*O artigo foi escrito pela professora titular da UFAC, Sonaira Souza da Silva; pela doutora em Biologia de Água Doce, Susana Braz-Mota e pelo doutor em Comunicação e Semiótica, Tiago da Mota e Silva, ambos do INPA, e publicado na plataforma The Conversation Brasil.
Um alerta está posto: segundo o mais recente boletim do Centro de Previsão Climática (CPC), há 80% de probabilidade de formação de um evento de El Niño até o final de 2026. Ainda não se sabe sua intensidade, mas existe, sim, um risco climático em desenvolvimento.
A preocupação com um novo evento nasce de uma experiência muito recente: entre 2023–2024, a combinação de seca extrema e ondas de calor, associados ao El Niño, levou a Amazônia a uma crise humanitária e a uma emergência ambiental. A possibilidade de repetição em 2026, ainda que incerta, antecipa um cenário conhecido e coloca na agenda a necessidade de políticas voltadas à adaptação e mitigação.
O El Niño é um fenômeno climático marcado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico, na região da linha do Equador. Ele faz parte de um ciclo natural que afeta o clima em várias partes do mundo. No Brasil, quando ocorre, costuma trazer mais chuva para o Sul, menos chuvas para o Norte e o Nordeste e dias mais quentes globalmente.
Na Amazônia, grandes secas já foram registradas em anos de El Niño, como as de 1998-1999, 2010, 2015–2016 e 2023–2024. O episódio mais recente, no entanto, mostrou algo além da falta de chuva. O calor extremo atuou junto com a seca, intensificando a perda de água do solo, dos rios e da vegetação para a atmosfera.
O resultado são impactos mais intensos e mais difíceis de enfrentar, como os vistos na Amazônia: rios com níveis críticos, grandes incêndios, morte massiva de animais e populações humanas com acesso comprometido a água, alimento e transporte.
Secas mais intensas aceleram a degradação da floresta
Secas intensas são um dos fatores que empurram as florestas amazônicas para um maior grau de degradação. Enquanto o desmatamento é a remoção da cobertura florestal, por degradação entende-se a toda forma de deterioração do ambiente, que pode ser por incêndios florestais, extração ilegal de madeira, fragmentação da floresta, entre outros.
Entre 2001 e 2018, cerca de 5,5% das florestas amazônicas estavam sob algum tipo de degradação, um número que corresponde a 112% de toda a área desmatada no período. Se a esse número se adicionam os efeitos do aumento de eventos de secas extremas, a extensão pode chegar a 38% das florestas.
Com essa dimensão, a proporção do impacto de secas severas na perda da biodiversidade e até mesmo no carbono, que deixa de ser absorvido pelas árvores e viram fonte de emissão, pelo aumento da mortalidade, torna-se semelhante ao do desmatamento.
Entre 2023 e 2024, os impactos sobre a fauna foram severos, embora ainda pouco documentados. Em um fragmento de floresta na cidade de Manaus, pesquisadores registraram mortalidade incomum de preguiças, aves, serpentes e roedores. Segundo eles, é provável que as altas temperaturas tenham aumentado o estresse fisiológico dos animais, enquanto a seca reduziu o seu acesso à água.
No interior do Amazonas, a região de Tefé se tornou emblemática: cinco de dez lagos monitorados registraram temperaturas nas águas excepcionalmente altas durante o dia, acima de 37 ºC, com um dos lagos alcançando 41 ºC a uma profundidade de 2 metros. A temperatura também está associada à alta mortalidade de peixes, botos e tucuxis.
Tempo seco e quente também aumenta a probabilidade de incêndios. Em 2024, a Amazônia passou pela pior temporada de fogo de sua história, com 6,64 milhões de hectares queimados no Brasil e nos demais países amazônicos. Para 2026, a plataforma Alertas estima que amplas porções dos estados do Amazonas e do Pará estão sob perigo extremo de fogo na próxima temporada seca. O fogo é mais um fator que aprofunda a degradação da floresta, em um processo cumulativo de impactos negativos.
Eventos extremos que se reforçam um ao outro
Climatologistas usam a expressão “evento composto” quando dois ou mais extremos, como seca, calor intenso ou incêndios, ocorrem ao mesmo tempo ou em sequência. Nesses casos, os impactos não se somam apenas: eles se reforçam, tornando os efeitos mais intensos e mais difíceis de enfrentar.
No Brasil, 2024 foi marcado por situações desse tipo. No Pantanal, a combinação de seca e calor antecipou a temporada de incêndios, resultando em cerca de 2,5 milhões de hectares queimados.
