fortemente o Ceará, o Brasil, e é uma das principais preocupações dos eleitores. Quais são as dificuldades para os governos nessa questão? Lula fez uma reunião com todos os governadores do Brasil para tratar do tema. Nenhum estado vai resolver esse problema sozinho, porque o crime ultrapassou fronteiras, se internacionalizou. Nós criamos leis mais duras, o projeto de lei antifacção foi um passo importante. O presidente lançou um pacote contra o crime organizado e disse que vai criar um ministério específico para a área quando a PEC da Segurança for aprovada, porque ela é que vai dar as condições legais para que haja uma atuação mais forte dos órgãos federais e uma maior integração dos estados, com uma coordenação nacional. O Brasil precisa fazer um pacto contra o crime entre todos os Poderes para endurecer as leis e fazer as coisas andarem mais rápido, porque há uma sensação de impunidade. É preciso também asfixiar o financiamento dessas organizações criminosas e chegar ao andar de cima, como foi feito na Operação Carbono Oculto, além de enfrentar o tráfico de armas, os homicídios e os presídios, que viraram escritórios do crime. A questão da segurança não será resolvida com bravatas, falando alto, querendo ser o xerife de tudo. É preciso trabalhar com inteligência, estratégia e cooperação.

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O governo pensa em reapresentar o nome de Jorge Messias para ministro no STF. Acha que o presidente deveria comprar de novo essa briga? Fiquei muito sentido com o que houve, acho o Jorge Messias muito preparado. Mas a prerrogativa constitucional para indicar nomes é do presidente, e a gente tem um papel que precisamos cumprir no Senado. Eu tenho procurado dialogar com o Davi Alcolumbre, presidente da Casa, tenho boa relação com ele, para distensionar o ambiente. Mas eu deixaria esse debate sobre a vaga no Supremo para depois das eleições. Nós temos matérias importantes para serem votadas, como o projeto dos minerais críticos das terras-raras e a PEC da Segurança. Para isso, a relação institucional precisa ser restaurada.

Publicado em VEJA de 22 de maio de 2026, edição nº 2996



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