Para o ex-governador de Goiás e pré-candidato à Presidência pelo PSD, Ronaldo Caiado, a responsabilidade pela volta do PT ao governo é do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que não soube governar durante os quatro anos em que esteve à frente do Executivo Federal, entre 2019 e 2022.

“O PT ganhou quatro eleições. Depois nós (direita) ganhamos uma eleição, que foi em 2018. Depois o PT ganhou de novo, a quinta eleição. Ora, se ele (Bolsonaro) tivesse sabido governar, o  Lula não teria voltado nunca”, disse Caiado em entrevista ao Metrópoles nesta quarta-feira (14).

Na conversa, o pré-candidato não poupou críticas ao presidente Lula (PT), pré-candidato do partido à reeleição. Para Caiado, Lula é conivente com o crime organizado.

“O PT governou cinco mandatos e o que cresceu nesse período? O crime organizado, a corrupção, o PCC, o Comando Vermelho. O jovem perdeu a perspectiva de futuro”, diz ele.

Na entrevista, Caiado também criticou o pacote de enfrentamento ao crime organizado anunciado pelo governo federal no começo desta semana. A iniciativa inclui investimentos de R$ 11 bilhões em segurança.

“Um bilhão é orçamento. Os outros dez bilhões são empréstimos via BNDES. Ou seja: governador e prefeito terão que pegar empréstimo, pagar juros ao banco federal, para assumir responsabilidade da União. Narcotráfico, tráfico de armas e lavagem de dinheiro são crimes federais. Não são atribuições dos governadores”, diz Caiado.

Poucas horas após a gravação da entrevista, o site The Intercept Brasil publicou diálogos entre o pré-candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. Nas conversas, Flávio pede dinheiro a Vorcaro para financiar a gração do filme Dark Horse, sobre a vida de Jair Bolsonaro.

“O senador Flávio Bolsonaro deve responder aos questionamentos sobre o financiamento do filme e as relações com o dono do Master. Tudo que envolve Master e cifras milionárias precisa ser tratado com total transparência com a população. O Brasil vive um momento em que a sociedade exige clareza nas relações entre agentes públicos, empresas e interesses privados”, disse Caiado em nota sobre o tema.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

Metrópoles — A candidatura é pra valer? Vai até o final?

Caiado — Eu tenho uma característica na minha vida: levar adiante todos os projetos com humildade. Já fui candidato a presidente quando era o mais jovem candidato da disputa. Agora, 39 anos depois, fui deputado federal por cinco mandatos, senador e governador do estado mais bem avaliado do Brasil, deixando o governo com 88% de aprovação.

O PSD me convidou dentro de uma estrutura em que já existiam dois pré-candidatos muito fortes, dois governadores também muito bem avaliados, como Ratinho Jr., do Paraná, e Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul.

Eu convivo muito bem com todos eles, mas aceitei o convite porque meu partido anterior decidiu não lançar candidato à Presidência.

Também existe um fator importante, que é o destino. Eu não tinha partido. Depois fui para um partido que já tinha dois pretendentes em melhores condições, por já estarem lá há mais tempo. E, no fim, coube a mim representar o PSD.

Hoje o país vive uma discussão vazia, centrada apenas no 8 de Janeiro, enquanto assuntos importantes deixam de ser debatidos. O brasileiro quer discutir emprego, educação, saúde, segurança, inteligência artificial, desenvolvimento econômico. Não quer viver eternamente numa guerra política.

Se eu saí de Goiás com 88% de aprovação, é porque entreguei resultado. E acredito que o Brasil precisa voltar a discutir resultados.

Metrópoles — O senhor venceu uma disputa interna importante no PSD para se tornar pré-candidato à Presidência. Como foi esse processo?

Caiado — Nós nos submetemos à decisão de um colegiado presidido pelo Kassab. Os outros dois pré-candidatos preferiram permanecer focados na sucessão dos seus estados. Essa foi a decisão deles.

Eu digo que existe muito de destino nessa caminhada. Eu não tinha partido, fui chamado para o PSD e, dentro do PSD, inicialmente estava em terceiro lugar nessa disputa interna. Depois, os outros dois colegas decidiram permanecer nos seus estados e eu passei a ser o nome do partido para a Presidência.

Metrópoles — O senhor disse recentemente que pretende anistiar Jair Bolsonaro. Por que um eleitor de direita deveria votar no senhor e não em Flávio Bolsonaro?

Caiado — Eu pretendo discutir política olhando para os 215 milhões de brasileiros. Sou médico, cirurgião, e acho que o Brasil precisa tomar uma medida que encerre essa disputa permanente em torno do 8 de Janeiro.

Esse debate fez tanto o PT quanto o PL deixarem de discutir educação, saúde, segurança, inteligência artificial e desenvolvimento econômico para viver uma polarização que cansou as pessoas. Isso criou brigas em famílias, entre amigos, e travou o Brasil.

O PT ganhou quatro eleições. Depois nós (direita) ganhamos uma eleição, que foi em 2018. Depois o PT ganhou de novo, a quinta eleição. Ora, se ele (Bolsonaro) tivesse sabido governar, o  Lula não teria voltado nunca.

Por isso eu defendo encaminhar ao Congresso uma anistia logo no início do governo. Não para beneficiar A ou B, mas para encerrar esse assunto e permitir que o Brasil volte a discutir futuro (…).

O PT governou cinco mandatos e o que cresceu nesse período? O crime organizado, a corrupção, o PCC, o Comando Vermelho. O jovem perdeu a perspectiva de futuro. O país ficou atrasado em inteligência artificial, pesquisa, inovação e formação profissional.