Em outra escala, o calor no Norte, Centro e Sudeste aumentou a evaporação e a quantidade de vapor d’água no ar. Parte dessa umidade foi transportada por corredores de vento até o Sul do país, onde alimentou chuvas persistentes e intensas que levaram ao desastre climático no Rio Grande do Sul, entre abril e maio daquele ano.
Mais um agravante desses eventos compostos é a degradação ou poluição do ar devido a fumaça das queimadas e incêndios, que afeta não somente as grandes cidades, mas a toda população urbana e rural. Em 2024 foram registrados picos de poluição do ar na Amazônia de 151 µg/m³ de material particulado fino (PM2,5), valor 906% superior ao limite considerado seguro pela OMS.
Na Amazônia, a seca de 2023–2024 foi um evento mais intenso e mais abrangente do que os anteriores, atingindo cerca de 88% da bacia amazônica. Entre pesquisadores, cresce a discussão sobre uma possível mudança de padrão: o calor pode estar deixando de ser um fator secundário para se tornar central na intensificação das secas.
Em outras palavras, a região pode estar entrando em uma nova fase em seu clima, em que menos chuva e temperaturas mais altas passam a atuar de forma combinada e recorrente. Esse padrão evidencia um processo no qual o aumento das ondas de calor intensifica as secas, enquanto as secas, por sua vez, favorecem condições ainda mais quentes e extremas.
Esse tipo de evento não é exclusivo do Brasil. Secas combinadas com calor extremo foram registradas, por exemplo, nos Estados Unidos, em 2012 e 2020, na Europa, em 2018, e na China, em 2013 e 2014. A intensificação desses episódios está associada ao aumento das temperaturas globais provocado pelas emissões de gases de efeito estufa.
Um estudo de 2022, publicado na revista Nature, simulou a ocorrência de eventos compostos em diferentes cenários de emissões de poluentes na atmosfera. Em todos os três cenários, seja de baixa, moderada ou alta emissão, eventos assim ocorreriam mais frequentemente. No pior cenário, em que há uso contínuo de queima de combustíveis fósseis por décadas, secas combinadas à ondas de calor ocorreriam no mundo num intervalo entre um ano e um ano e meio.
Medidas de adaptação climática são urgentes
Por milhões de anos, a Amazônia foi resiliente e demonstrou capacidade de se recuperar após choques de seca, calor e fogo. Todavia, a maior parte da floresta já dá sinais de perda dessa capacidade desde os anos 2000. Em cenários de eventos compostos ocorrendo em intervalos mais curtos, de um a dois anos, uma nova e urgente agenda política e científica precisa ser colocada em prática para evitar a perda de grandes porções do bioma.
Alguns aprendizados da seca de 2023–2024 ainda precisam se materializar nas agendas políticas locais e globais, mas também na própria agenda científica, indicando quais pesquisas precisam ser incentivadas e receber investimentos diante dessa nova realidade.
No nível local, especialmente nos estados amazônicos, algumas medidas foram adotadas após a crise recente. Sistemas de monitoramento ambiental e hidrológico foram ampliados nos estados do Amazonas e do Pará, por exemplo; operações de combate ao fogo ganharam escala; e ações emergenciais passaram a ser mobilizadas com maior rapidez.
Um exemplo local, de mobilização coletiva é a Iniciativa MAP (Madre de Dios-Peru, Acre-Brasil e Pando-Bolívia) que se reúne para compartilhar prognósticos, acompanhamento e mobilização para enfrentar eventos extremos, e que recentemente publicou Alerta com recomendação de estratégias para enfrentar 2026-2027.
Esses avanços, no entanto, ainda se concentram na resposta imediata aos eventos extremos. Persistem lacunas importantes na construção de uma agenda de adaptação de longo prazo, que inclua planejamento territorial, ampliação do acesso à água potável, infraestrutura resiliente e políticas diferenciadas para populações mais vulneráveis.
Do ponto de vista científico, a seca também evidenciou limites no conhecimento disponível. Embora os efeitos da falta de chuva sobre a floresta sejam relativamente bem documentados, os impactos combinados de calor extremo e seca ainda são pouco compreendidos. Há lacunas relevantes no monitoramento integrado do clima, dos rios e da biodiversidade. Nesse contexto, cresce a necessidade de pesquisas que integrem diferentes dimensões do sistema amazônico, incluindo a articulação entre conhecimento científico e comunidades locais.
Mas, ainda que os esforços locais se multipliquem, os riscos permanecem altos sem um avanço global na redução das emissões de gases de efeito estufa para conter as mudanças climáticas. Após a COP 30, ocorrida em Belém no ano passado, subsídios a combustíveis fósseis continuam elevados e o financiamento para alternativas energéticas ou para fundos voltados às florestas ainda está abaixo da escala necessária.![]()