Belo Horizonte – A queda de uma égua em uma adutora do Sistema Rio das Velhas, operado pela Companhia de Saneamento de MG (Copasa), deixou mais de 700 bairros sem água na capital mineira e outras sete cidades da Região Metropolitana, e expôs vulnerabilidades.

O caso obrigou escolas, universidades e órgãos públicos a adotarem medidas emergenciais para reduzir o consumo e acendeu um alerta sobre a segurança do sistema. Afinal, se um acidente envolvendo um animal de porte médio — que pode pesar 600 kg e medir 1,70 m — causou tamanho impacto, com 37 horas para localizar o corpo do animal e problemas até esta semana, o que falhas maiores podem provocar?

Especialistas afirmam que rejeitos da mineração, entre fatores como clima e esgoto, são riscos grandes para o abastecimento de água para milhões de mineiros.

“Foi um evento da maior importância porque revelou as condições de insegurança e a vulnerabilidade do sistema de distribuição de água de uma das maiores regiões metropolitanas do Brasil”, afirmou Apolo Heringer Lisboa é um médico sanitarista, ambientalista, escritor e professor universitário, reconhecido principalmente como idealizador do Projeto Manuelzão da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Crise com égua expõe risco da mineração para água de BH, diz geógrafo - destaque galeria

Adutora da Copasa
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Égua foi encontrada
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Égua foi encontrada

Reprodução/Redes sociais

Moradores do Aglomerado da Serra encontram 'corpo estranho' em água
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Moradores do Aglomerado da Serra encontram ‘corpo estranho’ em água

Imagens cedidas ao Metrópoles

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Como funciona

De acordo com o geógrafo e cientista do clima Lucas Oliver, a Grande BH depende de dois sistemas de abastecimento de água que são frágeis. Segundo ele, o fornecimento pode ser afetado tanto pelas mudanças no clima quanto pelos impactos da mineração.

Segundo a Copasa, 0 sistema Paraopeba, composta pelos sistemas Rio Manso, Serra Azul e Vargem das Flores, responsável por cerca de 54% do volume distribuído; e Rio das Velhas, que contribui com aproximadamente 46%

De acordo com Lucas Oliver, enquanto o primeiro depende de represas e sofre diretamente com a escassez de chuvas – até essa quinta-feira (7/5) operava com com cerca de 83,5% da capacidade total de armazenamento de água, de acordo com a Copasa – , o segundo retira água diretamente do leito do rio, o que o torna extremamente suscetível a desastres ambientais.

No centro do debate está a falta de alternativas viáveis caso o Rio das Velhas sofra um impacto irreversível.

“O problema de Bela Fama [principal estrutura de captação do Sistema Rio das Velhas] é que, nesta época do ano, fica muito seco. Além disso, também podemos ter problemas relacionados às barragens. O caso da égua mostra que temos pouca alternativa caso Bela Fama enfrente algum problema”, afirma o especialista.

Olivier segue: “A gente não tem de onde tirar água e ficamos apenas algumas horas sem esse abastecimento. Já uma barragem poderia impedir de forma permanente a captação de água do rio. Nesse caso, não haveria alternativa de onde captar água para Belo Horizonte”.

A mineração e o Rio das Velhas

Diferente de falhas pontuais ou manutenções da Copasa, o principal risco permanente está na presença da mineração na região. De acordo com os especialistas, a presença de barragens de rejeitos em nível de alerta — como as localizadas em Ouro Preto, Região Central de Minas  — paira como uma ameaça constante sobre o Rio das Velhas.

“Existem 69 barragens de rejeitos de mineração somente na Bacia do Rio das Velhas. Dessas, 55 ficam acima da Estação de Tratamento de Água (ETA) de Bela Fama”, disse Apolo.

Segundo boletins recentes da Agência Nacional de Mineração (ANM), Ouro Preto segue entre os municípios mineiros com maior concentração de estruturas sob monitoramento especial.

A barragem Forquilha III, da Vale, por exemplo, ficou entrou no nível 3 de emergência em 2019 — classificação máxima da Agência Nacional de Mineração (ANM), que indica risco iminente de rompimento. Apenas em agosto de 2025, a estrutura foi rebaixada para o nível 2, seguindo sob monitoramento.

Não acho que seja um despreparo da Copasa. A gente, com o Rio das Velhas saudável, não teria problema. Mas, como colocamos muitas mineradoras na região, criamos um risco desnecessário caso aconteça algum problema em uma dessas barragens de rejeito, pilhas de estéril ou outras estruturas. Também deveríamos pensar em alternativas mais sérias e ampliar esse debate para que a população saiba.”

Vale lembrar que, até hoje, os rios Doce, Carmo e Gualaxo do Norte ainda sofrem com impactos após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, ocorrido em 5 de novembro de 2015. O desastre matou 19 pessoas e a contaminação percorreu mais de 600 quilômetros, passando por Minas Gerais até chegar ao oceano Atlântico, no Espírito Santo.

Problema permanente

Para Apolo, além dos riscos em possíveis cenários futuros, também é necessário olhar para os problemas atuais. Ele alerta para uma questão que considera ainda mais grave e permanente na Bacia do Rio das Velhas: a contaminação provocada pelo despejo de esgoto doméstico, resíduos industriais e lixo ao longo da Região Metropolitana de Belo Horizonte.

Segundo ele, a maior concentração desses impactos ocorre entre a Estação de Tratamento de Água (ETA) de Bela Fama e a foz do Ribeirão da Mata, passando pelo Ribeirão Onça, que deságua em Santa Luzia.

“Há 30 anos me dedico ao Projeto Manuelzão, da UFMG, e o que mais me chama atenção é que 85% dos eventos negativos da bacia acontecem justamente nessa região central da RMBH. Estamos falando de esgoto doméstico, comercial, resíduos industriais e lixo sendo lançados continuamente no rio, afetando cerca de 5 milhões de pessoas. É um problema permanente há mais de 130 anos e que ainda não recebe a mesma repercussão”, afirmou.

O que diz a Copasa

A Copasa informou que atua em 42 dos 51 municípios da Bacia do Rio das Velhas, sendo responsável também pelo esgotamento sanitário em 29 deles. Segundo a companhia, toda a água captada passa por tratamento dentro dos padrões exigidos pelo Ministério da Saúde.

A empresa destacou que o trecho entre a ETA Bela Fama e a foz do Ribeirão da Mata é o mais impactado pela ação humana, por atravessar parte da Região Metropolitana de Belo Horizonte.

Entre as ações citadas para melhorar a qualidade da bacia estão a ampliação da ETE Onça, com implantação de tratamento terciário, além dos programas Reviva Pampulha e Pró-Mananciais, voltados para coleta de esgoto e recuperação ambiental.



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