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Durante anos, os fones de ouvido com fio foram tratados como um problema. Enroscavam na bolsa, embolavam no bolso da calça, quebravam fácil. Resultado: desapareceram do mercado na mesma velocidade com que os smartphones passaram a abolir entradas para esses aparelhos. Mas, contra toda a lógica da evolução tecnológica, eles voltaram. E não apenas como alternativa barata: viraram objeto de desejo. Em pleno 2026, enquanto gigantes da tecnologia apostam em dispositivos cada vez mais invisíveis, inteligentes e automatizados, uma geração inteira resolveu recuperar o oposto. Os fios brancos e pretos pendurados para fora do casaco ou conectados ao celular passaram a ocupar o mesmo lugar de outros ícones vintage que retornaram com força — das câmeras digitais compactas aos flip phones e iPods antigos.

O fenômeno já aparece nos números. Após dez anos de queda, o mercado de fones cabeados registrou crescimento de 20% desde o segundo semestre de 2025 nos Estados Unidos, revertendo uma sequência de perdas que parecia irreversível. Nas redes sociais, a tendência também explodiu: vídeos ligados à estética dos wired headphones acumulam milhões de visualizações no TikTok, enquanto perfis dedicados ao tema transformaram os fios aparentes em referência fashion.

A explicação vai muito além da nostalgia. Existe uma fadiga coletiva em torno da hiperconectividade. Carregar bateria para tudo, falhas de conexão, sincronizações intermináveis e aparelhos sem fio que parecem envelhecer em poucos meses transformaram o simples ato de ouvir música numa experiência excessivamente tecnológica. Os fones com fio oferecem o contrário: praticidade direta, sem atualizações, sem bateria e sem depender de Bluetooth. Conectou, funciona. Simples assim.

Na moda, o acessório virou item cool há algum tempo. No fim de 2019, Bella Hadid começou a aparecer em aeroportos usando os tradicionais earbuds brancos combinados a looks minimalistas. A imagem virou referência estética. Agora, nomes como Lily-Rose Depp, Zoë Kravitz, Zendaya, Paul Mescal, Emily Ratajkowski e Kaia Gerber passaram a reforçar o visual aparentemente despretensioso que fez do acessório banal uma assinatura de estilo. Marcas de luxo, como a Balenciaga, surfaram na onda e passaram a incorporar earbuds com fio em campanhas e editoriais, e a Chanel lançou sua própria versão de headphones cabeados, em uma leitura ultraluxuosa do acessório.

Nas redes sociais, os fios ganharam aura de autenticidade. Passaram a representar um certo desleixo cool. Um visual menos corporativo, menos tecnológico e mais espontâneo. Posts e vídeos viralizaram associando os fones antigos a um lifestyle descolado, intelectual e anti-status quo — ironicamente, transformando-os em novo símbolo de status. Existe ainda um fator técnico nessa volta. Especialistas em áudio apontam que os fones com fio entregam qualidade sonora superior em muitas situações, especialmente considerando o custo-benefício. Sem compressão de áudio, atrasos ou quedas de sinal, eles oferecem uma experiência mais estável — algo que consumidores cansados voltaram a valorizar. A tecnologia retrô virou música para os ouvidos da nova geração.

Publicado em VEJA de 15 de maio de 2026, edição nº 2995



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