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Em plena empolgação do show da cantora colombiana Shakira na Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, espetáculo gratuito que botou 2 milhões de pessoas para requebrar, cantar e gritar em frenesi no início do mês, um homem aguardava a vez na fila dos banheiros, sem despertar maior atenção, quando foi cercado pela polícia. Era Glaucio Felipe Diniz, procurado pelo crime de lesão corporal desde março, e sua identificação no meio da multidão foi obra das câmeras de reconhecimento facial presentes no robusto aparato de segurança mobilizado para o espetáculo. “Por pouco ele não escapou”, diz o major Agdan Fernandes, diretor de infraestruturas e tecnologias da PM fluminense, que saiu às pressas para realizar a detenção.
A captura de Diniz engrossa a lista de êxitos decorrentes da difusão da tecnologia de forma mais ampla no reforço da segurança pública, que se alastrou por múltiplas frentes, incluindo a instalação de câmeras corporais na farda dos policiais e até drones para vigiar a bandidagem. Todos os 26 estados brasileiros e o Distrito Federal já utilizam ou estão implementando programas com lentes equipadas com inteligência artificial (IA), capazes de fazer leitura de rostos. Em paralelo com os projetos estaduais, as prefeituras de 508 municípios também estão afixando a ferramenta digital em pontos críticos, com bons resultados. A pressa é movida pela altíssima sensação de insegurança expressa pela população. Pesquisa Genial/Quaest coloca a questão no topo das preocupações de um terço dos eleitores, e não é para menos: seis em cada dez pessoas no país alteraram recentemente a rotina por medo da violência, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Mudar este cenário exige ações coordenadas de diferentes esferas, todas iniciativas de elevada complexidade, que vêm ganhando impulso agora à base de soluções inovadoras. No caso do reconhecimento facial, levantamento inédito feito por VEJA compilou dados das vinte secretarias estaduais de Segurança e das prefeituras das cidades mais populosas com programas já instalados. Daí emerge a abrangência e a efetividade do sistema: 116 450 câmeras foram responsáveis pela captura de 11 037 foragidos da Justiça nos últimos dois anos, período de expansão mais acelerada do serviços (veja o quadro) — um avanço e tanto se considerarmos que, antes, as apreensões dependiam da chance de os procurados passarem por blitze ou serem presos ao cometer novos delitos. “A ferramenta abre uma enorme possibilidade de encontrar essa turma. A polícia não tem nem instrumentos, nem fôlego para ir atrás dela”, diz Alcides Peron, da Faculdade de Ciências Aplicadas da Unicamp e um dos maiores especialistas no assunto.

A alta tecnologia aplicada à segurança é uma obra em andamento que já oferece, além da capacidade de reconhecer rostos, outros instrumentos excepcionais. Os estados de Goiás e Espírito Santo têm recorrido à “análise preditiva”, que propicia às polícias uma visão estratégica dos locais com maior incidência de delitos para tentar se adiantar à ação dos delinquentes. No Rio Grande do Sul, o combate ao feminicídio, crime responsável pela morte de quatro mulheres por dia no país, passa pelo monitoramento em tempo real de agressores e vítimas — eles com tornozeleira eletrônica, elas com a geolocalização em um celular cedido pelo governo. Uma das cidades mais avançadas neste departamento, Balneário Camboriú, em Santa Catarina, está usando drones equipados com IA para ganhar agilidade nas patrulhas, e os guardas municipais testam óculos inteligentes feitos para capturar fotos e vídeos por comando de voz, consultar informações de segurança e realizar videochamadas. Novos e mais eficazes sistemas de análise de DNA estão sendo utilizados no Paraná para resolver antigos casos de violência sexual, cujos autores seguiam impunes. Até um aparelho de raio X, capaz de enxergar através das paredes e detectar movimentações de seres humanos, tem auxiliado a Polícia Militar de São Paulo em ações táticas de investigação de sequestros e resgate de vítimas.
Das novas ferramentas, porém, a mais disseminada no Brasil é mesmo a câmera de reconhecimento facial. Utilizando vetores matemáticos, a IA projeta pontos nos rostos captados por câmeras para identificar traços únicos de cada cidadão, como distância entre olhos, boca e nariz. A leitura, feita em fração de segundo, só identifica as pessoas catalogadas no Banco Nacional de Medidas Penais e Prisões. Começa então uma corrida contra o tempo. O match com o cadastro, mantido pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), alerta as centrais de monitoramento, que enviam viaturas para capturar o suspeito e, enfim, cumprir um dos quase 280 000 mandados em aberto no CNJ.

