Um ataque de drones ucranianos matou quatro pessoas, incluindo uma criança, na cidade de Ryazan, no centro da Rússia, danificando prédios residenciais e atingindo uma empresa industrial não identificada, segundo o governador regional.
Na mesma semana, a Rússia lançou o maior ataque aéreo contra a Ucrânia desde o início do conflito, intensificando a escalada da guerra.
Diante desse cenário, analistas internacionais se debruçaram sobre a questão central: a Ucrânia ainda tem chances de vencer a guerra? A análise partiu dos objetivos originais declarados pela Rússia ao iniciar o conflito e do quanto eles foram — ou não — alcançados.
Os objetivos russos e os resultados até agora
Segundo o professor de Relações Internacionais da UFF (Universidade Federal Fluminense) e pesquisador de Harvard, Vitelio Brustolin, a Rússia estabeleceu quatro objetivos principais para a guerra. O primeiro era a desmilitarização da Ucrânia, com a redução do exército ucraniano para menos de 50 mil soldados.
“Hoje a Ucrânia tem 850 mil”, destacou Brustolin.
O segundo objetivo era afastar a Ucrânia da Otan e da União Europeia. No entanto, o país está cada vez mais integrado à aliança e passou a produzir conjuntamente com a Alemanha mísseis Taurus, com alcance de 500 quilômetros, em substituição aos mísseis Storm Shadow e Scalp, que alcançam 300 quilômetros.
O terceiro objetivo russo era a chamada “desnazificação” da Ucrânia, expressão utilizada para indicar a retirada do governo de Zelensky do poder. Ironicamente, o próprio Putin passou a se referir a Zelensky como “senhor Zelensky” e sinalizou disposição para negociações.
O quarto ponto envolvia conter a expansão da Otan. O resultado foi o oposto: após a guerra, Suécia e Finlândia ingressaram na aliança, ampliando em 1.340 quilômetros a fronteira da Otan com a Rússia e garantindo o controle de 92% do Mar Báltico.
“A Suécia era neutra desde 1814 e a Finlândia desde 1945”, ressaltou o analista, questionando o que exatamente a Rússia estaria ganhando com o conflito.
Custos humanos e econômicos para a Rússia
Brustolin também citou os elevados custos da guerra para a Rússia.
Segundo dados do serviço russo Mediazona, 352 mil mortes de soldados russos foram confirmadas por meio de obituários.
Considerando os feridos, o número total de baixas ultrapassaria 1,4 milhão. Além disso, os ataques ucranianos às refinarias e à infraestrutura energética russa reduziram drasticamente a capacidade de exportação de petróleo do país.
“Antes da guerra, a Rússia exportava 5 milhões de barris por dia. Hoje consegue exportar menos de 2 milhões”, afirmou, classificando o impacto como “um prejuízo grande para os cofres” russos.
Sentimento de frustração domina os ucranianos
O analista de internacional sênior da CNN Brasil, Américo Martins, que se encontrava em viagem pela Ucrânia — partindo de Lviv, no oeste, com destino a Kiev e posteriormente a Kharkiv, próxima à fronteira com a Rússia —, relatou uma mudança significativa no humor da população.
“Na primeira vez que vim, em 2023, vi um povo com muito otimismo”, disse, lembrando que a Ucrânia havia repelido os russos de Kiev e estava prestes a iniciar uma contraofensiva.
Contudo, aquela contraofensiva “simplesmente não funcionou”. Em 2024, os russos avançaram em proporção maior do que no ano anterior, gerando uma “sensação de cansaço, quase de um pavor da derrota”.
Agora, o sentimento predominante é de frustração. Os ucranianos esperavam que a guerra pudesse ter sido resolvida e percebem que parte do apoio internacional, em especial do governo dos Estados Unidos, começa a se dissipar.
“Eles estão determinados a continuar lutando, mesmo que sejam abandonados, e sabem que isso vai ser muito mais difícil”, relatou Américo.
Um militar ucraniano ouvido em Lviv, que preferiu não se identificar, levantou a possibilidade de a linha de frente se estabilizar em uma espécie de “terra de ninguém” de 40 a 50 quilômetros de extensão, onde o uso massivo de drones — hoje operados com fibra ótica para evitar interferências — tornaria qualquer movimentação inviável, resultando em algum tipo de acordo diplomático.
“Só que isso não é o que o governo da Ucrânia quer”, pontuou o analista.
“O governo gostaria de liberar todos os seus territórios, o que é muito difícil de se conseguir”, concluiu Américo.