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Inflação significa ser pobre com muito dinheiro no bolso, definiu Ugo Tognazzi (1922-1990). Ator de A Gaiola das Loucas e Meus Caros Amigos, entre outras pérolas da comédia italiana, ele sobreviveu à miséria da Itália fascista e assistiu à restauração da opulência europeia no século passado.

Enquanto isso, a pobreza se tornava mercadoria política na América do Sul. No Brasil e na Argentina, por exemplo, observou-se durante quatro décadas uma disputa pelo monopólio da defesa dos pobres, com líderes trabalhistas demonizando o voto em candidatos “ricos”, “neoliberais”, “dos patrões”.

É do jogo. Esse tipo de discurso fez Lula amanhecer como favorito a cada pesquisa sobre a disputa presidencial de 1994, com média de 30 pontos à frente do então ex-ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso. Quando surgiu o Plano Real, em julho, a eleição mudou de rumo. Os eleitores entenderam o significado da estabilidade no poder de compra.

Naquela época de inflação obscena, beirando 240% ao ano, a moeda estável permitiu à maioria pobre do eleitorado um vislumbre do fim da servidão à “lei natural” da inflação. Lula, porém, resolveu apostar no fracasso do Plano Real. Quando entrou em queda livre nas pesquisas, apelou: “Se Jesus fosse candidato, geraria as mesmas expectativas que eu”. Temia perder o monopólio da defesa dos pobres. Perdeu a eleição no curto espaço de dezesseis semanas (derrotado no primeiro turno e por quase 30 pontos de diferença, situação repetida na disputa de 1998).

A novidade, agora, são indícios de mudança no método de luta política. Diminuiu a estridência na ênfase da hegemonia partidária em defesa dos pobres. Está acontecendo, e não é por virtude de políticos eleitos com promessas de resgatar os “mais humildes” e os “descamisados”. Ocorre porque, depois de quatro décadas de acenos barulhentos sobre redistribuição da renda, houve aumento significativo da população pobre, obrigando à multiplicação da assistência social do Estado.

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No mês passado chegou-se a 95 milhões de pessoas inscritas no Cadastro Único da clientela do governo. Significa que, hoje, 45% dos brasileiros precisam do auxílio estatal para sobreviver.

“O drama de Lula: eleitores acham que estão mais pobres e preços seguem em alta”

Seis em cada dez pessoas desse contingente podem votar em outubro. Não é pouco. São 63 milhões de eleitores — donos de quatro em cada dez votos disponíveis no eleitorado nacional.

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Lula resolveu apostar o quarto mandato nessa massa, repetindo a fórmula usada na reeleição em 2006. Ampliou a oferta e o acesso a programas sociais a custo recorde, estimado em quase 200 bilhões de reais.

Foi surpreendido pela indiferença, registrada em diversas pesquisas. A reação apática, aparentemente, deriva do entendimento de que a ajuda e os serviços do Estado são obrigatórios, não importa quem governe.

O exemplo de Jair Bolsonaro foi eloquente. Elevou a nível recorde o valor do pagamento dos auxílios financeiros estatais, como o Bolsa Família (600 reais por mês). Ainda assim, perdeu a eleição para Lula.

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Hoje, como em 2022, o projeto de reeleição presidencial está em risco, principalmente, porque a inflação em alta, visível nos preços dos alimentos, remete à percepção automática de perda do poder de compra.

Todo mês, pesquisadores da Quaest saem às ruas de centena e meia de cidades, em todas as regiões, e perguntam: “Comparado a um ano atrás, o poder de compra dos brasileiros hoje é…”. Desde dezembro, sete em cada dez brasileiros de todas as faixas de renda afirmam: “É menor”. Ou seja, os eleitores acham que empobreceram.

Dizem sentir no bolso o peso da alta nos preços dos alimentos. É reflexo da instabilidade provocada pelas guerras na Ucrânia e no Irã somada aos desequilíbrios nas contas públicas domésticas. Resultado: o custo da cesta básica tem subido continuamente nas 27 capitais no termômetro dos sindicatos (Dieese). Pelos dados oficiais, a renda média até aumentou no ano passado. Na vida real, porém, a sensação é de pobreza.

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O drama eleitoral de Lula está na travessia das próximas vinte semanas num cenário de preços em alta constante, consequência das dificuldades crescentes na oferta de energia (petróleo e gás); de fertilizantes para plantio da próxima safra; de chips para telefones e computadores; de plásticos e uma miríade de insumos essenciais à indústria.

Ao eleitor resta o exercício do otimismo. Como dizia Ugo Tognazzi, otimista é o sujeito que, sem 1 real no bolso, vai ao restaurante e pede ostras com a esperança de encontrar uma pérola para pagar a conta.

Os textos dos colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de VEJA

Publicado em VEJA de 15 de maio de 2026, edição nº 2995



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