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Um casarão imponente em Higienópolis, bairro nobre de São Paulo, guarda um tesouro inédito no país: datada do início do século XX, a casa, com 180 metros quadrados de área expositiva, reúne pelos próximos três meses 100 obras de sessenta artistas na mostra Surrealismos: Arte para Além da Razão. Exposição inaugural da nova sede da Pinakotheke na capital paulista, a coleção abre as portas na segunda-feira 18, apresentando uma visão abrangente do movimento reconhecido nas artes plásticas por figuras como o espanhol Salvador Dalí e o belga René Magritte, que remodelaram a pintura ao abraçar, nas telas, a expressão do subconsciente. “É uma seleção de obras nunca vista no Brasil. Elas já estavam no país, mas em coleções particulares”, explica o galerista Max Perlingeiro, fundador da Pinakotheke.

Os criadores europeus estão presentes, inclusive com peças raras, como um dos cartões aquarelados comemorativos feitos por Dalí em 1968. Mas eles não são os únicos a ganhar destaque: com um olhar global, a exposição se divide em seções continentais, iluminando não apenas a já conhecida cena da Europa, mas também a rica produção que floresceu nas Américas e no Caribe.

Nascido no início do século XX como um movimento literário e filosófico, o surrealismo focou inicialmente nas letras, usando a escrita automática e os relatos de sonhos para explorar expressões desconhecidas do inconsciente. No manifesto inaugural, publicado pelo francês André Breton em 1924, a pintura é mencionada em uma nota de rodapé. Não demorou, no entanto, para que pintores, escultores e até cineastas embarcassem nessa onda, traduzindo em traços e formas as ideias etéreas do movimento. Do berço europeu, o surrealismo se espalhou pelo mundo a partir da Segunda Guerra Mundial, em 1939, quando diversos artistas se exilaram no continente americano, levando suas produções para lugares como os Estados Unidos, o México e também o Brasil.

PLURAL - Em sentido horário, escultura de Maria Martins; tela de Leonora Carrington; colagem de Guignard; e pintura de Ismael Nery: mostra recorre às várias facetas do movimento que marcou época
PLURAL - Em sentido horário, escultura de Maria Martins; tela de Leonora Carrington; colagem de Guignard; e pintura de Ismael Nery: mostra recorre às várias facetas do movimento que marcou época (Jaime Acioli; Jaime Acioli; Jaime Acioli; DING MUSA/.)

A escultora mineira Maria Martins, por exemplo, conviveu de perto com Breton e com o francês Marcel Duchamp, aplicando inspirações advindas do movimento em esculturas que causaram estranhamento inicialmente. “Ela foi a única artista brasileira a integrar o surrealismo ‘histórico’”, atesta o curador Tadeu Chiarelli. De forma a fazer justiça à importância da criadora, há uma sala inteiramente dedicada a sua obra na mostra. O caminho para o reconhecimento não foi fácil. Demorou para que latinos conquistassem o apreço da classe artística tradicional.

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Por outro lado, ganhou força um estilo que mesclava o surrealismo com outras correntes. O paraense Ismael Nery e o fluminense Alberto da Veiga Guignard, por exemplo, uniram a vanguarda artística ao simbolismo, em pinturas e colagens oníricas. No México, Frida Kahlo, Diego Rivera e artistas europeus que migraram para lá, caso da inglesa Leonora Carrington e da espanhola Remedios Varo, também beberam do convívio com os fundadores do movimento. “Partimos do pressuposto de que não existe um único surrealismo, mas uma sensibilidade surrealista que dura até hoje”, afirma Chiarelli. O conjunto de peças mostra que vale embarcar nessa grande viagem artística.

Publicado em VEJA de 15 de maio de 2026, edição nº 2995



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