
O Nubank registrou no primeiro trimestre de 2026 o maior faturamento de sua história e reforçou sua estratégia de crescimento baseada em inteligência artificial, expansão do crédito e avanço internacional. A fintech informou receita acima de US$ 5 bilhões pela primeira vez, além de lucro líquido de US$ 871 milhões entre janeiro e março.
Os números consolidam o banco digital como uma das maiores instituições financeiras da América Latina em número de clientes e mostram uma mudança relevante na estratégia da companhia: o uso intensivo de inteligência artificial para ampliar concessão de crédito, aumentar produtividade e competir com bancos tradicionais em produtos mais rentáveis.
A empresa encerrou março com mais de 135 milhões de clientes no Brasil, México e Colômbia. Só no primeiro trimestre, foram adicionados cerca de 4 milhões de usuários. No Brasil, o Nubank ultrapassou 115 milhões de clientes e afirma ter se tornado a maior instituição financeira privada do país em base de usuários.
O lucro cresceu 41% na comparação anual, enquanto o retorno sobre patrimônio (ROE) atingiu 29%, patamar considerado elevado no setor bancário.
Inteligência artificial vira centro da estratégia
O principal eixo da nova fase do Nubank é a incorporação de inteligência artificial em praticamente toda a operação financeira. A companhia informou que modelos próprios de IA já são usados para análise de crédito no Brasil e no México, inclusive em decisões automatizadas de empréstimos pessoais realizadas em menos de um segundo.
Segundo a empresa, ferramentas batizadas de “AI Private Banker” já atendem mais de 15 milhões de usuários ativos mensais com recomendações financeiras, pagamentos e renegociação de dívidas.
A estratégia aproxima o Nubank do movimento adotado por gigantes de tecnologia e instituições financeiras que vêm usando IA para automatizar serviços bancários, reduzir inadimplência e ampliar oferta de crédito personalizado.
Nos últimos meses, bancos como JPMorgan Chase, Goldman Sachs e Morgan Stanley também aceleraram investimentos em inteligência artificial aplicada a análise financeira e atendimento ao cliente.
No caso do Nubank, a IA aparece diretamente ligada à expansão da carteira de crédito, área que se tornou central para a rentabilidade do banco digital.
Expansão do crédito aumenta receitas, mas eleva inadimplência
A carteira total de crédito do Nubank chegou a US$ 37,2 bilhões, crescimento de 40% em relação ao mesmo período do ano passado. O avanço foi puxado principalmente pelo cartão de crédito e pelos empréstimos pessoais sem garantia.
Com a expansão mais agressiva do crédito, a inadimplência voltou a subir. O indicador de atrasos entre 15 e 90 dias avançou para 5%, movimento que a empresa atribui à sazonalidade do início do ano e ao crescimento deliberado em segmentos considerados mais arriscados.
O índice acima de 90 dias, porém, caiu para 6,5%, abaixo do pico registrado em 2024.
Analistas acompanham com atenção esse movimento porque a expansão acelerada do crédito foi justamente um dos pontos que levantaram dúvidas sobre o modelo do Nubank nos últimos anos. Em diferentes momentos desde a abertura de capital em Nova York, investidores questionaram se a fintech conseguiria crescer mantendo rentabilidade e controle da inadimplência simultaneamente.
Até agora, os resultados têm mostrado capacidade de monetização crescente. A receita média mensal por cliente ativo atingiu aproximadamente US$ 16, em trajetória de alta.
Outro destaque do trimestre foi a operação mexicana. O Nubank afirmou ter atingido o break-even no país, quando a operação passa a deixar de consumir caixa, e alcançado 15 milhões de clientes.
O México virou prioridade estratégica para a companhia por reunir baixa bancarização, concentração bancária elevada e maior espaço para expansão digital. O mercado é dominado historicamente por grupos como BBVA, Santander e Banorte.
A fintech afirma ter repetido no país a fórmula usada no Brasil: aquisição acelerada de clientes, oferta de serviços sem tarifas e posterior expansão de produtos financeiros mais lucrativos.
Na Colômbia, o banco digital se aproxima de 5 milhões de usuários, mas ainda opera em estágio menos avançado.
Entrada nos Estados Unidos será gradual
O Nubank também confirmou que prepara uma expansão para os Estados Unidos, embora em ritmo mais cauteloso do que em outros mercados.
Segundo a companhia, os investimentos iniciais devem permanecer limitados para evitar impacto relevante sobre a rentabilidade consolidada. A empresa afirmou que novos aportes dependerão da comprovação de demanda e viabilidade econômica da operação.
A entrada no mercado americano coloca o Nubank diante de um ambiente mais competitivo, com presença de grandes bancos, fintechs consolidadas e plataformas digitais de pagamento já amplamente difundidas.
Desde a abertura de capital na Bolsa de Nova York, em 2021, o Nubank passou por uma mudança importante de percepção entre investidores.
Inicialmente visto sobretudo como uma fintech focada em crescimento acelerado de clientes, o banco digital passou a ser analisado mais como uma instituição financeira rentável e diversificada, com presença crescente em crédito, seguros, investimentos e serviços para empresas.
O resultado divulgado nesta quinta-feira reforça essa transição. Ao mesmo tempo, aumenta a pressão para que a companhia consiga sustentar expansão acelerada sem deterioração mais forte da qualidade da carteira de crédito, especialmente em um cenário de juros ainda elevados na América Latina e desaceleração econômica em parte da região.