
A vereadora paulistana Renata Falzoni defende que transformar São Paulo em uma cidade mais amigável para ciclistas e pedestres passa por uma mudança profunda de mentalidade sobre o uso do espaço público. Em entrevista ao programa VEJA+Verde, ela afirma que a capital ainda é desenhada prioritariamente para os automóveis, apesar dos avanços recentes em mobilidade ativa.
Falzoni critica a lógica que privilegia carros e motos em detrimento de pedestres, ciclistas e usuários do transporte público. Para ela, o automóvel ocupa o espaço público de maneira naturalizada pela sociedade, enquanto outras formas de ocupação enfrentam resistência. “Nenhuma constituição do mundo garante a vaga de automóvel como um direito constitucional, mas a indústria automobilística se apropriou da nossa cultura e do espaço público das cidades”, reforça. O exemplo citado são os parklets, originalmente concebidos como áreas públicas de convivência, mas que foram incorporados por estabelecimentos comerciais e perderam parte da função coletiva.
O uso da bicicleta está diretamente relacionado ao combate às mudanças climáticas e à melhoria da qualidade de vida urbana, segundo a vereadora. Quem pedala passa a perceber de forma concreta os impactos ambientais da cidade, especialmente a poluição, o calor excessivo e a falta de arborização. “O pedalar na cidade desperta uma consciência ambiental pela vivência”. Falzoni destacou que ciclistas sentem imediatamente os efeitos da sombra, da temperatura e da emissão de gases dos veículos, criando uma relação mais direta com o debate climático e energético.
Entre as propostas defendidas pela vereadora está o projeto Vaga Verde, inspirado em iniciativas implementadas em Paris. A ideia prevê transformar vagas de estacionamento em pequenos jardins permeáveis, com árvores e sistemas de drenagem urbana. O argumento é que São Paulo possui hoje um déficit de cerca de 450 mil árvores previstas em compensações ambientais que ainda não foram plantadas. Ela aponta que a recuperação desses espaços ajudaria tanto na adaptação climática quanto na humanização das ruas.
Dados citados na entrevista mostram que a participação das viagens feitas de bicicleta passou de 0,8% para 1,2% do total de deslocamentos urbanos entre 2017 e os anos recentes, um aumento de 50%. Apesar disso, argumenta que o modal ainda recebe investimentos insuficientes. Ela critica ainda a destinação de recursos do Fundurb — originalmente voltados à mobilidade ativa e ao transporte coletivo — para obras de asfaltamento. Segundo ela, a priorização do automóvel compromete a qualidade do transporte público e aprofunda desigualdades urbanas.
Sobre a infraestrutura cicloviária, a vereadora reconhece avanços, mas afirma que o principal problema continua sendo a falta de conexão entre ciclovias e ciclofaixas. Ela cita uma auditoria cidadã realizada com voluntários que percorreram os cerca de 740 quilômetros de estruturas cicloviárias existentes na cidade para mapear falhas e problemas de manutenção. O desafio mais complexo está em conectar trechos interrompidos, o que exige reduzir espaço viário destinado aos carros.
Outro ponto destacado é o aumento da insegurança no trânsito paulistano, especialmente pela invasão de ciclovias por motociclistas e ciclomotores. Falzoni atribui o problema à falta de fiscalização e à sensação de impunidade. “Você não vai conseguir mudar o comportamento do ser humano se não tiver uma dorzinha no bolso”, diz, defendendo maior rigor na aplicação das regras de trânsito. A ausência de fiscalização afeta não apenas as ciclovias, mas também questões como estacionamento irregular, obras e respeito à travessia de pedestres, defende.
A vereadora também apresentou a trilha Interparks como um dos projetos mais ambiciosos de seu mandato. A iniciativa conecta dez unidades de conservação na zona sul da capital por meio de um trajeto de aproximadamente 180 quilômetros voltado a ciclistas e caminhantes. Integrada à Rede Brasileira de Trilhas, a proposta busca estimular o ecoturismo, gerar renda para moradores da região e ampliar a conexão dos paulistanos com áreas de Mata Atlântica dentro da própria cidade. Ao comentar a concessão de parques públicos, como o Ibirapuera, reforçou não ser contrária ao modelo, mas criticou o excesso de exploração comercial: “Parque não é shopping.”
O VEJA+Verde, conduzido pelo editor Diogo Schelp, traz empresários, personalidades, gestores públicos e especialistas para apresentar suas visões e soluções sobre um dos maiores desafios para a sobrevivência da humanidade: conciliar desenvolvimento econômico e social com preservação do meio ambiente. O programa pode ser assistido toda quinta-feira, às 17h, nos canais Samsung TV Plus canal 2059, LG Channels canal 126, TCL Channel 10031 e Roku 221, além de estar disponível no YouTube de VEJA.