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Após o ataque aos prédios do Palácio do Planalto, do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal, no dia 8 de janeiro de 2023, 1 400 manifestantes foram presos e 850, condenados por tentativa de golpe de Estado ou associação criminosa. O rigor de algumas penas, que ultrapassam 27 anos de prisão, sempre foi motivo de uma interminável controvérsia — política e jurídica. Em dezembro de 2025, o Congresso aprovou uma lei que reduzia as sentenças dos envolvidos. O presidente Lula, no entanto, vetou o projeto. Na semana passada, os parlamentares de oposição derrubaram o veto e promulgaram a lei que beneficiaria desde o ex-presidente Jair Bolsonaro à cabeleireira Débora Rodrigues, conhecida como “Débora do Batom”, sentenciada a catorze anos de cadeia por tentativa de abolição violenta do estado democrático de direito, golpe de Estado, dano ao patrimônio, dano qualificado e associação criminosa ao pichar uma estátua com a frase “perdeu Mané!”. Vinte e quatro horas depois, em outra reviravolta, o ministro Alexandre de Moraes, atendendo a um pedido de partidos governistas, suspendeu os efeitos das novas regras até que a Corte analise sua constitucionalidade.

PROPOSTA - Jeffrey Chiquini e o senador Flávio: anistia irrestrita
PROPOSTA - Jeffrey Chiquini e o senador Flávio: anistia irrestrita (./Reprodução)

A decisão do ministro impulsionou protestos de parlamentares que acusam o tribunal de interferir em assuntos legislativos e foi tema de pronunciamentos de três pré-candidatos à Presidência da República. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) disse que o Congresso foi desrespeitado. “Não pode um único juiz derrubar a decisão do Parlamento, isso é invasão de competência, é invasão de poderes e uma afronta à democracia!”, protestou. O ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), acusou o ministro de ultrapassar os “limites da relação institucional” e classificou a suspensão como “um ataque à democracia e à separação dos poderes”. O ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), cobrou uma reação imediata do Legislativo. “Um juiz, que se considera intocável, atropela o Congresso e fere mais uma vez a democracia brasileira. O Senado precisa reagir”, escreveu.

MESMO BARCO - Mariana e Michelle: maridos condenados à prisão
MESMO BARCO – Mariana e Michelle: maridos condenados à prisão (./Reprodução)

Independentemente do que o Supremo vier a decidir sobre a chamada Lei da Dosimetria, é certo que o 8 de Janeiro, seus capítulos subsequentes e os embates que ele ainda alimenta estarão presentes nas campanhas eleitorais de outubro — e não apenas na pauta dos presidenciáveis. A eleição deste ano terá dezenas de candidatos envolvidos direta e indiretamente nos episódios de 2023. São parentes de condenados, manifestantes que foram presos e advogados que atuaram no processo que agora querem um lugar no Congresso Nacional. Alguns já estão em plena campanha. A técnica em enfermagem Cláudia Rodrigues, por exemplo, filiou-se ao Novo, pretende disputar uma cadeira na Câmara dos Deputados por São Paulo e tem como principal plataforma a anistia. Seu maior ativo eleitoral é ser irmã da “Débora do Batom”. “Preciso mostrar ao Brasil que a Débora não é uma terrorista nem uma golpista. Preciso mostrar que é uma mulher honesta, de família, que tem dois filhos e foi vítima de uma injustiça que precisa ser corrigida”, ressalta.

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TRAGÉDIA - Luíza e Bolsonaro: o pai morreu aguardando julgamento
TRAGÉDIA - Luíza e Bolsonaro: o pai morreu aguardando julgamento (./Reprodução)

O empresário Cleriston Pereira da Cunha foi preso logo depois dos ataques. Segundo a Polícia Federal, ele estava entre os manifestantes que invadiram e depredaram o Congresso. “Clezão”, como era conhecido, morreu vítima de um infarto enquanto aguardava julgamento na penitenciária da Papuda. Com o apoio da família Bolsonaro, a estudante Luíza Cunha, filha do empresário, ingressou no PL e ambiciona uma vaga pelo Distrito Federal para, segundo ela, reparar um dos maiores absurdos da história recente do país. “Foi desumano o que fizeram com o meu pai. Quero representar famílias que se sentiram injustiçadas, esquecidas e sem voz”, ressalta a estudante, que também promete voltar suas baterias contra o STF e o governo Lula.