Nós já estamos na terceira geração do Bolsa Família. O que eu defendo é criar oportunidade para que as pessoas tenham independência, formação profissional e capacidade de crescer.

O Brasil precisa ter a ousadia que outros países tiveram. A Índia, por exemplo, há 40 anos era mais pobre que o Brasil e hoje já caminha para ser uma das maiores economias do mundo.

Metrópoles — Vamos falar sobre minerais críticos e terras raras. Críticos do senhor dizem que Goiás facilitou a entrega desses recursos para empresas estrangeiras. O que responde?

Caiado — Primeiro, é importante esclarecer uma coisa: quem autoriza exploração mineral é o governo federal. A empresa Serra Verde já tinha fundos americanos e ingleses como investidores antes mesmo do meu governo.

Ela começou a produzir em Goiás e exportava 100% da produção para a China. O Lula não falou nada sobre isso.

O que eu fiz foi buscar memorandos de entendimento com Japão e Estados Unidos para trazer tecnologia ao Brasil. Hoje o país exporta matéria-prima bruta e perde valor agregado.

Você vende uma tonelada de minério bruto por um valor baixo e depois recompra os minerais separados por preços muito superiores. O que eu defendo é criar capacidade tecnológica para fazer esse processamento aqui.

Eu acredito em ciência, pesquisa e inovação. O Brasil não pode continuar agindo como colônia exportadora de matéria-prima.

O que Goiás está fazendo é dar uma lição de como desenvolver tecnologia, agregar valor e criar riqueza dentro do país.

Metrópoles — Se eleito, como o senhor pretende ampliar essa política para o país inteiro?

Caiado — Com parceria tecnológica e investimento em pesquisa. Nenhum país consegue fazer isso sozinho.

O importante é não se acomodar apenas exportando matéria-prima. Goiás criou uma legislação específica para minerais críticos, respeitando as competências da União, mas organizando toda a estrutura estadual para atrair investimentos e desenvolver tecnologia.

O Brasil já perdeu espaço para a China em várias áreas. Não podemos continuar perdendo competitividade.

Metrópoles — Segurança pública é um dos pontos mais elogiados da sua gestão. O que poderia ser replicado nacionalmente?

Caiado — Segurança pública é a base da governabilidade. Sem segurança, não existe desenvolvimento.

Implantamos em Goiás um sistema de inteligência artificial de combate ao crime que considero um dos mais modernos da América Latina. Também reorganizamos o sistema penitenciário para impedir que facções continuem comandando o crime de dentro das prisões.

Investimos fortemente em inteligência, integração entre as polícias e formação especializada. Goiás praticamente eliminou crimes como novo cangaço, assalto a banco e sequestro.

O cidadão precisa voltar a viver sem medo. O Estado não pode se ajoelhar para o crime organizado.

Metrópoles — Como o senhor lidaria com o avanço do crime organizado no Rio de Janeiro?

Caiado — Trabalhando em parceria com os governadores e assumindo a responsabilidade federal no combate ao narcotráfico e ao tráfico de armas.

A Guarda Nacional precisaria ser reformulada, integrada aos estados e baseada em inteligência regional. Também seria necessário investir em tecnologia, monitoramento e fortalecimento do sistema penitenciário.

Defendo classificar facções criminosas como organizações terroristas e mobilizar as Forças Armadas para recuperar territórios dominados pelo crime organizado.

O governo federal precisa assumir sua responsabilidade. O tráfico internacional de armas e drogas é crime federal.

Metrópoles — Muitos eleitores associam candidatos da direita à redução de programas sociais. O que o senhor pretende fazer nessa área?

Caiado — Sou médico e acredito em políticas sociais que emancipem as pessoas. Em Goiás criamos programas importantes, como o Bolsa Estudo, antes mesmo de iniciativas semelhantes do governo federal.

O objetivo deve ser gerar riqueza, emprego e oportunidade, e não perpetuar a dependência.

Hoje o Brasil vive um cenário de endividamento das famílias, juros altos e perda de renda. O pequeno empresário, o trabalhador e o agricultor estão sufocados.

Programas sociais precisam servir para criar autonomia e qualificação profissional. O país precisa voltar a crescer para distribuir riqueza, e não pobreza.

Metrópoles — O próximo presidente vai assumir um cenário fiscal difícil. Como o senhor lidaria com isso?

Caiado — O governo Lula levou o país a uma situação fiscal grave por causa do populismo e da irresponsabilidade fiscal.

O problema não é só a taxa sobre importações. O Brasil hoje impõe uma carga muito pesada sobre quem produz, enquanto compete com países que têm custos muito menores.

O pequeno empresário brasileiro está sendo esmagado. Precisamos reconstruir a capacidade produtiva do país, reduzir o peso do Estado sobre quem trabalha e criar condições para o Brasil voltar a crescer.

Ganhar a eleição é importante, mas mais importante ainda é saber governar para que o Brasil não volte a repetir os mesmos erros.

Metrópoles — Para encerrar: qual foi a principal lição que o senhor aprendeu sobre o Brasil desde sua primeira candidatura presidencial, em 1989?

Caiado — Aprendi que ninguém deve pular etapas. Meu pai dizia que eu ainda não tinha experiência suficiente para ser presidente. Com o tempo, entendi a importância de conhecer o Legislativo, o Executivo e o funcionamento das instituições.

Hoje acredito que estou preparado para enfrentar os desafios do país. O Brasil precisa recuperar a confiança nas instituições, criar oportunidades e voltar a oferecer perspectiva às novas gerações.

Quero construir um governo de diálogo, com ministros qualificados, parceria com governadores e respeito às instituições.

Eu prometi devolver Goiás aos goianos, e entreguei isso. Se tiver a oportunidade, quero devolver o Brasil aos brasileiros de bem.



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