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Se atuar estrategicamente, o Brasil assegurará um papel relevante no cenário global nos próximos anos. Com uma oferta abundante de energia limpa, a segunda maior reserva de terras-raras do planeta e uma liderança indiscutível no setor agrícola, o país conta também com a simpatia de um poderoso aliado — os Estados Unidos — para avançar. Após décadas relegada ao segundo plano pela Casa Branca, a América Latina voltou aos holofotes no governo Trump. “Sabemos da importância da região e, em particular, do Brasil”, afirmou Felix Lasarte, conselheiro do presidente americano, durante o Fórum VEJA Brazil Insights, realizado na terça-feira 12 e que reuniu em Nova York algumas das mais importantes lideranças políticas e empresariais do país. Na visão de Lasarte, americanos e brasileiros precisam consolidar os vínculos institucionais para que a parceria seja benéfica a todos. “As relações não podem depender das trocas de governo.”


Para aproveitar tais oportunidades, porém, o Brasil ainda precisa eliminar entraves que há muito emperram a economia. O mais lembrado em Nova York foram as altas taxas de juro, que encarecem o crédito, inibem o investimento produtivo e elevam a inadimplência das empresas e das famílias — uma situação que preocupa o próprio setor financeiro. “Banco de verdade não gosta de juros altos”, disse Fernando Honorato, economista-chefe do Bradesco. Para que haja uma queda expressiva dos juros, no entanto, é necessário que o governo e o Congresso promovam o tão aguardado ajuste fiscal que estabilizará e, depois, reduzirá a dívida pública. A medida criaria condições consistentes para uma taxa Selic abaixo dos 10%. A tarefa pode ser até mais fácil do que se supõe. Segundo Honorato, o acerto “não precisa ser radical” — bastaria que as regras de aumento de despesas previstas no arcabouço fiscal fossem cumpridas por “muitos anos”.

Criado no terceiro mandato do presidente Lula para substituir o teto de gastos implantado pelo governo Temer, o arcabouço tem cumprido seu papel, na avaliação de Débora Freire, secretária de Política Econômica do Ministério da Fazenda. “O déficit médio destes quatro anos será menor que o dos últimos dois governos”, disse. Para Freire, a atual gestão optou conscientemente por equilibrar a responsabilidade fiscal e as políticas sociais, o que levou a um ajuste gradual das contas. “No fim de 2026, estaremos com a casa muito mais arrumada do que quando entramos.” O esforço para conter gastos não se restringe à União. Governos estaduais também passaram um pente-fino nas contas. “Economizamos bilhões de reais ao abrir mão de privilégios”, disse Romeu Zema, ex-governador de Minas Gerais e pré-candidato ao Palácio do Planalto.

Às vésperas da eleição presidencial mais polarizada desde a redemocratização, os participantes do evento ressaltaram a importância de as instituições nacionais não transformarem divergências naturais em confrontos que terminam nos tribunais. “Não devemos fazer muito barulho, porque cria-se mais divisão”, aconselhou o ex-presidente Michel Temer. O fortalecimento do Congresso Nacional e a maior participação do Supremo Tribunal Federal no debate de temas sensíveis não devem ser vistos como sinais de uma crise institucional, segundo Temer, e sim como prova do amadurecimento democrático. Tal independência entre os poderes da República também foi saudada pelos representantes da iniciativa privada. “Prefiro um Congresso independente e um Judiciário altivo a um cenário em que eles são submissos”, disse André Esteves, principal sócio do banco BTG Pactual. “O Brasil não virou uma Venezuela graças à capacidade das instituições de se defender.” Não basta, porém, evitar que o país caia no mesmo atoleiro da república bolivariana. As instituições devem somar forças com o empresariado e a sociedade para assegurar um lugar de destaque para o Brasil no tabuleiro global. O Fórum VEJA Brazil Insights comprovou que todos já conhecem o caminho.
Publicado em VEJA de 15 de maio de 2026, edição nº 2995