Pioneira na implantação do olho eletrônico, a Bahia viu a quantidade de prisões triplicar nos últimos quatro anos. Em janeiro, em um caso de grande repercussão, uma das 5 000 câmeras instaladas no estado identificou o empresário Sérgio Nahas, condenado pelo assassinato da esposa, cometido em 2002, quando ele passeava tranquilamente, de bermuda e camiseta, pela Praia do Forte, na turística Costa dos Coqueiros. Preso, Nahas começou a cumprir a pena de oito anos em regime fechado. “A análise não faz distinções e garante similaridade acima de 90%”, explica André Borges, coronel da PM e superintendente de telecomunicações da Secretaria de Segurança baiana. No Carnaval de Salvador, quase setenta fugitivos foram pegos pelas câmeras, entre eles foliões condenados que estavam infiltrados no bloco Muquiranas, onde homens se fantasiam de mulher.
O projeto de maior alcance da América Latina é o Smart Sampa, da prefeitura de São Paulo, que reúne cerca de 50 000 câmeras cuja instalação e manutenção fica a cargo de empresas privadas, via concessões, e custa 10 milhões de reais por mês aos cofres públicos. Até o momento, o Smart Sampa resultou na prisão de 3 113 foragidos e na detenção de outras 5 120 pessoas em flagrante. Júlio Sérgio Augusto entrou para as estatísticas ao comparecer a um balcão da própria prefeitura para resolver pendências tributárias e lá ser identificado: era procurado por tráfico de drogas em Sergipe. Outro caso de repercussão internacional foi a detenção de um integrante da Bitong, quadrilha ligada à máfia chinesa Tríade, no burburinho da 25 de Março, rua de comércio popular em São Paulo, dois anos depois de ele ter se beneficiado de uma “saidinha” do presídio onde cumpria pena por sequestro e nunca mais ter voltado. “Hoje em dia, em vez de a população pedir um policial, ela pede uma câmera. Isso é prova de confiança”, afirma Orlando Morando, ex-secretário municipal de Segurança Urbana de São Paulo, que implementou o programa.

Um dos desafios do uso dessa tecnologia é reduzir a quantidade de falhas, algo que ainda ocorre. Apesar do percentual ínfimo de equívocos, um falso-positivo é o suficiente para tumultuar a vida de inocentes. Estudos internacionais indicam que a maior margem de erro está na identificação de negros e mulheres, porque a pele escura exige mais iluminação para ser processada e os algoritmos foram treinados principalmente com bases de imagens de homens brancos. “Há uma crença de que a tecnologia produz resultados sempre certos, mas é preciso elementos mínimos de controle e de governança”, diz Pablo Nunes, pesquisador do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania.
Outro ponto a ser melhorado é a notória precariedade dos bancos de dados usados para alimentar os sistemas — parte dos registros do catálogo de mandados em aberto do CNJ não tem foto do criminoso, obrigando ao cruzamento de dados com outros órgãos oficiais, como Detrans e Institutos de Identificação. Um erro nessa comunicação alterou para pior a vida do gestor de RH Ailton Alves de Sousa, 41 anos — os dados dele foram enviados para identificar um homônimo com mandados expedidos no Mato Grosso. Em sete meses, Sousa foi levado quatro vezes à delegacia, após ser identificado pela prefeitura paulistana. “Os policiais chegavam em casa alterados, com arma na mão. Eu tentava explicar o equívoco mas não dá para ficar discutindo nessa situação”, diz ele, que precisou contratar um advogado para retirá-lo do cadastro.

