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Às vésperas da reunião para deliberar sobre a suspensão da comercialização e uso de detergentes e outros produtos de limpeza do lote com final 1 da marca Ypê, representantes da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e da Química Amparo LTDA se reuniram para a apresentação das ações de readequação realizadas pela empresa após a determinação da agência. O encontro ocorreu nesta terça-feira, 12, e, nesta quarta-feira, 13, a Anvisa vai definir os rumos da proibição diante do recurso apresentado pela empresa.
O encontro ocorreu na sede da agência, em Brasília, e reuniu o diretor-presidente da Anvisa, Leandro Safatle, o diretor Daniel Pereira, responsável pela supervisão da fiscalização, o presidente da Ypê, Waldir Beira Júnior, e o diretor de operações (COO) da empresa, Jorge Eduardo Beira.
A agência informou que, na ocasião, a empresa informou que suas equipes da fábrica de Amparo, no interior paulista, “intensificaram o trabalho para atender a 239 ações corretivas elencadas pela Ypê, com o objetivo de cumprir as exigências da vigilância sanitária”.
Segundo a Ypê, essas adequações consideraram ainda inspeções realizadas em 2024 e 2025.
Irregularidades na Ypê
A Anvisa determinou a proibição de venda e uso de detergentes, lava roupas líquidos e desinfetantes na última quinta-feira, 7, diante de irregularidades encontradas na fábrica no interior paulista e problemas identificados em outras visitas.
Em material enviado a VEJA, a agência listou os problemas encontrados na inspeção, considerados “falhas estruturais muito graves de garantia de qualidade”, como:
- Produtos sendo mantidos de forma inadequada dentro da fábrica
- Falhas no sistema de controle de qualidade
- Dificuldade de rastrear a origem e o caminho dos produtos dentro da produção
- Reprocessamento de produtos
- Problemas na limpeza das instalações industriais
- Falhas no controle da água usada na fabricação
- Armazenamento inadequado de matérias-primas ou produtos acabados
- Falhas na segregação entre etapas e materiais
- Controle insuficiente de microrganismos (como bactérias e outros contaminantes)
A agência destacou que a decisão não se baseia apenas nos achados da inspeção mais recente. “O histórico da fabricante também entrou na avaliação de risco sanitário”, escreveu em nota.
Levantamento no sistema de produtos irregulares da Anvisa mostra que, além da medida atual, há registros de uma suspensão em 2025 (na qual foi identificada presença da bactéria Pseudomonas aeruginosa, perigosa especialmente para pessoas imunossuprimidas) e cerca de sete ocorrências em 2024.
Ypê destaca compromisso com o consumidor
Em meio à crise, a Ypê tem emitido comunicados destacando seu compromisso com a transparência e o consumidor. Em nota, afirmou que “vem realizando análises técnicas e avaliações complementares, incluindo testes e laudos independentes, que seguem sendo apresentados às autoridades competentes, reforçando o compromisso da empresa com a qualidade, a segurança e a conformidade regulatória dos seus produtos”.
A empresa disse, nas redes sociais, que triplicou a capacidade de atendimento no Serviço de Atendimento ao Consumidor (SAC) para dar suporte às pessoas com dúvidas.
‘Não bebam detergente’
O caso Ypê enveredou também para a polarização política e desencadeou ações dos apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro que colocam a saúde da população em risco.
Várias pessoas, inclusive figuras políticas, têm postado vídeos comprando e utilizando detergentes da Ypê. Até a ex-primeira-dama, Michelle Bolsonaro, fez um post enaltecendo a marca. Em casos mais extremos, pessoas apareceram passando produtos na pele e simulando a ingestão.
Isso fez com que o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, se manifestasse na última segunda-feira, 11, com um apelo à população: “Não bebam detergente. Não bebam qualquer produto de qualquer marca, muito menos saia fazendo vídeozinho sobre isso. Isso é uma desinformação para a população, colocando em risco a vida das pessoas”.