O LRCAP (Leilão de Reserva de Capacidade) de 2026 representou uma medida estruturante e indispensável para a preservação da segurança energética e da confiabilidade operativa do SIN (Sistema Interligado Nacional), diante do crescimento da demanda e das projeções de atendimento de potência para os próximos anos.
Desde 2022, o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) vem solicitando a realização de um leilão dessa natureza para atender às demandas por energia, principalmente nos horários de pico ou de maior consumo de energia elétrica.
Estudos realizados pelo ONS indicam que, sem a contratação, haveria significativa violação dos critérios de garantia de suprimento no horizonte entre 2026 e 2030. Ou seja, era constatada uma probabilidade elevada de que o sistema elétrico (geração e transmissão) não seria capaz de entregar a energia necessária para atender à demanda dos consumidores, ultrapassando os limites de segurança estabelecidos pelo governo federal e órgãos reguladores.
O certame, que aconteceu no dia 18 de março de 2026, viabilizou a contratação de aproximadamente 19 GW de potência, ampliando a capacidade do sistema de atender a períodos de maior consumo de energia elétrica no país com previsibilidade e segurança, especialmente em cenários de elevada carga e condições hidrológicas adversas.
Sem essa contratação, a operação do sistema elétrico ficaria significativamente mais exposta a incertezas, com maior risco ao atendimento seguro da demanda. Mecanismos como despacho térmico adicional a GNL (gás natural liquefeito), utilização de usinas “merchant”, importação de energia de países vizinhos, programas de resposta da demanda e eventual adoção de horário de verão poderiam contribuir apenas de forma complementar para o equilíbrio conjuntural da operação.
Contudo, tais alternativas não ofereceriam o mesmo grau de previsibilidade, disponibilidade assegurada e compromisso contratual de entrega proporcionados pelos empreendimentos contratados no âmbito do LRCAP 2026.
Essas medidas adicionais estariam sujeitas a incertezas comerciais, regulatórias e operacionais, incluindo limitações de infraestrutura, disponibilidade de combustível, restrições de intercâmbio internacional, adesão voluntária de consumidores e ausência de obrigação firme de fornecimento nos momentos de maior criticidade do sistema elétrico, bem como a imprevisibilidade de preços, conforme mercado futuro.
Dessa forma, o LRCAP constitui instrumento essencial para garantir potência firme e confiabilidade estrutural ao SIN, reduzindo riscos de déficit de capacidade e assegurando condições adequadas de suprimento ao mercado brasileiro, com maior previsibilidade para os avanços dos projetos e estimativa mais adequada para a formação do preço dessa energia.
Marcio Rea é diretor-geral do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico)
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