O reconhecimento facial é também amplamente utilizado no exterior. Na China, que implementa programas de vigilância coletiva há uma década, o olhar onipresente do Estado monitora cada passo da população, culpada ou inocente, em metrópoles como Xangai, com seus 3 milhões de câmeras. O resultado em prol da segurança vem sendo extraordinário — a queda nos índices de roubos e furtos chegou à casa de 97% em uma década, ainda que inadmissíveis excessos sejam cometidos, como o uso das poderosas lentes para antecipar protestos e perseguir opositores. Esse tipo de extrapolação preocupa, com razão, a sociedade, mas é cada vez mais comum que ela se renda às promessas embutidas na tecnologia. A ultraprogressista San Francisco, na Califórnia, rejeitou a instalação das câmeras em 2019, mas, quando o crime disparou, junto de uma epidemia de uso de opioides, a prefeitura democrata reverteu a medida e hoje abraça todo tipo de inovação na segurança.
No Brasil, o debate para estabelecer um meio-termo entre a patrulha sem filtros e a ausência de controle se dá no contexto do marco legal da inteligência artificial, em discussão no Congresso. “A regulação vai tentar pôr limites para o uso impróprio e indiscriminado da IA”, afirma Fabro Steibel, diretor-executivo do Instituto de Tecnologia e Sociedade. Cercando as iniciativas dos cuidados cabíveis, equipar as polícias com ferramentas tecnológicas se faz vital no combate à violência que grassa país afora — segundo o Datafolha, 41% dos brasileiros, o equivalente a quase 70 milhões de pessoas, dizem perceber a presença do crime organizado no bairro onde vivem. Violência e combate à criminalidade, como era de esperar, estão no centro das propostas dos candidatos nas eleições de outubro. “O uso de dispositivos eletrônicos em segurança sempre traz bons resultados eleitorais, porque a população está desesperada e acredita nas soluções associadas à modernidade para ajudar a enfrentar o problema”, resume o cientista político Antonio Lavareda.

pena em regime aberto em Sergipe. Depois de viajar sem autorização para São Paulo, foi capturado em uma repartição da prefeitura, resolvendo um problema. Voltou às ruas por determinação judicial. (./Reprodução)
Sabendo ser necessário ganhar terreno em área tão nevrálgica para o êxito na urnas, o presidente Lula, alvo de críticas pelo que uma parcela da população vê como leniência petista frente à criminalidade, acaba de lançar, no apagar das luzes de sua atual gestão, o Programa Brasil Contra o Crime Organizado, que reembala projetos do Ministério da Justiça, incluindo iniciativas que não haviam saído da gaveta. Um vultoso orçamento de 11 bilhões de reais será destinado, segundo o plano, a um maior combate ao tráfico de armas, ao endurecimento do sistema penitenciário e à asfixia financeira das quadrilhas. No campo da tecnologia, prevê-se a oferta de softwares para rastrear fluxos financeiros ilícitos e a distribuição de kits com drones, bloqueadores de celular e scanners corporais.
Em um país como o Brasil, no qual há infindáveis discussões sobre as melhores estratégias contra a criminalidade, está se formando um consenso de que o uso intensivo da tecnologia é uma das armas mais poderosas para combater o problema. Evidentemente, os equipamentos high-tech não representam uma bala de prata: sozinhos, não resolvem o problema. O reconhecimento facial é parte de um ecossistema mais vasto de coleta, cruzamento e interpretação de dados que precisa funcionar em sincronia e com consistência, algo ainda raro no Brasil. “A câmera só vai dissuadir os criminosos se estiver conectada com uma polícia que capture e puna”, diz Joana Monteiro, professora de políticas públicas da FGV-RJ. “Isso requer uma mudança na forma como a polícia investigativa opera.”

Um passo nesse sentido é a Civitas, central de inteligência criada pela prefeitura do Rio em 2024, na qual engenheiros de dados, matemáticos e físicos usam seu conhecimento para agilizar inquéritos e assessorar a Polícia Civil. O método ajudou na investigação de quase 5 000 casos em menos de dois anos. “A polícia prendeu pessoas que nem eram suspeitas e mudaram de status durante a apuração, com base nas novas informações”, diz o prefeito Eduardo Cavaliere. Indo além das promessas eleitorais, que nem sempre são cumpridas, e dos projetos que não resistem ao tempo, resta torcer para que o ascendente uso da inovação consiga sacudir décadas de inércia, negligência e picuinhas de natureza política e instalar, antes tarde do que nunca, a maltratada segurança pública no rol das virtudes das cidades brasileiras. Não dá mais para esperar.
Publicado em VEJA de 15 de maio de 2026, edição nº 2995
