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Quando o rei francês Luís XV elegeu a cortesã Jeanne-Antoinette Poisson (1721-1764) como sua amante predileta, mal sabia que a escolha teria um efeito duradouro: a consagração do rosa como cor essencial da moda. Madame de Pompadour, como ela ficou conhecida, popularizou a tonalidade singular em vestidos imortalizados nas pinturas de François Boucher. Desde então, o matiz sempre instigou a fantasia. Em 2023, na esteira do sucesso de Margot Robbie na pele da boneca Barbie no cinema, o rosa explodiu de forma maximalista com a chamada Barbiecore, tendência fluorescente, divertida e barulhenta. Menos de três anos depois daquela onda, o tom está de volta numa paleta mais delicada e refinada. Os novos modelitos que atravessam passarelas e invadem o guarda-roupa das celebridades vêm em nuances etéreas. Engana-se, porém, quem pensa num rosa ingênuo. Sai o fúcsia vibrante, entram derivados como blush pink, ballet pink e rosa-chá: tons claros e acetinados que flutuam entre o clássico e o contemporâneo.
Os sinais dessa virada já apareciam há algum tempo. O retorno do bloco rosa da Victoria’s Secret, em 2024, com Gigi Hadid abrindo a apresentação em pink, ajudou a recolocar a cor no centro do desejo pop. Agora, Madonna também reaparece envolta em rosa na estética de seu novo álbum, Confessions II. E no recente Met Gala isso ficou ainda mais evidente. Dois dos looks mais comentados tinham o rosa como protagonista. Em sua estreia no baile, Sunday Rose, filha de Nicole Kidman, surgiu de Dior em tons de blush e lavanda, com flores tridimensionais e saia fluida, como se tivesse saído de uma pintura impressionista. Já Amanda Seyfried apostou em um Prada rosa-chá clássico, atualizando as referências de noivas contemporâneas. Falando em princesa, Kate Middleton foi outra que se rendeu a um delicado visual rosado, reafirmando-o como símbolo de elegância. “Cada cor imprime uma personalidade própria, e o rosa carrega suavidade e leveza”, diz a stylist Manu Carvalho.

O rosa invadiu também as passarelas de 2026. Na Chanel, os tons blush apareceram em vestidos de musseline quase diáfanos. Na Dior, o matiz airoso ganhou estrutura, e na Chloé veio inspirado na poesia hippie dos anos 1960 e 1970, entre transparências e laços sutis. A grife Sandy Liang apostou no tom em referências esportivas, provando que o rosa pode ser cool e urbano. Até a beleza entrou na onda. O chamado ballet blush — tendência da maquiagem inspirada no universo das bailarinas — virou febre nos nécessaires com acabamentos acetinados e visual saudável. “O rosa-claro sempre foi uma cor acessada para transmitir delicadeza e feminilidade”, opina Manu.
Mas o fascínio pelo rosa vai além da estética. Poucas cores carregam tantas contradições históricas. Hoje associado ao feminino, já foi considerado masculino, por ser visto como uma versão suave do vermelho — cor por muito tempo ligada à guerra e ao poder. Curiosamente, a delicadeza das mulheres era ligada ao azul, que remetia à pureza da Virgem Maria. O rosa moderno nasceu, reafirme-se, na corte francesa do século XVIII, mas ganhou impulso no século XX, por meio das estrelas de Hollywood. Do vestido de Marilyn Monroe em Os Homens Preferem as Loiras (1953) aos looks da ex-primeira-dama americana Mamie Eisenhower, se tornou símbolo da feminilidade dos anos 1950.

Como a moda adora uma reviravolta, esse vaivém é que a torna fundamental para a civilização. Nos anos 1970 e 1980, a cor foi sequestrada pela contracultura: virou protesto punk, ironia pop e símbolo político. Madonna reinterpretou Marilyn em Material Girl como caricatura da mulher hipersexualizada. Nos anos 1990, Courtney Love subiu ao palco como bailarina cor-de-rosa destruída pelo grunge. O triângulo rosa foi ressignificado pela comunidade LGBTQIA+ como símbolo de resistência. Talvez isso torne a cor tão fascinante: sua eterna capacidade de transformação. Já foi aristocrática, infantil, erótica, feminista, pop e kitsch. Como dizia Elsa Schiaparelli, criadora do shocking pink nos anos 1930, ela é “a cor da vida”. Sua encarnação atual comprova que há mais tons de rosa do que sonha a imaginação.
Publicado em VEJA de 15 de maio de 2026, edição nº 2995