IMPEACHMENT - Coelho: protesto contra o ministro Alexandre de Moraes
IMPEACHMENT - Coelho: protesto contra o ministro Alexandre de Moraes (./Reprodução)
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Três advogados que atuaram no julgamento no STF também se preparam para o teste das urnas. Sebastião Coelho e Jeffrey Chiquini defenderam Filipe Martins, ex-assessor de Jair Bolsonaro e condenado a 21 anos de prisão. Filiado ao Novo, o primeiro vai concorrer a uma cadeira no Senado por Brasília, escolheu o STF como mote de campanha e tem postado vídeos em que aparece vestindo uma camisa com os dizeres “Fora Moraes”. Já o segundo, também filiado ao Novo, mira uma vaga de deputado federal pelo Paraná — mesmo caminho trilhado pelo criminalista Matheus Milanez, advogado do general Augusto Heleno, ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional no governo passado. Milanez, que disputa a vaga pelo Republicanos no Distrito Federal, ganhou notoriedade por protagonizar um momento de descontração que, por alguns instantes, quebrou o protocolo do julgamento. A certa altura, ele pediu a Alexandre de Moraes que atrasasse o início da sessão, justificando que “só havia tomado café”, estava com fome e “gostaria de jantar”. O general foi condenado a 21 anos de prisão, mas a cena engraçada viralizou nas redes sociais.

FAMÍLIA - Cláudia (a terceira da esq. para a dir.): irmã da “Débora do Batom”
FAMÍLIA - Cláudia (a terceira da esq. para a dir.): irmã da “Débora do Batom” (./Reprodução)

Entre os candidatos do 8 de Janeiro, ao menos um já conta com um apoio de peso. Mariana Naime, esposa do coronel da PM Jorge Naime, condenado a dezesseis anos por omissão, recebeu o aval da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, candidata ao Senado e presidente do PL Mulher, para disputar uma vaga de deputada pelo partido no DF. “Tiraram a liberdade, o salário e a aposentadoria do meu marido, que nada teve a ver com aquilo. Essa injustiça precisa ser reparada”, diz ela. Segundo a Associação de Familiares e Vítimas do 8 de Janeiro (Asfav), mais de cinquenta pessoas com alguma ligação com o processo da trama golpista deverão concorrer a cargos legislativos em todo o país. Aliás, a própria advogada da entidade se inclui nesse rol. Carolina Siebra, que defendeu mais de 600 acusados, vai disputar uma vaga na Câmara dos Deputados no Ceará. Sua plataforma, para não fugir à regra, se concentra em críticas ao STF e às sentenças aplicadas aos manifestantes. “Hoje as pessoas entendem que as penas foram injustas. Existe um sentimento de que os acusados deveriam ser punidos pela quebradeira, mas jamais por golpe de Estado”, diz. Na lista de aspirantes a político, há alguns que participaram diretamente dos atos. O jornalista Marcos Vanucci e o cientista político Gennaro Vela ficaram presos por setenta dias, foram acusados de incitação ao crime, fizeram acordo de não persecução com a Justiça e também tentarão um lugar no Parlamento.

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NOTORIEDADE - Milanez: o advogado que pediu para jantar durante julgamento
NOTORIEDADE - Milanez: o advogado que pediu para jantar durante julgamento (./Reprodução)

Apesar da profusão de candidaturas, é pequena a probabilidade de o Congresso ter na próxima legislatura uma bancada formada exclusivamente por personagens ligados ao 8 de Janeiro. “Eles vão disputar um nicho de eleitores ocupado por políticos de direita já estabelecidos”, entende Christian Lynch, doutor em ciência política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro. De fato. Depois que Alexandre de Moraes decidiu suspender os efeitos da Lei da Dosimetria, o deputado Sóstenes Cavalcante, líder do PL na Câmara, anunciou que reapresentará o projeto prevendo anistia ampla, geral e irrestrita para os envolvidos na tentativa de golpe. A chance de a proposta avançar é praticamente nula, mas dá aos políticos em geral, e ao parlamentar fluminense em particular, um discurso de campanha.

Publicado em VEJA de 15 de maio de 2026, edição nº 2995



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