Basta abrir o Instagram para perceber: fotos de treinos ao amanhecer, medalhas no fim de semana e vídeos de gente correndo em grupo aparecem o tempo todo. A sensação é de que, de repente, todo mundo resolveu correr. Mas o que explica esse fenômeno?
A corrida de rua não é exatamente nova, mas ganhou força e muita popularidade nos últimos anos. Para o professor de educação física Celby Rodrigues, membro da Câmara de Esportes do Conselho Federal de Educação Física (Confef), um dos principais motivos está justamente nessa facilidade de entrada.
“Ela é integradora e permite que pessoas de diferentes idades e classes sociais participem”, afirma.
Segundo ele, a popularização das provas mais curtas, como cinco e 10 quilômetros, também ajudou a atrair iniciantes. “Muita gente começa caminhando, evolui para um trote e depois para a corrida. Isso torna a prática mais possível para quem está começando”, explica.
Mais do que apenas um exercício
Se antes correr era visto apenas como atividade física, hoje a prática ganhou outros significados. A psicóloga Flávia Marsola, do Hospital Brasília Águas Claras, avalia que há um forte componente coletivo nesse movimento.
“A corrida virou mais do que exercício, virou uma linguagem social. Ela está associada a produtividade, autocuidado e até a uma ideia de superação”, diz.
As redes sociais têm papel importante nessa percepção. “Antes, alguém corria e poucas pessoas sabiam. Hoje, tudo é compartilhado em tempo real, o que gera identificação, comparação e incentivo”, afirma.
Segundo ela, o próprio algoritmo contribui para a sensação de que todos estão fazendo a mesma coisa ao mesmo tempo.
Esse efeito tem impacto direto no comportamento. “Quando vemos pessoas parecidas conosco adotando um hábito, isso aumenta a percepção de que também somos capazes”, explica. Ainda assim, ela faz uma distinção importante: “Isso pode motivar o início, mas o que sustenta a prática é a experiência individual, o prazer e o sentido que a pessoa encontra.”

Efeitos no corpo
Além da influência das redes, os benefícios físicos ajudam a explicar por que tanta gente decide começar. De acordo com o professor de educação física Ericson Pereira, coordenador do curso da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), a melhora no condicionamento é um dos primeiros ganhos percebidos.
“A pessoa sente no dia a dia. Sobe uma escada com menos esforço, percebe melhora na frequência cardíaca e no sono”, afirma.
Além disso, há impactos positivos no bem-estar, como a liberação de hormônios ligados à sensação de satisfação e felicidade, o que contribui para o equilíbrio emocional.
Outro fator que atrai iniciantes, segundo o professor, é a possibilidade de emagrecimento e redução do percentual de gordura, além da melhora geral na disposição.
Como começar a correr sem se machucar?
Apesar de parecer simples, sair para correr exige alguns cuidados. Segundo Pereira, um dos erros mais comuns é querer começar em um ritmo acima do que o corpo suporta. “É um exercício de repetição, então, sem preparo, aumenta o risco de lesões como tendinites”, ressalta.
A orientação é iniciar de forma progressiva. “O ideal é começar com caminhada e, aos poucos, alternar com pequenos trechos de corrida. Com o tempo, o corpo ganha resistência e é possível evoluir”, diz.
Ele também recomenda avaliação médica e acompanhamento profissional, principalmente para quem estava sedentário. “Fortalecer a musculatura e respeitar os limites do corpo faz toda a diferença para evitar lesões e manter a prática”, destaca o profissional.